Estudo 2 - “Deixa ir o meu povo!” (Ex 5:1)

Como já foi mencionado no estudo anterior, Jacó e seus descendentes migraram para o Egito devido à grande fome que assolava a terra. Ao todo, eram cerca de 70 pessoas, que ao cabo de quatro séculos se multiplicaram e se tornaram cerca de dois milhões - em Nm 1:46 é dito que os homens de 20 anos para cima, aptos a servir no exército, eram 603.550. Muita coisa havia mudado desde o tempo de José. Os israelitas agora eram mão-de-obra escrava, e clamavam a Deus para retornar a Canaã, a terra dos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó. Digamos que a essas alturas já eram uma colônia estrangeira em número grande o suficiente para preocupar faraó, que já estava preocupado com quem construiria sua pirâmide se os escravos hebreus se rebelassem. Foi quando, num delírio característico de todo governante com poder absoluto – (todo ditador tem delírios de vez em quando) - veio a ordem para exterminar todos os meninos israelitas que nascessem. Por isso o número de israelitas talvez fosse bem maior que os dois milhões estimados acima, porque certamente o extermínio dos meninos produziu um desequilíbrio populacional, causando um excesso de mulheres nos anos subseqüentes.

Cabe aqui uma pausa para pensar. Muito embora, naquela etapa da revelação, provavelmente ainda não se soubesse quem era o diabo, percebe-se nitidamente a ação dele para impedir que Deus cumprisse a promessa de Gênesis 3:15. Primeiro ele achou que o descendente da mulher fosse Abel, e incitou Caim a matá-lo. Como não era, ele corrompeu a raça humana a ponto de Deus querer destruí-la pelo dilúvio. Quando então ficou claro que Ele (o descendente da mulher que esmagaria a cabeça da serpente) viria da descendência de Israel, o diabo quis destruir os israelitas primeiro por meio de faraó, depois por meio do rei da Pérsia (leia em Ester). E quando Jesus finalmente nasceu, veio a última cartada através de Herodes. Por aí dá pra ter uma idéia da batalha cósmica que se travou durante toda a História, a qual os “atores” e “figurantes” nem imaginavam que existia, mas que nós hoje temos uma noção mais nítida.

Mas como ninguém pode frustrar os planos de Deus, nem faraó nem o diabo, surgiu um menino chamado Moisés. Como o estudo é panorâmico, novamente não vamos entrar em detalhes sobre a vida dele. Cabe ressaltar apenas que sua vida se dividiu em três períodos de 40 anos - no primeiro, ele achava que era alguém; no segundo, Deus precisou mostrá-lo que ele não era ninguém e, no terceiro, ele descobriu o que Deus pode fazer com um ninguém! Para entender melhor a história do ponto de vista de Deus, leia em Hebreus 11 os versículos de 23 a 29, que falam sobre a fé de Moisés e de seus pais.

De qualquer forma, Moisés já estava gago de tanto ficar contando suas estorinhas para as ovelhinhas, e um belo dia Deus o chamou. Esgotadas as desculpas apresentadas por Moisés, lá vai ele de novo negociar com o novo faraó, que provavelmente tinha sido seu amigo de infância. Falando em egípcio com um sotaque misturado de hebreu e midianita, Moisés fala as célebres palavras: “Assim diz Yaweh, o Deus de Israel, deixa ir o meu povo!” (Ex 5). Logicamente, faraó não estava disposto a perder aquela mão-de-obra barata (fora o problema de construir sua pirâmide, lembram?), e o que se seguiu foi uma demonstração de poder do Deus de Israel ante os “deuses” do Egito. A tabela abaixo, extraída do livro de Scroggie, volume I, página 155, mostra o que cada praga representou, pois cada uma delas tinha como alvo uma das divindades egípcias.

PRAGA                                             REFERÊNCIA                   CONTRA
Águas tornadas em sangue               7:14-25                                 Rio Nilo
Rãs                                                     8:1-15                                  Deusa Hect (cabeça de rã)
Piolhos                                              8:16-19                                 Seb, a deusa Terra
Insetos                                               8:20-32                                 Escaravelho sagrado
Mortandade do gado                        9:1-7                                     Ápis, o touro sagrado
Úlceras                                             9:8-12                                   Tífon, o gênio mal

Saraiva                                             9:13-35                                  Xu, a atmosfera
Gafanhotos                                      10:1-20                                  Serápia
Trevas                                              10:21-29                                Rá, o deus sol
Morte dos primogênitos                  11:1-12:36                             Faraó


O mais interessante é que Deus, o tempo todo, mostra “sombras” do sacrifício de Cristo - quando vestiu Adão e Eva com peles de animais (inocentes morrendo para cobrir a “nudez” do ser humano pecador), quando aceitou o sacrifício de animais de Abel e de Noé, quando providenciou um carneiro para ser sacrificado no lugar de Isaque, e de forma muito mais explícita agora, com o sacrifício do cordeiro cujo sangue nas portas impedia que o anjo da morte ferisse o primogênito da casa onde se celebrara a Páscoa. Se por um lado o Antigo Testamento inteiro procura mostrar o fracasso do homem, por outro Deus mostra o tempo todo que existe uma esperança a ser revelada completamente na plenitude dos tempos!

