[SPOILER]

Às vezes desconfiamos silenciosamente de que Ele não pode dar conta de tudo o que vai em nossa mente e coração. 

Duvidamos de que Ele possa aceitar nossos pensamentos cheios de ódio, nossas fantasias cruéis e nossos sonhos malucos. Ficamos a nos perguntar como ele lidaria com nossos impulsos primitivos, nossas ilusões envaidecidas e nossos castelos mentais exóticos. 

A profunda resistência a nos tornar vulneráveis, a nos expor e a nos sentir totalmente desprotegidos é nossa forma implícita de dizer: "Jesus, confio em ti, mas há limites"

Quando nos recusamos a compartilhar nossas fantasias, preocupações e alegrias, estabelecemos limites ao senhorio de Deus sobre nossa vida e deixamos claro que há partes de nós sobre as quais não queremos conversar com Deus.

Parece que não era só isso que o Mestre tinha em mente quando disse:
"... crede também em mim" Jo 14:1.

Juliano Fabricio
Aprendendo sobre confiar
[O spoiler é uma espécie de estraga-prazeres]


Cuidado!!!

Apesar de aparentemente termos escapado do 1984 de George Orwell, ainda estamos correndo grande perigo com o Admirável Mundo Novo, de Huxley. As pessoas normalmente confundem os dois livros, mas eles apresentam visões bem diferentes do futuro.

Orwell fez uma advertência contra um inimigo externo que se vale da violência e da propaganda para impor sua vontade — algo semelhante ao comunismo ou nazismo, e George Orwell conhecia bem a ambos. 

Em contraste, Huxley fez advertências contra um inimigo mais sutil que vem de dentro. As pessoas alegremente trocariam sua liberdade e autonomia por uma tecnologia que promete conforto, segurança e divertimento, predisse ele. Os vilões de Orwell usavam uma máquina que causa dor para forçar seus decretos; os vilões de Huxley se valeram do prazer. O regime de Orwell baniu os livros; na fantasia de Huxley, os livros são abundantes, mas ninguém quer lê-los.

Uma vez que 1984 chegou e foi embora e sua ameaça retrocede rapidamente, talvez seja a hora de atualizar o pesadelo gentil de Huxley. Como seria uma "Admirável Sociedade Nova"?

***Eis o que vejo e quase ninguém vê***:

Esperamos tudo e qualquer coisa.

Esperamos o contraditório e o impossível. 

Esperamos carros compactos que sejam espaçosos; carros luxuosos que sejam econômicos. 

Esperamos ser ricos e caridosos, poderosos e misericordiosos, ativos e reflexivos, gentis e competitivos. 

Esperamos ficar inspirados com apelos medíocres a favor da "excelência", a fim de nos tornemos alfabetizados por apelos analfabetos a favor da alfabetização.

Esperamos comer e permanecer magros, estar constantemente nos mudando e cada vez mais próximos da vizinhança, ir à "igreja de sua escolha" e sentir sua força guiadora sobre nós, reverenciar Deus e ser Deus.

Nunca as pessoas dominaram mais seu ambiente. Mas nunca um povo se sentiu mais enganado e decepcionado.

Ah, Admirável Mundo Novo! Lembrando que a essa "cultura moderna", também se refere a algo que cresce em um meio artificial, igual um vírus.

*Distopia: Distopia ou antiutopia é o pensamento, a filosofia ou o processo discursivo baseado numa ficção cujo valor representa a antítese da utopia ou promove a vivência em uma "utopia negativa". As distopias são geralmente caracterizadas pelo totalitarismo, autoritarismo, por opressivo controle da sociedade. Nelas, "caem as cortinas", e a sociedade mostra-se corruptível; as normas criadas para o bem comum mostram-se flexíveis. A tecnologia é usada como ferramenta de controle, seja do Estado, seja de instituições ou mesmo de corporações.

Juliano Fabricio
Pirando a cabeça 
com Orwell e Huxley
[Ps: leiam esses clássicos]


Leio os evangelhos em busca de orientação, apenas para ser lembrado de como Jesus foi apolítico. 

A referência maior e mais profunda do evangelho não é ao mundo ou aos seus problemas sociais, mas à eternidade e às suas obrigações sociais. 

Hoje, sempre que uma eleição está por vir, os cristãos debatem se este ou aquele candidato é o "homem de Deus" para assumir o cargo.

