Nosso rico passado evangélico testemunha uma relação clara entre renovação espiritual séria e transformação social da sociedade. Na história, os movimentos de profunda renovação espiritual quase sempre vieram acompanhados de significativas mudanças na sociedade. Por isso nos perguntamos: nosso avivamento tupiniquim, que gerou 25 milhões de evangélicos nas últimas décadas, transformará o Brasil? Produzirá algum impacto nacional significativo? Deixará um legado meramente acomodador, isto é, muita conversão pessoal, graças a Deus, mas um impacto inócuo na vida nacional? Que perguntas se devem levantar sobre a nossa experiência de renovação espiritual?

Antes de entrar brevemente em nosso passado, também devemos nos perguntar: somos realmente 25 milhões? Na semana passada, dei uma olhada em dois livros. Um afirma que éramos 15 milhões; outro, 35 milhões. Assim, 25 milhões, número que se usou livremente no CBE2, parece uma boa média. (Em última análise, somente Deus sabe quantos evangélicos somos realmente cristãos e quantos não.) Somos uma massa crítica significativa, mas sem propostas articuladas de transformação da sociedade. Com honrosas exceções, nossa presença política tem sido um tanto lamentável. Não temos um projeto de nação articulado a partir de uma teologia do reino de Deus; por isso mesmo, tendemos a um fisiologismo (Atitude ou prática (de políticos, funcionários públicos, etc.) caracterizada pela busca de ganhos ou vantagens pessoais, em lugar de ter em vista o interesse público) execrável. Mas devemos reconhecer o valor moral de alguns irmãos e irmãs que atuaram e atuam a partir do evangelho, com lucidez e dedicação exemplar.

Mas voltemos à nossa pergunta-chave: que podemos aprender de nosso passado de renovação evangélica? As experiências de conversão a Jesus Cristo e de transformação pessoal pelo poder do Espírito Santo, a partir de uma pregação séria do evangelho, podem vir realmente acompanhadas de acomodação ao status quo nacional e de uma indiferença escapista quanto aos pecados sociais e estruturais que assolam o nosso povo? Dirão nossos historiadores que por aqui cresceram juntamente as igrejas evangélicas e a miséria? Por que, além do bom futebol, somos campeões mundiais em termos de má distribuição de renda? O evangelho em que cremos tem algo a ver com isso? Minha tese central é que renovação espiritual e transformação social devem andar juntas. E historicamente andaram juntas, como veremos muito brevemente.

Três vertentes da Reforma
Recordemos, primeiro, que a Reforma Protestante teve três vertentes básicas: a luterana, politicamente acomodada aos interesses dos príncipes alemães; a calvinista, ou reformada, que buscou transformar Genebra num espaço do reino de Deus; e a anabatista, escapista, porque perseguida (e martirizada!) por seus próprios irmãos. (A reforma anglicana foi uma variável um tanto constrangedora de acomodação política, sem conversão.) Quem sabe aprendemos aqui algo básico. Existem três opções fundamentais na relação da igreja com o mundo: a acomodadora, a transformadora e a escapista. Creio que é possível fazer uma generalização histórica: essas três opções básicas têm sido praticadas pela maioria das denominações protestantes na história. Houve trigo e joio em cada uma delas. Wilberforce, que lutou contra o tráfico negreiro, foi anglicano (episcopal); Bonhoeffer, que participou de um complô para assassinar Hitler, foi luterano; Martin Luther King Jr., líder do movimento por direitos civis nos EUA, negados muitas vezes por seus irmãos brancos, foi batista, herdeiro da reforma anabatista. E os reformados também produziram o cristianismo de apartheid na África do Sul, além de uma ilustre história transformadora. Digo isso para deixar claro que as três opções básicas — acomodação, escapismo e transformação — estiveram historicamente presentes em todos os grupos evangélicos. A história atesta que o trigo e o joio também cresceram juntos nos arraiais evangélicos. Meu ponto é simples: quando o cristianismo se torna uma fonte poderosa de renovação pessoal, segue-se a transformação social. 

Segundo, os dois grandes movimentos de renovação pós-Reforma antes dos Grandes Avivamentos, o puritanismo e o pietismo, além de sua proposta de renovação espiritual, lutaram por reformas sociais. (Aqui há que se reconhecer que o período imediatamente posterior à Reforma foi marcado pelos esforços de consolidação e autopreservação.) Ambos os movimentos realmente lutaram também por uma nova sociedade.

Puritanismo
O puritanismo, que hoje tentamos ridicularizar (e o merece em alguns pontos), foi um movimento sério de renovação tanto da igreja como da sociedade. Por ser reformado, o puritanismo sempre teve algo de revolucionário em seu bojo. Calvino já afirmara que santificação tem a ver com o segundo grande mandamento, que é amar ao próximo.

