Sinceramente, não dá pra entender o ódio mortal que alguns cristãos sentem em relação a nossa Musica Popular Brasileira, inclusive, sem perceber já fui um desses. Ou melhor, dá pra entender sim...esse pensamento é o simples reflexo de um povo que foi “colonizado” espiritualmente por uma mentalidade estadunidense-européia(nem sei se escreve assim) e hoje sofre nas mãos dos “brasileiríssimos” apóstolos da “teologia do gueto” (aquela que afirma que tudo de fora é do diabo e tudo de “dentro” é de Deus).

Quanto à música, então, nem se fala! Música que não louva a Deus... é do diabo!

Meu Deus!!! De onde tiraram essa idéia? Onde fica a poesia, a arte, a beleza, o romantismo? Será que estamos mesmo fadados a sermos reféns das rádios evangélicas e suas “maravilhosas” canções românticas? Será que só poderemos ouvir a “poesia” dos mantras repetitivos e infindáveis? Não poderemos mais ouvir os nossos chorinhos lindos e estaremos à mercê dos chorões de auditório? Será que o meu Brasil-brasileiro-mulato-branco-moreno-e-negro cairá sob a bandeira de Israel (só lembrando: nada contra Israel) e seus shophares mágicos. (O significado é bonito, inclusive tem uma momento quando Osvaldo Aranha (brasileiro) votou pela existência do estado de Israel em 1948, ouviu-se em todos os cantos de Israel o toque do shofar, isso e emocionante mais daí trazer isso para o novo testamento e dar a ele um caráter de instrumento do espírito santo e forçar a barra, isso tem a ver com a cultura judaica). Só pra terminar esse assunto.. “não existe instrumento santo, mais sim santo que toca instrumento.”

A implicância com a música brasileira a meu ver tem dois motivos, ambos impregnados na mente de nosso povo e já considerados como “doutrina bíblica” por muitos.

O primeiro motivo é por ser... “música”. Como assim?

Há algum tempo atrás surgiu uma “doutrina”, dessas que surgem de vez em quando e fazem aquele estrago imenso, onde se dizia que Lúcifer era “ministro de louvor” no céu, daí entender tanto de música e saber usar a seu favor essa maravilhosa arte. Logo, a música que não era pra louvar a Deus, só poderia ter outra fonte: o cramunhão! Daí rejeita-se QUALQUER coisa que não tenha o rótulo de “evangélico” e, mais recentemente, o melhor dos rótulos: “gospel” (assim acaba de vez qualquer tentativa de ser brasileiro).

Essa idéia errônea atribui mais poder ao diabo do que a Deus. Ora, Deus é criador de tudo e tudo o que é realmente belo vem dEle, Em Atos 14:16-17 fala bem claro isso, é o que se chama na teologia de “graça comum” (é claro que o conceito de graça comum é bem mais amplo, não temos tempo pra isso...). Não há beleza que não venha de Deus. Lembro-me de uma música do MILAD (disco antigo aqui em casa), em seu álbum “Retratos de Vida”. A música chama-se “Platéia” (Toninho Zemuner – Alexandre Rocha) diz:
                                                        
                                                        “Pra começo de história
                                                           Entre acordes e tons,
                                                         Onde Chicos e Miltons
                                                             Fazem os sons...
                                                                     (...)
                                                      Ah! Se todos soubessem
                                                      De onde vêm esses dons,
                                                         (...) A fonte é Deus,
                                                          Essa fonte de vida...”


Outro exemplo disso: Em atos nosso amigo Lucas cita um momento em que o próprio DEUS deixa se revelar no decorrer da historia e também cita alguns poetas seculares:

“Deus fez isso para que o buscassem, e talvez, tateando, o pudessem achar, ainda que não esta longe de cada um de nós. Pois nele vivemos, movemos e existimos. Como também alguns dos vossos poetas disseram: Somos também sua geração” Atos 17:27-28

Essa “teologia” ainda foi mais fomentada quando Raul Seixas deslanchou com “Rock do Diabo”, onde afirmava que “o diabo é o pai do rock”. Quanta ingenuidade a nossa!!! Estamos fazendo com a música a mesma coisa que fizemos com o arco-íris, entregando coisas divinas ao movimento gay e à Nova Era como se realmente o arco-íris fosse um sinal diabólico, totalmente contrário aos planos de Deus. Ignorância! Ignorância Bíblica! A única coisa que o diabo conseguiu ser pai é da mentira (João 8.44) e é exatamente em sua especialidade que ele coloca na mente dos cristãos que tudo o que não é da IGREJA não é de DEUS.