Projetando-me para os tempos de Jesus, tenho dificuldade em imaginá-lo ponderando se Tibério, Otávio ou Júlio César era o "homem de Deus" para o império.

O homem que eu sigo, um judeu-palestino do primeiro século, também esteve envolvido em uma guerra cultural. Ele se levantou contra uma instituição religiosa rígida e um império pagão. Os dois poderes, geralmente em desacordo, conspiravam juntos para elimina-lo. Sua reação? Não lutar, mas dar a sua vida pelos seus inimigos, e apontar para esse dom como a prova do seu amor. Entre as últimas palavras que Ele enunciou antes da sua morte estavam estas: "Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem".

As figuras apresentadas por Jesus descrevem o reino como um tipo de força secreta.

Ovelhas entre lobos, tesouro escondido em um campo, a menor das sementes no jardim, trigo crescendo entre joio, um punhado de fermento operando na massa do pão, uma pitada de sal na carne. Tudo isso aponta para um movimento que opera dentro da sociedade, mudando-a de dentro para fora. Você não precisa de uma pá cheia de sal para preservar uma fatia de presunto; um pouquinho seria suficiente.

Jesus não deixou uma hoste organizada de discípulos, pois Ele sabia que um punhado de sal gradualmente operaria através do mais poderoso império do mundo. Contra todas as possibilidades, as grandes instituições de Roma, o código de leis, as bibliotecas, o Senado, as legiões romanas, as estradas, os aquedutos e os monumentos públicos, tudo isso foi desmoronando gradualmente, mas o pequeno bando prevaleceu e continua até o dia de hoje.

Søren Kierkegaard descreve a si mesmo como um espião, e realmente os cristãos agem como espiões, vivendo em um mundo enquanto nossa mais profunda fidelidade pertence a outro. 

Somos alienígenas residentes, ou forasteiros, utilizando uma expressão bíblica.

Lembrando: Um padrão histórico da Igreja é que a heresia sempre começa de cima e o avivamento sempre de baixo. Esse entendimento, essa mudança sempre virá de baixo, como costuma acontecer, e não imposta de cima. A escada do poder sobe, a escada da graça desce.

Juliano Fabricio
um forasteiro


Não sou religioso
Não sou denominacionalista
Não sou fundamentalista
Não sou liberal
Não sou protestante
Não sou evangélico
Não sou e não estou debaixo de nenhuma visão, filosofia ou mover da moda.
Não ostento nenhum titulo
Não sou sei lá o que mais…

....

Sou um ser humano tentando seguir Jesus de Nazaré no chão da vida pra quem sabe ser chamado de cristão por conta de me parecer com Cristo.

Sou filho, sou irmão, sou marido, sou pai, sou tio, sou primo, sou amigo.

Sou um cuidador, cuidando e se deixando cuidar.

Sou parte de uma Rede do Bem com todos os que fazem o bem a todos.

Sou Igreja com os que Igreja são no chão da vida.

Juliano Fabrio
 em uma  conversa com o
 inspirador Carlos Bregantim.


Agora, enquanto reflito nas histórias de Jesus a respeito do reino, percebo que muita da intranquilidade entre os cristãos de hoje surge de uma confusão entre os dois reinos, o visível e o invisível

Cada vez que uma eleição se aproxima, os cristãos discutem se esse ou aquele candidato é o "homem de Deus, ou no mínimo melhor para os interesses evangélicos".

Projetando-me de volta aos tempos de Jesus, tenho dificuldade de imaginá-lo ponderando se Tibério, Otávio ou Júlio Cesar... — sem mencionar Nero ou Calígula — era o "homem de Deus" para o império. O que acontecia em Roma estava num plano completamente diferente do plano do reino de Deus.

Infelizmente a igreja perde de vista sua missão original à medida que se aproxima do centro de poder. 

Testemunham isso a época de Constantino, a Idade das Trevas e a Europa de um pouco antes da Reforma. Pode ser que estejamos vendo a história se repetir. A igreja tem enfrentado a tentação constante de se transformar no "patrulhamento moral" da sociedade.

O relacionamento íntimo entre a igreja e o governo tem resultado na perda de respeito pela igreja. 

Forçar uma cristianização é sempre uma batalha perdida.

