Será que Cristo tinha um abdômen sarado? A arte ocidental frequentemente tem se deparado com a contradição entre uma figura ascética de Jesus de Nazaré e a iconografia de Cristo mais inspirada pelo ideal heróico helenista: um Cristo bonito, alto, de ombros largos, um modelo divino; olhos azuis, cabelos claros, nariz levemente arrebitado, a figura de um príncipe europeu.

O pintor Rembrandt van Rijn, em sua carreira marcada pela inovação artística, discordava. Uma nova mostra no museu do Louvre, em Paris, mostra em várias pinturas a óleo, desenhos com carvão e painéis pintados, como esse pintor holandês do século 17 praticamente reinventou a figura de Jesus e começou a mostrá-lo de maneira mais realista.

A mostra “Rembrandt e a Face de Jesus” exemplifica bem que, antes de Rembrandt, a tendência dos pintores era repetir as imagens convencionais de Cristo. Especialistas como Larry Silver, da Universidade da Pensilvânia e Shelley Perlove, da Universidade de Michigan-Dearborn, classificaram isto de “a previsível majestade”.

Quando os artistas se baseavam em modelos vivos para suas pinturas, escolhiam pessoas com uma beleza única, como a Pietà de Michelangelo. Rembrandt trabalhou para a sociedade holandesa da chamada “Idade de Ouro”, que era relativamente aberta e tolerante. Assim, ele voltou-se para modelos vivos buscando dar uma “realidade terrena” ao rosto de Cristo. Seguidamente baseava-se em um jovem modelo judeu, cuja face aparece em sete dos seus painéis. Um anônimo auditor holandês, ao fazer um inventário das posses de Rembrandt quando o pintor faliu, fez uma anotação descrevendo um dos painéis como: “Uma cabeça de Cristo, ao natural”. Os curadores da mostra atual basearam-se nesse comentário para estabelecer o ponto de partida da exibição.

Esse Jesus pobre e ascético possivelmente era pequeno e magro, com um tom de pele levemente esverdeado. Tinha cabelos pretos, olhos castanhos e foi assim que Rembrandt o pintou. Sem saber, ele antecipou em séculos o que estudos mais recentes apontam ser a provável aparência do Jesus histórico. O salvador da fé de Rembrandt era um jovem com um rosto delicado, mas meio rústico, de olhos grandes, ombros caídos e um tanto pálido.

A reformulação da imagem de Cristo feita por Rembrandt teve seu ápice no quadro “Ceia de Emaús” (de 1648), onde a figura frágil de Cristo parece quase surpresa, sem preocupações, envolvido em uma conversa que ninguém mais ouve. O Jesus do pintor não é um herói do sofrimento e do sacrifício. Ao contrário, é um peregrino gentil e faminto.

Observar as pinturas na ordem em que foram criadas mostra como as próprias características rudes de Rembrandt gradualmente se infiltram nas imagens de Cristo. Parece que esse é o aspecto mais espiritualmente edificante de seus trabalhos. Quando Rembrandt olhava a face de seu Salvador, ele via a sua própria.

Tradução: Agência Pavanews


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