Há alguns anos atrás eu participei de um debate em uma igreja a respeito de sua verdadeira função como igreja. Era um debate político, mas acabou se tornando teológico. A questão era se a igreja deveria ou não manter uma fundação assistencial que estava trazendo prejuízos (não só financeiros). Então alguém disse, “Olha aí, isso desviou a igreja de sua missão, que é evangelizar”, e o argumento “pegou”; eu mesmo, na época temeroso do liberalismo e da teologia da libertação (sem conhecimento), não me posicionei a respeito do desligamento da fundação. Bem, ainda sou jovem (ou era, quando isso aconteceu; ou talvez ainda seja…), não tenho mais medo do liberalismo, e passo a pensar que foi errado o desligamento da fundação.

Apesar de tantos anos passados desde Lausanne, a consciência social do evangélico brasileiro médio é extremamente fraca, ou ausente. É óbvio, seria por demais simplista lançar a culpa deste estado de coisas sobre os ombros dos pastores; os crentes alienados são também produtos de uma sociedade alienada e alienante. Mas essa sociedade vem se mobilizando e, ao invés de esperar pelo paternal auxílio do estado, ou da filantropia empresarial, vem assumindo a responsabilidade por seu futuro. Organizações da sociedade civil se multiplicam realizando autonomamente as mudanças necessárias – ou pressionando por elas. Outro dia fiquei sabendo de uma criança de 10 anos que montou uma ong com outras crianças para promover a consciência ecológica. Pode? E nós? Nós também! Nós nos mobilizamos com ardor, elegendo deputados que impedem leis desfavoráveis aos evangélicos, reivindicando direitos (e terrenos, concessões de rádio, etc), comprando ambulâncias baratinhas, e realizando inúmeros atos de misericórdia para com essa sociedade carente de saúde, tudo para cumprir melhor a nossa “missão”. E com a competência de CEO’s do reino dos CÉUS (ou será do inferno dos CEOS?) absorvemos a energia, o dinheiro e o tempo dos crentes em nossos maravilhosos projetos eclesiásticos, juntando o máximo possível de gente na igreja. Afinal, o fim está próximo, e a música é boa (nem sempre). A liderança evangélica se torna cúmplice da alienação na medida em que a mantém, conservando uma perspectiva teológica ultrapassada a respeito da missão da igreja. Missão não é só evangelismo; é também ação social. Na verdade, é ação social e muito mais; é a reforma do pensamento teórico, da ação política; é a redenção da arte e da literatura, da mídia, da família, e da tecnologia. O desenvolvimento de uma cultura cristã e a formação de cidadãos integrados, e integralmente cristãos – gente com consciência, com mente e mãos cristãs – é a nossa responsabilidade diante de Deus e do mundo.

Responsabilidade: eu gostaria de falar um pouco sobre isso. Ou, talvez, não. É muito desagradável descobrir-se responsável por força dos acontecimentos. Porque, em geral, isso significa que ocultamos de nós mesmos as nossas obrigações; mas elas nos perseguiram, a ponto de não conseguirmos mais correr. Acho que foi assim, comigo. A providência pôs-me diante dos fatos que minha teologia miudinha não conseguia dimensionar, e no fogo dos conflitos internos e eclesiásticos eu fui sendo reformado. É claro que não basta falar em “responsabilidade” no sentido genérico; qual responsabilidade, ou que tipo de responsabilidade – essa é a questão. A qualidade de ação que pode renovar a missão da igreja, hoje, e conduzi-la de volta à essa palavra desagradável teria tais características, segundo a minha percepção.

Integralidade: Em primeiro lugar, a nossa responsabilidade é Integral. Vem à mente o lema da FTL: “o evangelho todo, para o homem todo”. É aquilo a que nos referimos há pouco. Missão não é somente evangelização, mas a transformação de todos os níveis da vida humana, a partir do evangelho. Isso significa que o homem todo precisa de redenção, e que a missão precisa assumir esta abrangência. E a igreja local precisa compreender esta abrangência, olhando para seus membros e para os inconversos como seres completos, totais, e não como “almas” desencarnadas.