Como disse Karl Barth: "[a igreja] existe... para estabelecer no mundo um novo sinal que é radicalmente diferente da maneira [do mundo] e que o contradiz de uma forma que é cheia de promessas".

Lembretes úteis: 

• Se as portas do inferno não vão prevalecer contra a igreja, o cenário político atual dificilmente vai representar uma ameaça significativa. [Sem medos]

• Talvez a política tenha demonstrado ser tal armadilha para a igreja porque o poder raramente coexiste com o amor. Nossos melhores esforços na sociedade mutante falharão a não ser que a igreja possa ensinar o mundo a amar.

• A escada do poder sobe, a escada da graça desce.

• Os cristãos deveriam se envolver em política e usar seus princípios cristãos, sua moralidade e sua ética no processo. Mas eles não deveriam pular neste meio, dizendo que suas crenças são a única saída possível".

• Política deveria ser feita com integridade, transparência e idealismo. Quem joga sujo para levar o título, certamente jogará sujo enquanto estiver no poder. Como dizia Gandhi, "o que destrói a humanidade é a política sem princípios, o prazer sem compromisso, a riqueza sem trabalho, a sabedoria sem caráter, os negócios sem moral, a ciência sem humanidade e a oração sem amor."

• Não seremos ajudados pelo poder, apenas pela renúncia de poder, da parte de Deus, por amor de nós. 

O poder nos força a mudar; apenas o amor pode nos mover a mudar. 

O poder afeta o comportamento; o amor afeta o coração.

“A igreja deve ser lembrada de que não é a mestra ou a serva do Estado, mas sim a sua consciência… Ela deve ser a guia e a crítica do Estado, nunca sua ferramenta. Se a igreja não recuperar seu fervor profético, ela se tornará um clube social irrelevante, sem autoridade moral ou espiritual.” Pr. Martin Luther King, Jr (1963), Strength To Love.

*Reflitam, pois esse tiro pode vir contra nós*

Juliano Fabricio 
“Vendo o futuro repetir o passado”


O pastor John Pavlovitz, da Carolina do Norte, fez quatro promessas a seus filhos caso um dia eles saiam do armário; todas são de AMOR

Às vezes eu penso se terei filhos gays.

Eu não sei se outros pais pensam sobre isso. Mas eu penso. Muito frequentemente.

Talvez seja porque eu tenha muitos gays na minha família e círculo de amigos. Está em meus genes e em minha tribo.

Talvez seja porque, como pastor de estudantes, eu tenha visto e ouvido as histórias de horror de crianças cristãs e gays, dentro e fora do armário, tentando fazer parte da igreja.

Talvez porque, como cristão, eu interaja com tantas pessoas que acham a homossexualidade a coisa mais repulsiva de se imaginar e que fazem questão de deixar isso abundantemente claro a cada oportunidade.

Qualquer que seja a razão, eu penso nisso frequentemente. Como pastor e como pai eu quero fazer algumas promessas a você e aos meus dois filhos.

1) Se eu tiver filhos gays, todos vocês saberão disso.

Minhas crianças não serão nosso mais bem guardado segredo familiar.

Eu não vou desconversar com estranhos. Eu não vou falar em linguagem vaga. Eu não tentarei colocar uma venda nos olhos de todos e eu não pouparei as emoções dos mais velhos, ou dos que se ofendem facilmente ou dos desconfortáveis. A infância já é difícil o suficiente e a maioria dos gays passam sua existência se sentindo horríveis, excruciantemente desconfortáveis. Eu não colocarei os meus filhos em mais desconforto desnecessário só para fazer o jantar de Ação de Graças mais fácil para um primo de terceiro grau rancoroso.

Se meus filhos saírem do armário, sairemos do armário como família.

2) Se eu tiver filhos gays, eu orarei por eles.

Eu não orarei para que eles sejam “normais”. Já vivi o suficiente para saber que, se meus filhos forem gays, este é o normal deles.

Eu não orarei para Deus curá-los ou consertá-los. Vou orar para que Deus os proteja da ignorância, do ódio e da violência que o mundo despejará sobre eles simplesmente por eles serem quem são. Vou orar para que Deus lhes coloque um escudo de proteção contra aqueles que os desprezam e querem machucá-los, que os amaldiçoam ao inferno e que os colocam como condenados sem nem mesmo conhecê-los. Eu orarei para que eles apreciem a vida, o sonho, que sintam, que perdoem e amem a Deus e a humanidade.

