O movimento evangélico brasileiro cresceu numericamente, com estatísticas espantosas. Até o Vaticano se incomodou com a transferência de católicos nominais para as igrejas evangélicas, que pipocam por todos os lados. Sociólogos passaram a estudar os fenômenos que favorecem essa multiplicação. Haja estudos! Os evangélicos representam um segmento religioso relativamente novo na sociedade brasileira — com mais evidência, depois da década de 1950. O vertiginoso avanço evangélico também pegou de surpresa os teólogos. Parece que não se esperavam os sincretismos que geraram características bem próprias dos crentes brasileiros.

O movimento evangélico passa por várias mudanças. No passado, os cantores evangélicos gravavam seus poucos discos de vinil, com produções artesanais. Para vender, precisavam sair cantando de igreja em igreja. Hoje, cantores “gospel” gravam em estúdios com tecnologia de ponta, acompanhados por músicos profissionais, e desfrutam de uma eficiente estrutura de marketing.

Assim, vendem milhões de cópias, faturam alto e possuem status de artistas profissionais. As gravadoras promovem festivais para reconhecer os melhores, e premiam-se com “discos de ouro” quem alcança mais sucesso.

As editoras também se profissionalizaram. Há pouco tempo, o mercado de livros era bem restrito. Com poucos títulos publicados a cada ano, só denominações e missões dispostas a investir sem possibilidade de retorno se atreviam nesse segmento. Hoje, multinacionais do livro cobiçam o mercado brasileiro. A cada mês nascem pequenas editoras e muita gente almeja lançar revistas e jornais, num filão consumidor ainda crescente.

Mas os evangélicos se admiram com outras transformações. As escolas dominicais já não têm a relevância de outrora; há descaso pela doutrina. As igrejas enfatizam eventos para atrair mais gente e, assim, os prédios são planejados e construídos para agradar os fiéis como clientes. Uma boa igreja hoje precisa de um bom estacionamento e um excelente berçário para as crianças pequenas. Contudo, as maiores mudanças aconteceram na teologia.

Aos poucos, as igrejas se esqueceram de algumas pilastras da Reforma Protestante do século 16. O evangelho da graça foi sendo substituído por uma religiosidade de méritos. Abandonou-se o tema que diferenciava os crentes nacionais. Pregadores protestantes repetiram, por décadas, que nada mais é necessário ser feito para se alcançar a salvação e que todas as bênçãos vindas de Deus são imerecidas, que tudo foi conquistado por Cristo no Calvário.

Os evangélicos começaram a se tornar notórios pelas “campanhas” de oração que pretendem ensinar o jeito certo de se obter alguma bênção. Com essa mudança, corria-se o risco de fugir da tradição protestante. Para manter o movimento numa mínima ortodoxia protestante, optou-se por priorizar o Antigo Testamento e seu sistema de culto para legitimar a constante promessa de bênçãos.

Usaram-se passagens especificamente destinadas a um tempo da história de Israel, avivaram-se os sacrifícios dos antigos concertos e nada mais foi de graça para os crentes. Quem quiser qualquer favor divino tem de pagar — geralmente em dinheiro. Igrejas restabeleceram a mentalidade católica medieval com abundância de amuletos. E surgiram versões nacionais das relíquias: rosas, corredores, mantos, portas, chaves, espadas e copos d’água. Essa montanha de talismãs serviriam de “ponto de contato” para aumentar a fé do povo.

Os novos crentes brasileiros já não são tão proibitivos quanto a roupas e uso de jóias. Abrandou-se o legalismo de usos e costumes.

Entretanto, permanece um obscurantismo teológico tremendo. O dogmatismo impera. Sem espaço para reflexão, muitos se contentam em repetir teologias estrangeiras, copiam modelos americanos de crescimento de igreja e abusam de anglicismos.

Por que empregar, por exemplo, kid em vez de criança, praise em vez de louvor e show em vez de culto?

Os líderes das grandes igrejas e denominações concordariam sobre os perigos de se verem famosos. Além da vaidade de se acharem superungidos, vêem as bajulações dos medíocres que querem pegar carona nos sucessos repentinos. Espertalhões rondam os grandes templos com oportunidades imperdíveis de impactar o mundo. Candidatos se oferecem para representar os interesses do rebanho perante o poder público. Pior, existem muitos que enxergam o púlpito como palco. Sedentos dos seus quinze minutos de fama, prometem “abençoar” o povo como autênticos levitas bíblicos.

