Um dos momentos mais dramáticos em minha vida no tocante à formação da minha teologia ocorreu em uma sala de aula do seminário. Um de meus professores foi para o quadro-negro e escreveu estas palavras em letras bem destacadas: "A regeneração precede a fé."

Estas palavras foram um choque para o meu sistema. Eu tinha entrado no seminário crendo que a ação chave do homem para efetuar o seu renascimento era a fé. Eu pensava que precisávamos crer em Cristo primeiro para depois nascer de novo. Eu uso as palavras em ordem aqui por uma razão. Eu pensava em termos de passos que devem ser dados em certa seqüência. Eu tinha posto a fé no início. A minha ordem era algo como: "Fé - renascimento - justificação"

Eu não tinha pensado no assunto com muita profundidade. Também não tinha escutado cuidadosamente as palavras de Jesus a Nicodemos. Presumi que embora eu fosse um pecador, uma pessoa nascida da carne e vivendo na carne, eu ainda tinha uma pequena ilha de retidão, um minúsculo depósito de poder espiritual restando dentro da minha alma que me permitisse responder ao Evangelho por mim mesmo. Talvez eu tenha sido confundido pelo ensino da igreja católica romana. Roma, e muitos outros ramos do cristianismo, sempre ensinou que a regeneração é pela graça; não pode acontecer sem a ajuda de Deus.

O debate entre Roma e Lutero girou em torno deste ponto. O debate era: A regeneração é um trabalho monergístico de Deus ou um trabalho de sinergístico que requer a cooperação entre o homem e Deus?

Nenhum homem tem o poder de levantar-se da morte espiritual. A ajuda divina é necessária. Esta graça, de acordo com Roma, aparece na forma do que é chamado graça preveniente. "Preveniente" significa aquilo que vem de alguma outra coisa. Roma acrescenta a esta graça preveniente a exigência de que nós temos que “cooperar e consentir com isso” antes que ela possa tomar conta dos nossos corações.

Este conceito de cooperação é, na melhor hipótese, uma meia-verdade. Sim, a fé que nós exercitamos é nossa fé. Deus não executa o crer para nós. Quando eu respondo a Cristo, é minha resposta, minha fé, minha confiança que está sendo exercida. Porém, o problema é um pouco mais profundo. A pergunta ainda permanece: "Eu coopero com a graça de Deus antes de nascer de novo, ou a cooperação acontece depois?" Outro modo de fazer esta pergunta é perguntar se a regeneração é monergística ou sinergística. É operativa ou cooperativa? É eficaz ou dependente? Algumas destas palavras são termos teológicos que requerem alguma explicação adicional.

Uma obra monergística é uma obra produzida isoladamente, por uma pessoa. O prefixo mono significa um. A palavra erg refere-se a uma unidade de trabalho. Palavras como energia são construídas sobre esta raiz. Uma obra sinergística é aquela que envolve cooperação entre duas ou mais pessoas ou coisas. O prefixo sin - significa "junto com”. Estou elaborando esta distinção por uma razão. O debate entre Roma e Lutero girou em torno deste ponto. O debate era: A regeneração é um trabalho monergístico de Deus ou um trabalho de sinergístico que requer a cooperação entre o homem e Deus? Quando meu professor escreveu que "A regeneração precede a fé" no quadro-negro, ele estava apoiando claramente a resposta monergística. Depois que uma pessoa é regenerada, é que ela coopera exercendo fé e confiança. Mas o primeiro passo é obra de Deus e de Deus somente.

A razão porque nós não cooperamos com a graça da regeneração antes que ela aja em nós e sobre nós é porque nós não temos como fazê-lo. Nós não temos como fazê-lo porque estamos espiritualmente mortos. Não temos como ajudar o Espírito Santo na vivificação de nossas almas para a vida espiritual mais do que Lázaro podia ajudar a Jesus a elevá-lo dos mortos.

Enquanto eu relutava contra o argumento do Professor, fui pego de surpresa ao aprender que o ensino dele, que soava tão estranho, não era nenhuma novidade. Agostinho, Martinho Lutero, João Calvino, Jonathan Edwards, George Whitefield e até mesmo o grande teólogo medieval Tomás de Aquino ensinaram esta doutrina. Tomás de Aquino é o Doctor Angelicus da Igreja Católica Romana. Durante séculos seu ensino teológico foi aceito como dogma oficial pela maioria dos católicos. Por isso ele era a última pessoa que eu esperava que sustentasse tal visão da regeneração. Entretanto Aquino insistia que a graça regeneradora é graça operativa, e não graça cooperativa. Aquino falou de graça preveniente, mas ele falou de uma graça que vem antes da fé, que é a regeneração.

Estes gigantes da história do cristianismo derivaram sua visão das Santas Escrituras. A frase chave na carta de Paulo aos Efésios é esta: "... e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, — pela graça sois salvos." (Ef. 2:5).

Aqui Paulo fixa o momento em que a regeneração acontece. Ela ocorre quando “nós estávamos mortos”. Com um único relâmpago de revelação apostólica todas as tentativas de conceder a iniciativa na regeneração ao homem são esmagadas. Portanto, homens mortos não cooperam com a graça. A menos que a regeneração aconteça primeiro, não há nenhuma possibilidade de fé.

Isso não é nada diferente do que Jesus disse a Nicodemos. A menos que um homem nasça de novo primeiro, ele não tem chance de ver ou de entrar no reino de Deus. Se acreditarmos que a fé precede a regeneração, então posicionamos o nosso pensamento e, portanto, a nós mesmos, em oposição direta não só aos gigantes da história cristã, mas também ao ensino de Paulo e até mesmo do nosso próprio Senhor.


Por R.C. Sproul

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