Cada vez mais precisamos admitir que existe uma estreita relação entre o contexto urbano e as igrejas urbanas. Eu gostaria de destacar neste texto que nós, cristãos precisamos reconhecer as fortes e dramáticas relações que existem entre o contexto urbano onde estamos e as igrejas que pastoreamos na cidade. Minha impressão, porém, é que a maioria das igrejas enfatiza muito mais seus sonhos pessoais e projetos ministeriais do que seu contexto urbano. As igrejas em geral, investem seus recursos e melhores líderes na resolução de seus próprios problemas, ensimesmadas em seus prédios e instituições, dando pouquíssima atenção ao contexto social e cultural onde se encontram inseridas. É necessário que pesquisemos melhor os temas ligados ao urbanismo do Brasil (macro) e das cidades brasileiras (micro) especialmente com a explosão urbana. 

A igreja brasileira necessita de uma hermenêutica de vida mais bíblica e urbana! 

Em sua relação com as cidades e a urbanização, em conversa com muitos pastores e observando muitas igrejas tenho percebido alguns conceitos errôneos por trás do discurso dos pastores e prática das igrejas brasileiras: 

O primeiro conceito errôneo que igrejas e pastores demonstram com relação à cidade onde moram, sem dúvida, é a afirmação de que a cidade, em si mesma, define-se como má e pecadora. Como não podemos escapar dela, devemos agüentá-la e suportá-la, sempre buscando nos isolar de sua maldade e escaparmos de sua contaminação moral. 

Bem, precisamos notar que nem todos os problemas urbanos presentes são produzidos pelas cidades. A cidade é a arena para onde se transferem os grandes confrontos da sociedade. A cidade brasileira reflete as contradições e crises de origem local, estadual, regional, nacional e internacional. Não se trata simplesmente de crise da cidade, mas crise na cidade. Como compostos químicos, problemas, medos e hostilidades são atraídos à cidade e se misturam gerando novos conflitos e combinações mais venenosas ainda. Este conceito da seguinte maneira: 

A cidade acaba por ser o lugar das hostilidades dissimuladas e ostensivas, das violências abertas, das desordens de todo tipo, das inseguranças e dos medos. Há medos urbanos de toda natureza: objetivos e subjetivos; individuais e coletivos; passageiros e duradouros; fundados e infundados. Esses medos habitam o cotidiano dos “cidadãos” numa espécie de drama criando novos medos. 

O grande dilema: há um medo maior das vítimas da pobreza (os pobres e os miseráveis) que das suas causas.[1] 

Neste contexto, a igreja deve enxergar a cidade como objeto do amor de Deus e enxergar a si mesma como sinal e instrumento de redenção, paz (shalom), esperança e justiça para a cidade. Romanos 8:18-22 fala sobre a criação estar frustrada, gemendo com as dores de parto, esperando a manifestação da glória dos filhos de Deus. Muitos crêem que esta manifestação apenas refere-se à volta do filho de Deus. Mas da mesma forma que o Reino de Deus já chegou e está presente em nós, cada cristão tem a responsabilidade de manifestar o Reino aquí-e-agora e cada igreja tem o papel de ser instrumento do Reino na cidade. 

Somos cooperadores e co-criadores do Reino de Deus em nosso emprego, comunidade local, bairro, cidade, país, até os confins da terra!, isso ficou bem claro la no livro dos Atos dos apóstolos, temos que resgatar essa igreja. 

O segundo conceito errôneo que os pastores demonstram com relação à cidade onde moram é aquele que afirma que a igreja é impotente e está derrotada diante da magnitude dos problemas que confrontam a sociedade brasileira. Não se pode fazer absolutamente nada diante dos problemas sociais da cidade e ninguém dispõe dos recursos necessários para isso. 

Em resposta a isso é importante lembrarmos que Deus mesmo está urbanizando o mundo. Não é necessário provar isso numericamente. Em todos os cantos do planeta, em todos os continentes, isso está acontecendo sob o domínio do nosso Deus soberano. Quer aceitemos ou não, a cidade urbana é uma marca destaque do século XXI. Este século será o século das cidades. Este mundo será um mundo das cidades. Mais de 80% da população brasileira já vive nas cidades. Esta explosão urbana é uma realidade presente e parece que marcará o futuro imediato do mundo de forma determinante. O mesmo Deus que preparou e formou a sua igreja para evangelismo urbano em contextos de exílio e diáspora em cidades do Oriente Médio é o mesmo Deus que está formando imensas cidades urbanas, policulturais e cosmopolitanas e inserindo sua igreja nelas. Sua relação com a cidade é de unidade. A igreja se faz una com a cidade, a igreja está em mix com a cidade. A paz da cidade é sua paz. A justiça da cidade é sua justiça. 

