Além do cristianismo ver a criança como cidadã do reino, ele também a considera como um modelo de espiritualidade (Mc 10.15). Este é o princípio teológico mais forte para que nossos olhos a vejam como um sujeito de plenos direitos na sociedade contemporânea. 

A criança na Bíblia 
Segundo o teólogo Roy B. Zuck, a Bíblia registra oito mil vezes palavras relacionadas à criança e à família. Tanto o Antigo quanto o Novo Testamentos traçam suas histórias tendo as crianças como sujeitos ativos. No Antigo Testamento, algumas crianças foram personagens decisivos para a concretização dos planos de Deus. Isaque, José, Moisés, Samuel, Davi, a menina escrava de Naamã são alguns exemplos. Os profetas escolhidos para anunciar a Palavra de Deus já sonhavam com uma sociedade em que as crianças viveriam plenamente. 

Não haverá mais nela criança para viver poucos dias, nem velho que não cumpra os seus (Is 65.20) 

No Novo Testamento — especialmente nos Evangelhos — vemos Jesus valorizando as crianças; elas são, ao mesmo tempo, modelos e alvos do cuidado dos discípulos (Mt 17-21). Uma das afirmações mais contundentes de Jesus (em resposta a uma indagação dos discípulos) é a seguinte: Aquele que se humilhar como esta criança, esse é o maior no reino dos céus. E quem receber uma criança, tal como esta, em meu nome, a mim me recebe (Mt 18.4,5) 

As crianças nos propósitos de Deus 
No contexto latino-americano, um dos documentos mais importantes para nortear uma perspectiva cristã da criança é As Crianças nos Propósitos de Deus. Redigido por 46 líderes cristãos evangélicos entre os dias 13 e 15 de novembro de 2003, em Buenos Aires, Argentina, o documento traz uma estrutura bíblico-teológica para a infância. Dele podemos extrair e comentar, sinteticamente, pelo menos, quatro aspectos da criança que devem ser considerados em nosso continente: 

1. Cidadã do reino de Deus 
Mais do que um ser social, a criança faz parte do reino de Deus (Mc 10.14). Ela tem o direito de ser protagonista da sua própria história. Falar do reino é proclamar, juntamente com o Criador, a aspiração de vida plena para tudo e para todos, onde a justiça reine (Mt 6.33), onde prospere a esperança e a paz seja possível (Rm 14.17). Não há, neste aspecto, diferença com relação ao adulto. 

2. Vítima do mundo 
Afirmar a importância das crianças nos propósitos de Deus e descrever os seus desejos de paz, igualdade, liberdade, dignidade, justiça, amor e respeito nos confronta com a crua realidade de nosso mundo. Nele, essas aspirações lhes são negadas, enquanto a exclusão e o sofrimento parecem se impor, de muitas maneiras, ao desejo do Criador. 

Existe, então, uma distância entre o reino desejado e a realidade, entre o propósito divino e a condição humana. Esta realidade exerce sua pressão de muitas formas sobre os mais pequenos e fracos deste mundo, dentre os quais podemos contar milhões de crianças. E na condição de vítima, a criança deve ser compreendida como sujeito que tem seus direitos desrespeitados e sua identidade desvalorizada. 

3. Missão da Igreja 
É ordem de Deus que a Igreja de Cristo seja um lugar seguro para a criança (Mt 18.6). Um espaço em que os pequenos possam crescer de maneira integral, uma comunidade saudável que proporcione aos menores o mesmo modelo de crescimento humano de Jesus (Lc 2.52). 

A realidade do mundo hoje contradiz os valores centrais do reino e constitui-se em desafio essencial para a Igreja, de maneira particular na América Latina e o Caribe. A Igreja assume, então, o papel de comunidade do reino, mas também (a exemplo dos profetas) de agente de justiça, denunciando, defendendo o direito, propondo alternativas; e ela própria provendo meios para proteger as crianças. 

4. Sinal do Reino 
O Reino de Deus é a vontade do Pai; a causa que Jesus defendeu durante seu ministério na terra; é o coração do evangelho e deve ser mesmo a paixão dos crentes chamados pelo Espírito para anunciar as boas notícias do Messias “até os confins da terra” (At 1.8). As crianças são um sinal de espiritualidade e um modelo de humanidade para este reino (Mt 18.3,4). Se levarmos isso a sério, a infância se torna uma metáfora do reino, onde celebramos a grandeza do pequeno e a esperança de “novos céus e nova terra” (2 Pe 3.13). 

É possível, portanto, perceber que, do ponto de vista cristão, a defesa de direitos da criança é mais do que uma escolha responsável; é uma missão de Deus para nós. Tal grau de responsabilidade faz jus à grandeza da criança no coração do Pai. 

Enfim...Para DEUS todo dia é dia da criança.

PS: Texto baseado no artigo Redescobrindo as Crianças no Coração da Missão, de Keith White, e no documento As Crianças nos Propósitos de Deus, do Movimento Cristão Juntos Por La Niñez. 

Juliano Fabricio via
 

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