Radicalidade: Mas sem deixar de ir à raiz das coisas. É grande o perigo de ser muito “planetário” e pouco cristão. Mais ou menos como um pouco de manteiga que é espalhada em um pedaço de pão grande demais, como diria o Bilbo bolseiro. Isso é extremamente comum, e é sempre o resultado de enfatizar demais o diálogo esquecendo-se da antítese. Precisamos ir à raiz das coisas, e isso significa ir à raiz da apostasia humana. E, na raiz, encontramos as fontes da idolatria. Se levarmos a sério a ordem canônica da Bíblia, veremos que o final da missão de Deus é o culto, um grande culto. O livro de Apocalipse mostra, no fim, a adoração dos redimidos. Mas uma missão que não enfrenta a idolatria não pode levar o homem à adoração; uma missão que não se choca com Babel não verá a Nova Jerusalém. Não se pode apontar o Deus verdadeiro, a “glória e majestade”, a sua “força e formosura”, sem mostrar ao mesmo tempo que “os deuses dos povos são nada, mas o Senhor fez os céus”, como nos ensinou o rei-pastor de Israel. Uma missão responsável, hoje, precisa dar um passo além da denúncia da mariolatria católica, e desmascarar a consumolatria evangélica; e precisa confrontar as estruturas de escravidão montadas e justificadas pela idolatria humanista do sistema de mercado. Sem esquecer, naturalmente, da idolatria utópica do socialismo, entre cujos méritos, frente ao moderno sistema econômico, figura a sua impraticabilidade – “graças a Deus”! Tenhamos em mente, no entanto, que a mera denúncia sociológica não é atingir a raiz; somente quando a idolatria e a concupiscência são reveladas como tais, como atos de revolta contra Deus, é que atingimos, de fato, as raízes da apostasia humana.

A missão e o princípio das Esferas de Soberania: Este ponto nos leva de volta à experiência relatada no princípio do texto, que descobri ser extremamente comum: os conflitos entre pastores e igrejas locais, por um lado (embora, nem sempre, juntos do mesmo lado…), e os projetos sociais, por outro. Maurício Cunha, moderador da Rede Brasileira de Cosmovisão Cristã e Transformação Integral, relata que os choques e tensões resultantes da confusão entre as tarefas da igreja local e dos variados projetos de transformação promovidos por cristãos evangélicos são quase um lugar-comum. Eu mesmo encontrei dificuldades assim em mais de uma ocasião. O princípio das “esferas de soberania”, proposto por Abraham Kuyper, ou “esferas de responsabilidade,” como sugere David Koizys, ajudaria muito aqui. Trata-se da noção de que a soberania de Deus sobre cada aspecto da vida é imediata, independente de qualquer mediação. Isso significa que Deus é soberano sobre a política, sobre a arte, sobre a natureza, sobre a ciência, sobre a família, e sobre a igreja, e que a sua soberania se expressa através das leis e finalidades que Deus estabeleceu sobre cada uma dessas áreas.
Isso significa, por exemplo, que a arte não precisa estar a serviço da igreja, ou de temas sacros, para ser válida. A arte válida é a que obedece às normas divinas para a esfera da arte. E o mesmo vale para o Estado, ou para a Igreja. A soberania de Deus sobre cada esfera garante a soberania interna dessa esfera da vida humana e, por conseguinte, a sua legitimidade. Uma eclesiologia reformada precisa, portanto, reconhecer a finalidade e soberania própria, por exemplo, de um projeto social, mesmo que ele seja mantido pela igreja, e não utilizá-lo como estratégia para obter resultados que são próprios da esfera da igreja – isto é, a evangelização. Não se mede a eficiência de um projeto assistencial pelo número de conversões, embora isso seja muito importante. A universidade cristã, o projeto assistencial, e o movimento político evangélico precisam expressar a graça de Deus dentro de suas esferas de soberania; isso significa desenvolver o pensamento cristão, o serviço social cristão e uma política cristã, e tais desenvolvimentos terão implicações evangelísticas. Mas estas serão estritamente secundárias. A igreja emergiria, então, como um centro de ações pastorais, que cumpre a sua função primária, da evangelização, e discipula os convertidos para o mundo, fornecendo treinamento e agentes de mobilização para articular projetos de transformação integral em todos os níveis da vida humana. Em tal eclesiologia, admitimos que a igreja local não é capaz de realizar a missão integral; só um sistema de instituições, comunidades e organizações tão amplo quanto a cultura pode atingir a totalidade da cultura – a igreja, organicamente ativa em todas as esferas.

Mas a igreja local permanece como a fonte vital para a constituição de um sistema de cultura e vida social baseado nos princípios cristãos, que se estenda organicamente por todos os níveis da sociedade.

Caminhos de Reforma: O mais urgente é um projeto social consistente e prático. Que começaria com a conscientização dos pastores e líderes. Talvez uma importante estratégia seja a educação teológica; uma nova geração de pastores conscientes e abertos à realidade.

Há, também, a tremenda necessidade de uma educação cristã capaz de localizar teologicamente o cidadão na sociedade, ou seja: “o que meu trabalho, minha participação política e minha articulação com outros para agir socialmente tem a ver com o Reino de Deus, e com a minha interioridade espiritual”? Acho que isso é um grande problema na cabeça dos crentes: o que a minha vida “secular” tem a ver com a minha vida “religiosa”? Precisamos pôr um fim a esta “esquizofrenia sociológica”.