Mas isso também depende dos “frutos” (entenda-se aqui frutos como propaganda, marketing, e principalmente LUCRO). Até pouco tempo atrás futebol era uma coisa do diabo. Isso até os mais famosos jogadores se dizerem evangélicos e aí os pastores, ávidos por aparecerem na mídia ao lado de seus fiéis... sacralizaram o que até então era diabólico. Hoje ninguém mais comenta que futebol é do diabo e que a bola é o “ovo do capeta”. Deixou de ser a muito tempo, desde quando começou a trazer frutos e dividendos pro “Reino”.

Em tempo: não sou contra o futebol. Pelo contrário!!! Sofro como vascaíno; gosto de bater uma pelada com amigos; quando dá tempo torcer pro Vascão; em épocas de copa do mundo, paro pra assistir todos os jogos do Brasil, e como bom brasileiro estou torcendo desde já pelo hexa da nossa seleção.

Pois bem, o diabo nunca foi ministro de louvor no céu (só se isso fizer parte de algum livro apócrifo), e o máximo que ele pode fazer é deturpar aquilo que Deus criou, mas nunca ser pai de alguma coisa. A música é um presente de Deus à humanidade, que pode ser utilizada em seu louvor, como também simplesmente para demonstrar sentimentos belos como o amor, a saudade, o carinho, sonhos, etc.

Essa idéia faz com que a música seja olhada como a pior arte, arte exclusiva de Satanás. Não vejo ninguém recriminando um filme, uma poesia, uma escultura, uma exposição de quadros... tudo isso é arte. Só não pode haver música!!! Se houver música, na cabeça de muitos, a coisa passa a ter um outro dono: o diabo. Todas as outras artes podem ser apreciadas, sem problema algum, menos a música. Santa ignorância! Santa hipocrisia!

É claro (e é aqui que está o cerne da questão) que há a boa música e a música ruim. Não dá pra ter prazer ouvindo “Vem Tchutchuca, vem aqui pro seu tigrão” ou “Hoje é festa lá no meu apê... vai rolar bundalelê”. Mas não podemos julgar o todo pela parte ruim. Há música ruim na MPB? Claro que há! O que faço? Não ouço! É simples... Há música boa na MPB? Claro que há! O que faço? Ouço... e louvo a Deus por ter dado ao homem (mesmo o que ainda não O conhece pessoalmente) essa capacidade “divina” de harmonizar letra e música, verbo e melodia... isso é dom de Deus!!! Não vem do diabo, como muitos querem.

Experimente ouvir de coração aberto “Toada” (Boca Livre); “Sapato Velho” (Roupa Nova); “Aquarela” (Toquinho); “Eu Sei que Vou Te Amar” (Vinícius); “Sucedeu Assim” (Tom Jobim); “Vieste” (Ivan Lins), Amor puro (Djavan) e muitas outras músicas lindas de nossa MPB e você entenderá o que estou dizendo...

E outra questão precisa ser levantada. Há música boa no meio evangélico? Claro que há! O que faço? Canto, toco, ensino nas igrejas, etc... Há muita porcaria no meio evangélico? Claro que há! O que faço? Não ouço e nem recomendo. É simples também! E ainda cabe alertar o povo de Deus contra o engano desses “senhores de gravadoras” e agora a “Som Livre” que comandam o mercado gospel e enfiam goela abaixo os seus queridinhos e suas músicas “de Deus”.

Portanto, antes de “julgarmos” os de fora, julguemos a nós mesmos. Nossa qualidade musical, conteúdo, as maracutaias no meio “gospel”, a máfia das rádios evangélicas e de seus donos-sempre-candidatos-políticos, o uso do nome de Deus em vão para enriquecer pilantras e enganar o povo, etc...(Esse ano foi momento disso).

