Estudo 4 - “Estabelecerei sobre mim um rei, como todas as nações...” (Dt 17:14)

Como já foi dito, na época de Eli e Samuel os ofícios de sacerdote, profeta e autoridade civil se misturavam. O sacerdote era o que intercedia pelo povo junto a Deus, o profeta o porta-voz de Deus junto aos homens e a autoridade civil o que governava (a propósito, os três poderes, de governar, legislar e julgar, também se misturavam). O fato de a autoridade civil evoluir para uma monarquia era até natural, e por si só não era errado. Uma monarquia sob a autoridade de Deus não deixaria de ser uma teocracia. O problema foi a motivação do povo ao pedir um rei - eles queriam ser como as outras nações, e não faziam questão que Deus fosse o verdadeiro rei. Lembre-se que o Messias deveria ser também um rei, de acordo com Gênesis 49:9,10. Jesus é o verdadeiro sacerdote, profeta (Dt 18:15) e rei. E vale um paralelo aqui - da mesma forma, quando a Igreja quer fazer algo igual ao mundo (nas artes, por exemplo), isto não é um problema por si só, mas passa a ser um perigo se a motivação for apenas essa, a de ser igual ao mundo, tal qual a dos israelitas. Não há nada de errado em se fazer algo nos mesmos formatos do mundo (“nenhuma coisa é de si mesma impura, exceto para o que assim a considera” - Rm 14:14), desde que sua mente e sua motivação não estejam nos mesmos formatos do mundo e sejam renovadas (Rm 12:1,2). Esta é a principal lição que aprendemos com o desejo dos israelitas por uma monarquia.

Infelizmente, a estréia da monarquia não poderia ter sido pior. Saul cometeu dois atos de rebelião contra Deus, narrados em I Samuel 13 e 15. O que é mais interessante de se notar aqui é que, aparentemente, são deslizes mais brandos que os de Davi - mas lembre-se que o Senhor vê o coração (I Sm 16:7). E aos poucos o verdadeiro caráter de Saul foi se revelando - sua irritabilidade (I Sm 16:14, onde “espírito maligno” também pode ser traduzido como “mau humor”), sua inveja (odiando Davi e tentando matá-lo várias vezes), sua desumanidade (matando 85 sacerdotes em I Sm 22:6-19) e sua rebelião contra os mandamentos de Deus (ao consultar uma médium).

Experimente agora contrastar o caráter de Saul com o de Davi. Este andou diante de Deus com integridade de coração e com sinceridade (I Rs 9:4) e seu coração era de todo fiel ao Senhor seu Deus (I Rs 11:4). Leia também I Rs 15:3 e At 13:22. É, meu irmão, quando der vontade de desistir da vida cristã, dê mais uma lidinha nas histórias de Jacó, Moisés e Davi. Davi derramou muito sangue inocente, era polígamo, matou um homem para ficar com sua mulher, e provavelmente não foi um bom pai (é só ver o que seus filhos fizeram). Mas ele tinha uma coisa que o diferenciava de Saul de forma impressionante: seu coração pertencia a Deus. Leia os salmos e comprove. Davi era amigo íntimo de Deus - compartilhava com Ele suas frustrações, lamentos, anseios, alegria, tristezas, esperanças, louvor, perplexidades e, é claro, seu arrependimento pelas vezes em que O entristeceu!

Ao contrário de Saul, Davi não procurava matar seus inimigos na primeira oportunidade - é só lembrar de como ele se comportou quando teve a chance de dar cabo de Absalão e do próprio Saul. É verdade que há vários salmos imprecatórios, nos quais Davi pede a Deus que exerça justiça contra seus inimigos. Mas veja como foi a atitude de Davi - vários daqueles salmos foram escritos por causa de Saul e Absalão! E mesmo quando Davi derramou sangue inocente, houve arrependimento sincero. Davi só deu cabo dos seus inimigos quando entendeu que Deus os entregou nas suas mãos, no campo de batalha. É notável também como Davi tratou com dignidade os descendentes de Saul (a única exceção foi o caso da vingança dos gibeonitas, mas ali provavelmente as pessoas que foram mortas tinham alguma culpa, mas o texto não nos diz explicitamente - confira em II Sm 21). A forma como ele reagiu ao saber da morte de Saul e Jônatas mostra bem este traço do caráter de Davi.

Também não há qualquer relato que associe Davi à prática de sincretismo religioso, como aconteceu com Saul (consultando a médium) e Salomão (que caiu em idolatria). Pelos salmos, vemos nitidamente que a paixão de Davi era o seu Deus, o único e insubstituível. Por isso, numa época em que a idolatria era o maior perigo para o povo, Deus usou Davi para unificar o reino, centralizar a adoração a Ele em Jerusalém, que, segundo Deuteronômio 12, era o lugar escolhido por Deus, e expandir as fronteiras de Israel mediante a vitória militar sobre vários dos povos vizinhos sobre os quais já pesava a sentença de Deus (já falamos sobre isto).