A igreja é chamada a preservar, transformar e criar novas possibilidades para a cidade, numa autêntica missão diaconal. Esta ação diaconal tem também a ver com a reconciliação a nível social. Nas palavras de Costa, a ação sócio-diaconal busca participar da vida, conflitos, temores e esperanças da sociedade de tal maneira que estas expressões concretas do amor de Deus contribuam eficazmente para o alívio da dor humana e ao “quebrantamento das condicões sociais que mantem as pessoas na pobreza, impotência e opressão”[2] 

O terceiro conceito errôneo que igrejas e pastores demonstram com relação à cidade onde moram é a tendência ao isolamento e ausência de cooperação e unidade com outros grupos evangélicos. Com o crescente medo de perder membros neste competitivo mercado evangélico, muitos têm se fechado e levantado as cercas para “protegerem” suas ovelhas. Lá no fundo do coração, a impressão que tenho é que cremos que, para manter nossa identidade e pureza, devemos nos manter isolados dos outros grupos evangélicos. Sinto que utilizar-se do discurso da unidade entre os pastores é como falar de dieta para quem está obeso. O indivíduo sabe que precisa emagrecer mas ninguém venha com o dedo em riste, apontando para os seus quilos a mais. Sabemos que a unidade é importante e quão bom e agradável é viverem unidos os irmãos. Sabemos que precisamos de companheiros, amigos e não podemos caminhar sozinhos no ministério, correndo diversos riscos desde o esgotamento até queda. 

As complexidades sociais, políticas, econômicas, raciais, geográficas presentes em uma nação sempre irão exigir um trabalho abrangente da Igreja como um todo. Para cumprirmos a Grande Comissão, é necessário o desenvolvimento orgânico do corpo de Cristo com todas as suas cores e bandeiras, com todos os seus dons e habilidades. Nenhuma igreja ou pastor, por mais poderosa ou influente que seja, será capaz de alcançar todos os brasileiros e influenciar todo o Brasil. 

O fator unificador da igreja brasileira é sua missão integral na cidade. A igreja não atua com responsabilidade amorosa pela cidade quando revela a intenção de retirar-se, construindo seus próprios reinados ou se beneficiar-se dela, aproveitando-se de seus necessitados e sofredores para crescer numericamente. 

Em cooperação e parceria, a igreja deve ser impulsionada com o desejo de sacrificar-se por ela. Com toda sua diversidade e multiplicidade de doutrinas, estilos e ministérios a igreja deve doar-se à cidade como sinal da paz de Deus em todos os níveis: indivíduos, famílias, comunidades, bairros, organizações, enfim, em todas as esferas sociais e culturais. Sua motivação é o amor de Cristo e não o sucesso ministerial. Sua ação é o serviço e não o gerencimento empresarial. Sua metolodogia é a encarnação é não meramente marketing e tecnologia. 

O quarto conceito errôneo que igrejas e pastores demonstram com relação à cidade onde moram é a visão de sua vocação e ministério como sendo estritamente espiritual. Qualquer esforço dirigido a solucionar os problemas sociais poderia impedir o ministério de evangelização e crescimento numérico da igreja. A cidade é vista como um aglomerado humano a ser evangelizado. A ênfase está na conversão individual, na busca do crescimento numérico através de novas técnicas e métodos e no estabelecimento de novas igrejas da denominação. 

A missão de Deus não é apenas espiritual mas tem caráter integral, abarca a totalidade de todas as experiências do ser humano, em seu contexto e história. A finalidade da missão de Deus é a reconciliação de todas as pessoas e a regeneração de toda a criação. Deus é criador e criou o ser humano à sua semelhança (Gn. 1.29). Não no mesmo nível de Deus, obviamente, mas somos co-criadores com Ele. Deus capacitou homens e mulheres com o dom da criação. Deus espera que utilizemos este dom de maneira responsável em nosso esforço de melhorar este mundo imperfeito agredido e ferido pelo pecado. Quando nos doamos pela cidade, procurando transformar as suas situações imperfeitas, ministrando às suas feridas sociais e restaurando as suas dores culturais. Quando promovemos a reconciliação e a paz – desde o indivíduo e suas necessidades pessoas, até a família e as cidades a nível social e cultural em direção a todo a criação no qual vive a humanidade - estamos exercendo e manifestando este dom, num verdadeiro processo de co-criação com o Deus do Universo e podemos orar dizendo: Pai Nosso, venha o Teu Reino, seja feita a Tua vontade assim na terra como é feita nos céus. 

Concluindo, nosso ponto de referência para começarmos a entender a pesquisa na cidade urbana é teológico e não sociológico. A pergunta que precisa ser feita tem a ver com a relação entre a urbanização presente nos textos bíblicos e a urbanização das cidades brasileiras. As mais de 1200 referências à cidades na Bíblia são apenas um ponto de lançamento para a descoberta da agenda de Deus para a urbanização do mundo[3]. Precisamos, portanto, estudar a Palavra de Deus a partir de sua perspectiva da realidade urbana, enfocando os tópicos da igreja e sua missão na cidade. Eu creio que a cidade é um aglomerado humano que necessita desesperadamente ser pastoreada por nós, cristãos. A missão de Deus na cidade implica na presença de igrejas saudáveis e pastores cheios de vitalidade espiritual que renovem e dinamizem a comunidade local e, desta forma, influenciem positivamente o Brasil.

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