A segunda questão que creio ser fundamental para a não aceitação da MPB por parte de alguns evangélicos é o simples fato de ser... Brasileira! A igreja evangélica no Brasil tem a péssima mania de só considerar sacro o que “vem de fora”. Há a rejeição latente aos ritmos brasileiros, a miscelânea cultural que é a nossa pátria tupiniquim. Instrumentos de origem africana são quase sempre associados aos cultos do candomblé, a riqueza de sons e ritmos é sempre associada ao folclore, ao popular, e a arte popular é profana... indigna de se cantar “pra Deus”, (demonizarão a nossa cultura).

É comum em casamentos, eventos, e outros momentos, a exposição de “instrumentais” em igrejas as grandes composições de Bach, Beethoven, Haendel... mas não há espaço pra Carlos Gomes, Villa-Lobos, Waldemar Henrique, Radamés Gnattali, entre outros...

A música genuinamente brasileira é sempre olhada de lado. Bom mesmo é o que vem de fora... que nos sirvam de provas os grandes hits do “louvor brasileiro” que em sua maior parte é composta de versões do Hosanna Music, Hilsong Church, Michael W. Smith, etc. Não estou dizendo que isso não possa acontecer. Há músicas boas que podem, e devem ser traduzidas, mas por que tanto preconceito com o que vem de dentro de nosso solo, da mãe gentil e pátria amada? Por que João Alexandre, Jorge Camargo, Nelson Bomilcar, Carlos Sider, Carlinhos Veiga, Atilano Muradas (grande araguarino, o cara da foto ai em cima, esse sabe fazer música brasileira, se quiser comprovar e só ver nos meus vídeos do orkut), Arlindo Lima, Sérgio e Marivone (Baixo & Voz), Gláucia Carvalho e outros tantos não são conhecidos da grande maioria dos evangélicos brasileiros? Falta de talento e inspiração? Não!!! Falta de vergonha das nossas rádios e dos mega-empresários da fé. Falta de vergonha de uma igreja que nunca chegou a ser brasileira de fato. Nossas raízes européias e estadunidenses devem ser respeitadas. Foram eles que atravessaram mares para nos pregar o Evangelho da graça. Mas somos brasileiros. Em nosso corpo e em nossa mente há uma ginga inegável, um requebrar sadio que não se contem ao som dos tambores, atabaques, violas, violões, cavaquinhos, e tantos outros instrumentos.

Voltando ao nosso assunto (MPB). A lógica que cabe no meio “gospel” também serve para a nossa cultura. Somos sempre tentados a não valorizar o que temos de bom. Temos poetas maravilhosos, compositores fenomenais em nossa MPB e em nome de uma fé totalmente equivocada desperdiçamos a chance de crescermos como brasileiros, como músicos, como poetas ao nos recusarmos a ouvir o que há de bom do lado “de fora” do nosso gueto.

Que reconheçamos em todas as coisas belas, e até mesmo na boa MPB, traços do criador, resquícios da imagem de Deus ali pulsantes em alguém criado à sua imagem e semelhança. Creio firmemente que Deus não punirá aqueles que ouvem a boa música brasileira, européia, estadunidense, africana... Ele ainda é Senhor de todas as coisas, mesmo que muitos dos que se dizem seus “filhos” não queiram...

Só tenho um pedido!!!!!!!!!!!Pensem nisso....Pensem....Não quero criar polêmica, mais uma reflexão.

ObS: Depois falaremos do bom e velho Rock and roll...AGUARDEM.......


Por José Barbosa Junior
Adaptação : Juliano Fabricio
Site: www.crerepensar.com.br

2 Comentários - AQUI:

  • Ju, belíssimo texto e faço suas as minhas palavras. Quanta mesquinharia! quanta hipocrisia né! Viver uma vida de intimidade com Deus é diferente demais daquilo que nos apresentaram...Compartilho com vc essa nova visão do Deus VIVO... E já que hoje é dia de brindar, brindemos: À LIBERDADE QUE TEMOS EM CRISTO...

  • Legal Juliano, que bom que ainda existem pessoas que tem sensibilidade para descobrir o belo e sagrado naquilo que não é do meio.Se interessar, dá uma olhada nesse texto do Moisés França:Os Valores do Reino de Deus na MPB neste link: http://moisesfranca.wordpress.com/2010/06/25/os-valores-do-reino-de-deus-na-mpb/. Um abraço, Franklin Rosa

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