O livro de II Samuel termina com um dos grandes pecados de Davi. Fazer o censo, por si só, não era errado, pois Moisés o fizera duas vezes. A diferença era a motivação de Davi, que era apenas a de contar seus soldados, por pura soberba, para conhecer seu poderio militar. Com certeza isto ensina uma valiosa lição para nós, que muitas vezes estamos mais preocupados com os números e com o nosso ministério e não com a obra de Deus. Cuidado! A propósito, apesar desse incidente, Davi era humilde, confira o salmo 131.
Chegamos assim a Salomão. Eu confesso que é o personagem da Bíblia que mais me intriga. É o caso mais típico de alguém que tinha de tudo para dar certo mas não deu. Vamos começar pela literatura que Salomão nos legou. Cantares fala sobre o verdadeiro amor entre homem e mulher - e vejam só quem escreveu, um dos maiores polígamos da história! Provérbios fala tanto sobre o temor do Senhor, sobre os perigos de ser um mulherengo, sobre como criar os filhos, sobre como governar com sabedoria, e Salomão fracassou em todos esses quesitos! Para mim, o único livro que realmente reflete a realidade de Salomão é Eclesiastes - esse sim é a cara do autor, e não me entra na cabeça como pode haver críticos que negam a autoria Salomônica... Ninguém mais neste universo poderia falar sobre aquilo tudo com tanto conhecimento de causa!!!!!!

Imagine o velho Salomão se lamentando (segue-se a minha curta paráfrase desse livro fenomenal):

“É tudo perda de tempo, vaidade, correr atrás do vento, como um cachorro tentando morder o próprio rabo! Você procura dinheiro, mulheres, comida, tudo do bom e do melhor? Eu tive isso tudo, mais que qualquer outro, e nada disso me satisfez. Debaixo do sol não há nada de novo, os governos passam, os reinos caem, a tecnologia evolui, mas o coração do homem e seus desígnios continuam os mesmos! Não perca seu tempo trabalhando, mas aproveite seus poucos dias que Deus concedeu... Mas lembre-se de um detalhe, de tudo você vai ter que dar conta!! Hoje eu sou velho, e, ao contrário do meu pessimismo de quando comecei minhas reflexões, descobri que a vida realmente tem um propósito, se você temer a Deus e guardar os seus mandamentos!”

Salomão é o mais paradoxal de todos os personagens da Bíblia. Tinha uma sabedoria como a de nenhum outro homem, que fora dada pelo próprio Deus, mas falhou em um ponto crucial: seu coração não foi perfeito para com Deus, como havia sido o de seu pai Davi. Durante o período do seu reinado Israel atingiu seu ápice, do ponto de vista do poderio militar, territorial e econômico. Humanamente falando, foi o rei mais poderoso de Israel, tanto que Jesus citou “Salomão em toda a sua glória”. A riqueza material do reino de Salomão foi algo inigualável - o ouro era algo tão comum que a prata não valia nada! Mas note uma coisa, Salomão levou 13 anos para construir o templo, a casa de Deus, e 20 anos para construir sua própria casa.

Seu poder político foi tal que o obrigou a consolidar suas alianças com outros povos através de casamentos com princesas pagãs, e isto foi a causa de sua ruína espiritual. Salomão caiu em idolatria, o que só vem a nos ensinar uma coisa: “aquele, pois, que pensa estar em pé, veja que não caia” (I Co 10:12). Se havia alguém que tinha de tudo para ser o maior rei de todos os tempos em Israel não no aspecto material mas espiritual, levando o povo a ter uma verdadeira comunhão com o seu Deus, esse alguém era Salomão. No entanto, as mesmas coisas que tentam a todos nós, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida (I Jo 2:16), fizeram Salomão fracassar.

Uma palavra de encorajamento - seja como Davi e não como Salomão. Ambos pecaram (embora Davi não tenha sido idólatra), mas a atitude de Davi foi sempre de se arrepender e viver em comunhão com Deus. Ele não estava satisfeito enquanto sua comunhão com Deus não fosse totalmente restabelecida. Na ocasião em que ela foi mais ameaçada, por ocasião do seu adultério com Batseba, ele sofreu de uma doença que quase lhe tirou a vida (Salmos 32 e 38).

Só para finalizar o assunto, Salomão também se arrependeu. Eclesiastes é uma prova irrefutável do seu arrependimento, porém este foi tardio - é verdade que nunca é tarde para se reconciliar com Deus e começar de novo, mas, encaremos os fatos, ele perdeu uma vida inteira de comunhão com Aquele que tinha sido o melhor amigo de seu pai Davi. Pobre Salomão... Não se esqueça também que, embora o perdão divino seja garantido, as conseqüências do pecado nem sempre se vão. O reino acabou sendo dividido no reinado do filho de Salomão, por ter sido este um mau pai e um governante muitas vezes cruel e opressor.

Mas isto já é assunto para o próximo post, até lá! CLIQUE AQUI
 

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