Os puritanos se preocuparam em ser bons vizinhos e bons cidadãos. Tiveram uma preocupação tanto com os pequeninos (pobres), como com uma sociedade cristã marcada pela justiça social. Articularam um entendimento de vocação, como serviço para o bem do próximo. Foram contra o pecado da usura, que hoje é praticado pelo capitalismo selvagem. Aqui temos as primeiras críticas aos modelos econômicos vigentes e que sempre estão mais a serviço de interesses contrários aos do reino de Deus. Surge uma consciência social ética, não individualista, que demanda do Estado responsabilidade pelo bem comum, certa “caridade preventiva”. Viram que uma religião má sempre vem acoplada de regimes opressivos. E, a partir de uma acomodação à instituição da escravatura, se moveram para advogar sua abolição.

Merece menção o movimento dos quacres, que, por um lado, viveram um protestantismo contemplativo, mas, por outro, articularam as primeiras propostas (Geoge Fox, Robert Barclay) de governo responsável pelo bem de todos, especialmente dos pequenos. Foi também responsável por nivelar os extremos de pobreza e riqueza na Inglaterra. Hoje nos toca reler os puritanos também em sua contribuição positiva para a teologia, a espiritualidade e a prática missionária de nossas igrejas. O anglicano J. I. Packer vem tentando fazer isso com muita propriedade. O puritanismo não foi meramente um movimento legalista, elizabethano. Foi um sério movimento de renovação da igreja e da sociedade, com o qual podemos aprender.

Pietismo
Outro movimento de renovação antes do Grande Avivamento foi o pietismo, que igualmente é insultado em nossos dias. O pietismo veio como reação à ortodoxia morta no luteranismo. Buscou uma ortodoxia viva, uma igreja regenerada e não apenas ortodoxa. Mas também se preocupou com os problemas sociais de sua época. Articulou um testemunho social nada menos que vigoroso.

Já em 1606, Johann Arndt, em Verdadeiro Cristianismo, advogava uma renovação social a partir do mandato de amar o próximo. Seu amigo J.V. Andreae, em Cristianópolis, desenvolveu uma utopia, na qual a responsabilidade da igreja e do governo pelos pobres é claramente articulada. Em Pia Desideria (1675), P. J. Spener desafiou os cristãos ricos a compartilharem seus bens com os pobres, desejando acabar com a mendicância. O cuidado dos pobres deveria incluir os não-cristãos. Com August Herman Franke apareceu um testemunho nada menos que extraordinário em Halle, Alemanha. Franke cria que um cristianismo autêntico reduziria as distâncias sociais entre ricos e pobres. Assim, além de um centro missionário e uma biblioteca, construiu um hospital e um orfanato.

No pietismo alemão encontramos um humanismo cristão associado ao iluminismo humanista, que se propuseram a lutar pela reforma da sociedade, pelo menos na redução da miséria humana. Mas a característica peculiar do movimento pietista sempre foi a convicção de que a regeneração do indivíduo era essencial para qualquer transformação sustentável da sociedade.

Nos Estados Unidos, foi o pietista Cotton Mather (que conheceu Halle, capital do pietismo alemão) quem deu uma interpretação reformada ao pietismo antes do Grande Avivamento, articulando uma reforma da sociedade a partir de indivíduos praticando sua vocação de serviço e especialmente de grupos atuando como levedura transformadora da sociedade. Mather criticou tanto o capital como os trabalhadores, para a irritação dos homens de negócio de sua igreja em Boston. Também construiu escolas para pobres e para negros.

Vejo o Movimento Encontrão (luterano), do sul do Brasil, como nosso movimento pietista, ainda que sofrendo de aparente espiritualização não encarnada, respeitadas todas as honrosas exceções, algumas por mim conhecidas.

Memória histórica
Por que conto esta história tão longa, e que continua na próxima edição, quando examinaremos os dois Grandes Avivamentos? É que a falta de memória histórica às vezes nos dá uma visão limitada ou distorcida de nossa tarefa missionária contemporânea. Não se pode pular da situação contemporânea ao Novo Testamento, sem conhecer as articulações históricas da nossa fé e prática.

A bem da verdade, no ambiente batista em que cresci, os orfanatos batistas apareciam sempre quando havia um grupo organizado de mulheres de nossas igrejas, enquanto os nossos diáconos geralmente se preocupavam com a estrutura de poder das igrejas. É que não se pode ser fiel ao primeiro mandamento de Jesus Cristo, negando o segundo. Nem se é fiel na prática do segundo mandamento, negando o primeiro. Ainda vou chegar ao marco teórico para a renovação da igreja e da sociedade, e vou tentar aplicá-lo à realidade nacional. Mas vamos por partes.

A minha preocupação maior é que a nossa experiência de renovação tupiniquim tenha as marcas da autenticidade cristã, marcada por nosso compromisso absoluto com Deus e com o seu reino. Parte de nosso testemunho é participar na construção de uma pátria socialmente menos iníqua, mesmo dentro de nossa compreensão de que, nos processos históricos, só construímos “utopias viáveis”, como nos recordou Paul Freston no CBE2. Seria realmente lamentável se futuros historiadores apresentassem nossa renovação tupiniquim como exemplo de renovação alienada da realidade. Isso não deve nem poderá acontecer. Temos muita gente boa que não dobrou os joelhos nem a Baal, nem a Diana, nem a Mamon. 
Manfred Grellert

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