Além disso, as igrejas precisam de consultoria: pessoas capazes de avaliar as igrejas e elaborar projetos de conscientização e ação social, contextualizados e eficientes. Missões, juntas denominacionais e ministérios específicos poderiam agir nesse sentido, orientando as comunidades em termos de passos concretos.

Honestamente, no entanto, eu não vejo grandes possibilidades para uma transformação pelas vias oficiais. Parece-me que uma missão interna, destinada a reconfigurar a identidade evangélica, seguirá a via da subversão. O caudilhismo pastoral é muito bem estabelecido, e cioso(cuidadoso, cauteloso, zeloso) da necessidade de vigiar seus currais. Boa parte dos pastores faz questão de manter seus membros ocupadíssimos com as atividades da igreja, procurando crescimento numérico.

A popularidade dos sistemas de células, por sinal, diz muito a respeito. Pessoalmente, considero a abordagem válida e interessante. Mas é nítido que a tendência do sistema é absorver todo o tempo e energia disponível dos membros na vida interna da igreja. E este é o interesse explícito de muitos pastores.

Bem, não vejo como tal coisa possa ser anunciada como a “nova reforma” do cristianismo. Com todo respeito à tradição anabatista (não é o mesmo que batista), isso de transformar a igreja em uma comunidade isolada, um conventículo (em nosso caso, num retiro permanente de comunhão e lanches) é para mim, o fim da picada.

Uma nova reforma abrirá as portas da igreja, e também as portas do inferno; romperá as gaiolas eclesiásticas e plantará agentes de reforma em todas as esferas e níveis da sociedade. Diante disso, o movimento de células, como um todo, é uma reforma pífia; o ensimesmamento final do cristianismo evangélico brasileiro.

Mas os pastores gostam, e a igreja também gosta. Daí, a necessidade, talvez, de uma via subversiva; mais ou menos como Calvino fez, escrevendo aquelas coisas terríveis que eram contrabandeadas para a França, para alimentar o movimento huguenote. Preciamos contrabandear idéias, já que não podemos entrar “legalmente” nestes currais…

Restaria, pois, a nós, tirar proveito das grandes vias de informação e reflexão crítica – a Internet, ministérios para-eclesiásticos, a música, a mídia e as editoras cristãs progressistas – para promover o neocalvinismo como projeto civilizatório e social, para o Brasil; como projeto trans-eclesiástico, trans-denominacional e, na verdade, global.

Mas algo pode ser feito dentro das igrejas? Sem dúvida. Muitos pastores estão abertos à reforma. Além do ensino claro de uma filosofia social cristã, a comunidade poderia elaborar de modo consciente e participativo uma declaração de valores éticos e sociais que serviriam de “forma” para o planejamento de suas ações. Isso exigiria certo sacrifício: seria preciso gastar tempo mobilizando, conscientizando e “liberando” os membros da igreja para se envolverem, numa perspectiva missionária, em ações de cunho social, tomando a frente na luta por melhorias sociais em suas subcomunidades, fazendo projetos e pressionando o governo, em associação com crentes de outras igrejas. Mas sem jamais perder de vista a perspectiva neocalvinista a respeito da igreja: os crentes, membros da comunidade, educados e mobilizados, se reúnem e atuam; mas a própria igreja, como instituição localizada, não pode ser convertida, pura e simplesmente, numa fundação de objetivos pragmáticos e sem qualquer elemento transcendente pois, em sua essência, é a comunidade carismática dos santos, reunidos para a celebração e promoção da fé comum. Muita gente pensa, hoje, que missão integral é assistencialismo eclesiástico, mas as maiores mudanças que o evangelicismo conseguiu na era moderna foram fruto de ações de crentes conscientes, não ações políticas ou sociais da instituição eclesiástica.

Voltamos, pois, ao princípio do texto: qual será a relação adequada entre a igreja local e a fundação assistencial? Uma relação de parceria missionária. E quanto à igreja, o caminho está claro: ela não tem que virar universidade, laboratório de física, centro de estudos econômicos, sindicato, comitê político, curral eleitoral, fundação assistencial, hospital, ou qualquer uma dessas coisas. Mas ela precisa gerar e patrocinar todos esses projetos. Precisa formar e mobilizar um cristianismo que realize essas tarefas sob o impulso interno de sua própria natureza intrínseca; um cristianismo que se descobriu como um sistema total de vida e pensamento.

Adaptado por: Juliano Fabricio Fonte: Guilherme de Carvalho, Ariovaldo Ramos e livros sobre Missão Integral e Cosmovisão.
 

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