O professor de história e educação da Universidade da Califórnia, Russell Jacoby, confessou ao Jornal do Brasil que ninguém vai querer viver sem utopias: “Penso que é importante manter-se compromissado com a idéia de que o futuro pode ser melhor e diferente. Abandonar isso acaba afetando a vida em todos os aspectos.” (JB, Idéias, 10/11/2001, p. 3.)

Muito antes de Cristo, os chamados pagãos tinham uma coleção de mitos que anunciavam profundas mudanças escatológicas. Na mitologia romana, Anquises, aquele pastor de Tróia que se casou com a deusa Vênus, explicava ao filho Enéias: “A maioria das almas anseia, mais cedo ou mais tarde, pelo céu aberto, e vêm para beber o esquecimento e nascer outra vez”.

Segundo a mitologia escandinava, haverá primeiro uma catástrofe: “A terra será submergida pelo mar. O sol se tornará preto. As estrelas brilhantes cairão do céu. O próprio céu se queimará. A morte chegará aos deuses, aos gigantes, aos duendes e anões, aos homens e mulheres, aos filhos e filhas de Ask e Embla.” Mas, depois, “a terra se erguerá uma segunda vez, bela e verde. Balder e Hoder, filhos de Odin, voltarão a viver. Os rios se encherão de peixes e os campos de milho. E pelos campos da nova terra, admirados com o que foi e o que será, os filhos de Lif e Lifthrasil encontrarão na grama o tabuleiro de ouro onde os deuses jogavam seus jogos, e se lembrarão de Odin, o Mais Alto, o Pai de Tudo, e de seus filhos em sua glória, nos palácios dourados de Asgard.”

E na mitologia iraniana, “quando o tempo se aproximar do fim, Saoshyant, o sábio, virá para preparar o mundo para ser renovado e ajudar Ahura Mazda, aquele que sabe, a destruir o cruel Ahriman. Então o tempo chegará ao fim e haverá um novo começo para o mundo. Saoshyant levantará os mortos, Ahura Mazda unirá corpo e alma. O novo mundo será imortal. Aqueles que viveram até a idade adulta, serão trazidos de volta na idade de 40 anos; aqueles que morreram crianças serão trazidos com a idade de 15 anos; todos viverão felizes com suas famílias e amigos.” (Livro Ilustrado dos Mitos, pp. 155, 175-177.)

Ontem, os indígenas brasileiros alimentavam a esperança de “uma terra sem males”. Hoje, os esotéricos alimentam a esperança de “uma era de ouro”, a era de Aquário, quando desaparecerão a fome global, a ameaça de guerra nuclear, a destruição do meio ambiente, a Aids, a criminalidade etc.

O animal não tem esperança, nem sabe o que é esperança. A esperança é um fantástico problema do ser humano, “o único animal que tem a frescura de querer saber de onde vem, para onde vai e o que é que é”, segundo Millôr Fernandes. E, na vida, acrescenta Murilo Astora, presidente do Conselho Estadual Antidroga, do Rio de Janeiro, “só existe um homem perdido: aquele que perdeu a esperança”. É como explica a “nossa” Rainha Silvia, da Suécia, “felicidade, acima de tudo, e poder acreditar no futuro”.

A revista Época fez a clássica pergunta “Para onde caminha a humanidade?” à professora de filosofia política da USP Olgária Matos e obteve a seguinte resposta: “Para a utopia dos vales, onde corre o leite, o mel, ou para a barbárie, para a emancipação de todos os sentidos, ou para a destruição do homem pelo homem”. Mesmo que estejamos caminhando para “a destruição do homem pelo homem”, mesmo que experimentemos uma catástrofe mundial (de acordo com a mitologia escandinava), mesmo que o nosso planeta seja incendiado (de acordo com Pedro) — “nós, porém, segundo a promessa de Deus, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita a justiça” (2 Pe 3.13).

Dentro de cada um de nós há pelo menos uma vaga esperança de um mundo novo. Não importa se somos ignorantes ou letrados, pobres ou ricos, pagãos ou cristãos. O fenômeno é tão antigo quanto a mais antiga civilização. Até Karl Marx, que tentou destruir a religião, chamando-a de “o ópio do povo”, dizia que a história caminha para a remissão do homem de todas as injustiças, mazelas e desigualdades. Embora por vias totalmente opostas, o cristão também nutre essa visão escatológica, que termina com “novos céus e nova terra” (2 Pe 3.13, NVI).

Na esperança cristã, a humanidade caminha para um mundo novo. Mas não será por meio da evolução, das reencarnações, das religiões, da globalização, da guerra, do terrorismo, do pacifismo, da falida ONU, do nirvana nem do esforço humano. Será por meio de uma intervenção direta de Deus, por ocasião da parúsia de Jesus Cristo.

Adapatado por Juliano Fabricio

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