Uma vez derrotado o temido faraó, resta aos israelitas seguirem viagem. Seu clamor finalmente havia sido ouvido... Deus os fez passar pelo caminho mais longo, conforme Ex 13:17, mas eles não contavam com uma coisa, no meio do caminho tinha um mar... Provavelmente o ponto em que eles se depararam com o Mar Vermelho, cujo nome em hebraico significa “mar de juncos”, é o extremo norte deste, conhecido como Golfo de Suez. Seja como for, é um corpo d’água fino o suficiente para o povo inteiro atravessar em apenas uma noite mas volumoso o suficiente para afogar todo o exército egípcio. Ah, sim, tinha um mar no meio do caminho? Sem problemas... Moisés, diga aos filhos de Israel que marchem! É importante lembrar que I Co 10:2 nos diz que os israelitas foram “batizados” no Mar Vermelho - assim, a Páscoa prefigurava a redenção pelo sangue de Jesus (I Co 5:7) e, a travessia do mar, o batismo. Assim como a travessia representou uma ruptura para eles, o batismo também deve representar o mesmo para nós.

É muito curioso que no livro de Êxodo são narrados os dois mais importantes acontecimentos da história dos israelitas, a saber, a saída do Egito (daí o nome do livro) e a entrega da Lei ao povo por intermédio de Moisés. Foram dois eventos que nunca mais saíram da memória deles. Por todo o restante do Antigo Testamento Deus vai repetir a frase “eu sou o Senhor teu Deus, que te tirou da terra do Egito”, e os profetas vão exortar o povo a cumprir a Lei - e os livros da Lei falam o tempo todo sobre a importância de se lembrar de Yaweh, o Deus que os havia tirado do Egito, nas gerações futuras. Como se não bastassem esses dois eventos, Êxodo também vai nos contar como foi instituído o Tabernáculo, que naquele tempo era como Deus “habitava” entre os homens. A palavra “tabernáculo” tem origem grega e significa “habitação”. Hmm, isto lembra algo? Leia João 1:14 - “e o Verbo se fez carne e tabernaculou entre nós”. Temos então mais uma “sombra”, “tipo” ou figura do Senhor Jesus!

Cabe aqui outra pausa, desta vez para esclarecimento. Embora eu tenha mencionado vários “tipos” ou “sombras” de realidades do Novo Testamento, evite ao máximo a interpretação alegórica das Escrituras. Isto é um vício de interpretação que pode levar a conclusões completamente imprevisíveis. Só interprete algo como símbolo de uma realidade ainda não revelada quando a própria Bíblia o fizer - nos casos que mencionei, os “tipos” passam no crivo. Caso contrário, sinal vermelho!

Pois é, já estava tudo pronto - o Tabernáculo, a Lei, os sacrifícios, o sistema sacerdotal e levítico, a Páscoa e a travessia do mar, o líder Moisés, a Aliança, as promessas, a nuvem de dia e a coluna de fogo de noite, o censo e o exército de mais de 600 mil homens. Tudo bem que até então o povo não parava de murmurar - um ano já tinha se passado, conforme Nm 9:1. Já haviam murmurado contra tudo, desde o maná até Moisés. Mas mesmo assim estava na hora de entrar na terra, e em Nm 13:1 nos é dito que Deus ordena a Moisés enviar doze espias para conhecer a terra de Canaã, um para cada tribo. O desenrolar da história, o que aconteceu após o retorno dos espias, todos já sabem. Deus havia tolerado todo tipo de murmuração dos israelitas durante um ano, mas essa foi a gota d’água. Não só o povo organizou-se para voltar ao Egito, como também quis apedrejar os espias Josué e Calebe, que foram os únicos que mantiveram sua fé em Deus. De acordo com Nm 14:2, povo disse que preferia morrer no deserto – (oração respondida imediatamente..) Cuidado, muitas vezes a forma de Deus nos disciplinar é nos dando aquilo que pedimos!

O que se seguiu nos 39 anos seguintes foi uma avalanche de rebeliões e murmurações do povo. Para entender melhor por que tudo isso foi narrado, leia I Co 10:1-13. Uma geração inteira morreu no deserto - todos os israelitas de 20 anos para cima, o que seria aproximadamente 1,5 milhão de pessoas, durante 14.245 dias, produzindo uma média de mais de cem funerais por dia. E olhe que a maior parte deve ter morrido ao final do período, então imagine só o que deve ter sido enterrar toda aquela gente!

As quatro décadas no deserto, além de disciplinar o povo (Dt 8:5), serviu para mais três propósitos: (1) Criar no povo uma identidade nacional, (2) estabelecer a teocracia e (3) criar uma dependência da providência e proteção de Deus. Afinal, imagine como foi alimentar dois milhões de pessoas durante 40 anos, fora os animais...

Para finalizar nosso segundo estudo, deixo com vocês um dever de casa, que é a leitura do livro de Deuteronômio. “Deuteronômio” vem de duas palavras gregas - “deuterós”, segundo, e “nomós”, lei. O livro nada mais é do que toda a história do Êxodo recontada na forma de flash-back, ou, se você preferir, um livro de memórias de Moisés.

A gente se vê no próximo estudo! CLIQUE AQUI

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