Ato Público de Repatriação do acervo do Brasil: Nunca Mais - Procuradoria Regional da República - São Paulo/SP - 14-06-2011

Não é fácil falar do que aconteceu naqueles anos de ditadura militar.

Também não é possível esquecer. Lembrarei sempre do momento em que eu e Anivaldo nos dirigimos à casa do tio de dois companheiros nossos que hoje já não se encontram entre nós.

A rua quase deserta. Uma mãe com um carrinho de bebê, um pouco distante da casa. Uma cena montada. Não entrei e Anivaldo deveria apenas pegar nosso pacote com material da pesquisa que fazíamos junto à juventude metodista. Mas, um rapaz com blusão da faculdade Politécnica veio me dizer para entrar um momento.

Aí o terror começou. Jogaram-nos em um carro e nos conduziram para um lugar, que depois fiquei sabendo ser a Operação Bandeirantes, naquele momento não reconhecida como prisão legalizada. Para lá levavam muitos dos que deveriam desaparecer. Fomos recebidos por homens furiosos formando um corredor, conhecido como corredor polonês. Todos nos dirigiam palavras de baixo calão, nos davam socos e pontapés.

Fui atirada num “quarto-cela”, onde havia uma mulher. Soube depois que se chamava Damaris e haviam matado seu esposo na sua frente e de seus filhos, ainda crianças. No começo tínhamos medo uma da outra.

Passei dois dias negando quem eu era. As torturas, choques elétricos, cadeira do dragão, outras tantas formas de tortura e os fuzilamentos simulados não me pareciam piores que a ameaça de pegarem meu marido e minha filhinha de oito meses.

Foram 20 dias nesse inferno que senti como uma eternidade. Tinha medo que torturassem outros jovens metodistas, que foram levados a nós para reconhecimento.

A comida vinha uma vez ao dia, fornecida pela empresa Supergel. Eu não conseguia comer, apesar das ameaças por entenderem que era greve de fome.

Tudo era apavorante. A vontade de ir ao banheiro e não poder. O barulho das chaves na porta e saber que quando abrissem seria levada novamente para os torturadores.

A tortura: uma sala pequena, cerca de oito torturadores. Eu, ou eu e Anivaldo sendo acariados. Nos jogavam um contra o outro. Houve momento em que um Tenente do Exército, que se dizia pertencer à Igreja Batista, lia trechos da Bíblia enquanto assistia as torturas. Eram três equipes que se revezavam.

Mas, eles também temiam. Damaris, minha companheira de cela, foi trocada, junto com outros companheiros, pelo cônsul japonês de São Paulo, sequestrado por pessoas de sua organização política. Descobrimos que havia algo acontecendo porque na noite, antes que a levassem, um dos torturadores chefe de equipe foi conversar e perguntar o que faríamos com ele se a situação mudasse um dia a nosso favor.

Na manhã seguinte Damaris se foi para a viagem e eu fui levada para interrogatório pelo CENIMAR (Centro de Informações da Marinha).

Chegando ao México e entrevistada por jornalistas Damaris denunciou onde eu estava, disse que iriam me matar e que eu tinha uma filhinha de meses. A notícia repercutiu no Brasil e fomos então transferidos para o DEOPS (Departamento de Ordem Pública e Social) sendo nossa prisão reconhecida legalmente.

Também ali vivemos momentos de pavor, mas nos sentíamos entre companheiros e companheiras que se apoiavam. Sempre que alguém saía para interrogatório cantávamos transmitindo esperança e acolhimento na volta.

Teve gente que nunca voltou.

O terceiro estágio era a prisão Tiradentes, hoje demolida, onde nos relacionávamos, trocávamos saberes, lutávamos por melhoria das condições carcerárias. Aí eu dividi cela com Dilma, a atual Presidente da República do Brasil.

Já em fase de julgamento fui levada oito vezes de volta ao DEOPS para novos interrogatórios.

Depois da liberação, a alegria de me encontrar novamente no mundão, como chamávamos. Mas, já no exílio, a descoberta que um dos companheiros metodistas presos conosco, Celso Cardoso, tinha morrido. A mãe dele, criatura maravilhosa, me mandava comida na prisão e dizendo sempre que ele estava bem.

O lado bom foi o reencontro com Anivaldo, em 1972, na França, quando ele também já estava no exílio e, posteriormente, já nos anos 1980, quando fomos participar de um encontro do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) em La Paz. Desde então estamos sempre juntos e partilhamos momentos em Assembleias do CMI, no Grupo Regional latino-americano do Compartir Ecumênico de Recursos, na construção do Fórum Ecumênico Brasil, do Fórum Ecumênico Sul-americano, em diretorias do CLAI-Brasil, nas parcerias entre CESE e Koinonia, enfim, a vivência no movimento ecumênico que só nos fortalece e nos renova enquanto compromisso com a Justiça e a Paz.

Em setembro de 2008 tive meu processo julgado pela Comissão da Anistia, numa Caravana em Brasília, realizada no salão Dom Helder Câmara, na sede na CNBB. Fui anistiada e tive a alegria de escutar minha filha, que viveu 10 anos na França, dizer que, sabendo que o Estado brasileiro tinha me pedido perdão ela podia, enfim, ser brasileira.

Na abertura da Caravana, estavam representados, entre outros, o CONIC, a CNBB, a Comissão de Justiça e Paz, a Igreja Metodista, a CESE. Entregamos documentos para compor os arquivos da Comissão da Memória.

Agora, queremos ir além, com uma Comissão de Memória e Verdade, exigindo a abertura dos arquivos da ditadura, a investigação e punição dos crimes cometidos contra as vítimas do regime militar, o resgate e entrega dos corpos dos desaparecidos às suas famílias, para que possam enterrá-los com dignidade.

Para terminar quero registrar que há 28 anos encontrei na CESE, com as várias igrejas que a compõem, a oportunidade de seguir apoiando os movimentos sociais em suas lutas pela afirmação dos direitos civis, políticos, econômicos, sociais, culturais, rumo à construção de uma sociedade em que impere a democracia com justiça!

Obrigada.

Eliana Rolemberg
Diretora Executiva da CESE
Membro da Igreja Evangélica de Confissão Luterana

* Eliana Bellini Rolemberg, presa como Eliana Taddei Bellini em fevereiro de 1970. Condenada a dois anos de prisão, sendo libertada após análise de recurso encaminhado ao Supremo Tribunal Militar, pouco antes de completar o tempo de condenação decidido pela II Auditoria Militar de São Paulo.

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