Acima de tudo, orarei para que meus filhos não recebam o tratamento nada cristão de suas ovelhas mal guiadas a ponto de afastá-los de seus caminhos.

3) Se eu tiver filhos gays, eu os amarei.

Não estou falando de um amor distante, tolerante e cheio de reservas. Será um amor extravagante, de coração aberto, sem desculpas. Aquele tipo de amor que constrange na porta da escola.

Eu não vou amá-los apesar de sua sexualidade nem vou amá-los por causa dela. Vou amá-los simplesmente por serem quem eles são: doces, engraçados, carinhosos, inteligentes, legais, teimosos, originais, lindos e… meus.

Se meus filhos forem gays, eles poderão ter milhões e milhões de dúvidas sobre si mesmos, sobre o mundo, mas nunca terão um segundo de dúvida sobre o amor que o pai deles sente por eles.

4) Se eu tiver filhos gays, basicamente, terei filhos gays

Se meus filhos forem gays – e eles já são bem gays… [gay em inglês significa, antes de tudo, alegre] Bem, isso quer dizer que Deus já os criou e os moldou e colocou neles a semente de quem eles são dentro deles. O Salmo 139 diz que Ele “os costurou no útero de sua mãe”. Para mim isso quer dizer que as incríveis e intricadas coisas que os fazem almas únicas na história foi colocado em suas células.

Por isso, não há um “deadline” para a sexualidade deles pela qual eu e sua mãe estejamos orando fervorosamente. Eu não acredito que haja alguma data de expiração mágica se aproximando quando eles “se tornarão héteros”.

O que há hoje é uma simples e jovem versão de quem eles serão; e hoje eles são incríveis.

Muitos de vocês podem se ofender com tudo isso. Eu percebo totalmente. Eu sei que isso deve ser especialmente verdade se você é uma pessoa religiosa, que acha esse tópico totalmente nojento.

Conforme vocês foram lendo isso, podem ter revirado os olhos ou selecionado trechos das escrituras para enviar ou orado para que eu me arrependa ou se preparado para deixarem de ser meus amigos ou me chamado de pecador, mau, herege condenado ao inferno… Mas da forma mais gentil e compreensiva que eu possa ser, digo uma coisa: não dou a mínima.

Isto não diz respeito a você. Isto é muito maior que você.

Você não é a pessoa que eu esperei ansiosamente por nove meses. Você não é a pessoa pela qual eu chorei de alegria quando nasceu. Você não é a pessoa a quem dei banho, alimentei, balancei para dormir durante as noites. Você não é a pessoa a quem eu ensinei a andar de bicicleta e cujo joelho esfolado eu beijei ou cuja mão eu segurei enquanto levava pontos. Você não é a pessoa cuja cabeça eu amo cheirar, cujo rosto ilumina quando eu chego em casa à noite e cuja risada soa como música para minha alma.

Você não é a pessoa que diariamente me dá significado e propósito e que eu adoro mais do que jamais imaginei adorar algo. E você não é a pessoa com quem eu espero estar quando der meus últimos suspiros neste planeta, olhando para trás agradecido por uma vida de tesouros compartilhados, sabendo que eu te amei da maneira certa.

Se você é pai, eu não sei como você responderá caso seus filhos sejam gays, mas eu oro para que você considere isso.

Um dia, a despeito de suas percepções sobre seus filhos ou de como foi sua paternidade, você talvez tenha que responder para uma criança assustada e ferida, cujo sentido de paz, identidade, aceitação, na verdade seu próprio coração, serão colocados em suas mãos de uma maneira que você nunca imaginou. E você terá de responder a isso.

Se este dia chegar para mim, se meus filhos saírem do armário para mim, este é o pai que eu espero ser para eles.

* Nota do autor: A palavra “gay” usada neste post se refere a qualquer um que se identifique como LGBT. Embora em conheça e respeite as distinções e diferenças, escolhi esta palavra porque ela é a mais simples e facilmente comunicável para o contexto deste artigo. Foi a maneira mais clara de me referir aos indivíduos não heterossexuais, usando uma palavra comum que ressoaria facilmente para o leitor comum.

Depoimento lindo de John Pavlovitz,
um pastor cristão e pai de família da cidade de Wake Forest,
 Carolina do Norte, nos Estados Unidos.

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