O quadro mudou radicalmente nas igrejas. Agora, mais do que nunca, mestres, pastores e evangelistas precisam de trégua; precisam de tempo para rever caminhos e repensar com doçura e bom senso o rumo que escolherão. Por mais que se celebre o crescimento da igreja no Brasil, não se pode esquecer os enormes desafios e tentações que vieram a reboque.

Para que a igreja caminhe com esperança, é preciso repensar alguns paradigmas. E essa tarefa é difícil, eu sei. Para não nos acomodarmos aos processos de entropia, precisamos ousar sair de nossas zonas de conforto. Precisamos de coragem para caminhar nas fronteiras. E quem caminha em zonas de pensamento limítrofes corre o risco de colocar o pé do lado de fora. Quem ousa olhar por cima de cercas, talvez se encante com o que vê no quintal do vizinho e queira se mudar para lá. Viajei muito nos últimos anos, convivi com “pecadores e publicanos”, li autores não bem aceitos pelos cânones evangélicos, senti-me inclinado a caminhar para as periferias menos visitadas e agucei minhas críticas ao evangelicalismo. Perdi alguns encantos acríticos. Ousei questionar certos pressupostos doutrinários, sistemas de poder e, principalmente, algumas certezas que vinham do senso comum [...]

[...] As pessoas que me precederam talvez não tenham conseguido dirigir o rumo da história como gostariam. Meu juízo do que é mais conveniente não serve como referencial pleno. Muitos pioneiros trabalharam em circunstâncias adversas, com poucos recursos e em contextos hostis. Em muitos casos, contingências os surpreenderam, e eles se viram levados para realidades que não desejavam.

A crítica que muitas vezes faço ao movimento evangélico não pode conter rancores. Constato que manter-se sem azedumes na alma é muito difícil. Não quero me indispor com ninguém, até porque não posso julgar a sinceridade alheia. Sinceridade é uma qualidade que não deve existir sem a companhia de outras virtudes.

Pessoas extremamente sinceras podem praticar atos perversos e ser contaminadas por vícios terríveis. Mas quem é totalmente íntegro e quem conseguiria aliar verdade à sua sinceridade?

Portanto, estamos todos caminhando com nossas ambigüidades e incertezas, sabendo que Deus nos acompanha e nos ajuda a alcançarmos maior maturidade humana.

Tenho esperança e não posso deixar que ela morra. Caso persistam alguns modelos de igreja que ganharam força nos últimos anos entre os evangélicos, antevejo disfunções graves, entretanto, não sou niilista. Meus pessimismos não geram derrotismos imobilizadores de minha alma. A história mostra que vários movimentos se institucionalizaram, cresceram, alcançaram apogeu, entraram em declínio e morreram. Hoje, jazem em livros de história. Mas a Igreja (com I maiúsculo) sempre se reinventou e renasceu com outras características, visão, pressupostos teológicos e firmeza ética. O cristianismo é uma das instituições humanas com mais longevidade e pertinência. Jesus prometeu que ele mesmo edificaria sua igreja e que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela. Então, quando antecipo derrocadas, não me refiro ao mistério de Deus revelado na Igreja, mas ao segmento da cristandade chamado de evangélicos.

Hoje essa igreja vive seus momentos de exuberância, mas demonstra claramente que logo entrará em franco declínio. Porém não há motivo de pânico; uma nova Igreja surgirá. Outros discípulos nos seguirão, e haverá uma nova espiritualidade. Vivo e trabalho para que seja melhor, pois Deus sempre preserva um remanescente.

Algumas pessoas me criticam, afirmando que aponto defeitos, mas não ofereço soluções. Concedo que essa análise esteja correta.

Sou filho desta geração e também tenho grande dificuldade de pensar objetivamente. Minhas viseiras teológicas — e ideológicas — não me deixam enxergar bem. Tenho um foco restrito e, por mais que me esforce, muitas vezes não consigo sair de minhas bitolas. Mas minha incapacidade de apontar novos rumos não me angustia. Talvez esse papel pertença aos meus descendentes, àqueles que me substituirão. Espero que minhas inquietações os provoquem a sonhar com um novo cenário.

Trecho do livro (O que os Evangélicos não falam) Autor: Pr. Ricardo Gondim

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