Até tempos atrás era comum uma parcela de membros da igreja evangélica (incluindo ai muitos pastores e lideres) fazer sermões acalorados contra toda e qualquer mídia. Era comum se ouvir palestras proferidas sobre como os desenhos da Disney estavam acabando com os bons costumes cristãos. Muitas teorias foram criadas nesse período (algumas ainda são até utilizadas, mas graças a Deus perderam sua força original).

Era comum falar sobre como a mídia era manipuladora, e como mensagens subliminares eram colocadas em diversos anúncios, filmes e programas de televisões. Na verdade, quando era criança, tinha muito medo dessas mensagens subliminares, toda vez que via TV achava que estava sofrendo lavagem cerebral.

O que vemos hoje em relação a mesma mídia?

Essa mesma mídia até pouco tempo satanizada hoje é utilizada como uma das maiores formas de evangelismo. Quase todas as igrejas têm (ou tiveram) programas vinculados em rede nacional. O que antes era combatido agora tem se tornado comum, tanto em igrejas como na casas dos irmãos. São poucos os que ainda acreditam nas antigas pregações (podem até dizer que acreditam, mas mesmo assim vêem TV, sem que seja em busca das terríveis mensagens subliminares).

Com essa inversão de valores, o que antes era totalmente questionado agora começa a sofrer um processo de sacralização. É isso mesmo que eu disse, irei repetir. A mídia está passando por um processo de sacralização, de santificação (e não estou falando como algo positivo).

A crescente safra de programas religiosos na mídia tem fornecido conclusões semelhantes a diversos estudiosos da comunicação. Na atualidade a religião começa a sofrer um processo de dessacralização (o que temos que indicar não ser apenas culpa da mídia, mas é ela o ponto de debate desse texto), a qual não apenas perde exclusividade de ser a única associada a um encantamento mágico.

Tudo indica que a religião ao começar a fazer parte da grande televisiva acaba por transferir toda (ou pelo menos parte) da magia religiosa para a mídia em geral. Olha só o que o teórico da comunicação MARTÍN-BARBERO (1997, p. 112) falar sobre tais fatores: “para a grande maioria das pessoas a mídia é misteriosa, mágica, excitante e encanta com as novelas, as estrelas, a habilidade de criar eventos como os Jogos Olímpicos, o frenesi das disputas esportivas e espetáculo dos reavivamentos religiosos. Além disso, a mídia eliminou a distância entre sagrado e profano. Televisão é o local para a visualização de nossos mitos comuns, ela articula e catalisa a integração dos mitos da nossa sociedade (ídolos e artistas). (...) O que estamos testemunhando, não é o conflito da religião com a modernidade, mas a transformação da modernidade em encantamento por intermédio das ligações das novas tecnologias de comunicação com a lógica da religiosidade popular”.

Tudo parece indicar que, em geral, a mídia televisiva pós-moderna tem se transformado na forma determinante de se difundir a visão prevalecente de mundo. Não que nela decaia toda a responsabilidade por se construir mitos, valores sociais ou morais, mas é através dela que se obtêm uma das mais poderosas ferramentas onde se é possível ver perpetuados/difundidos diversos desses fatores sociais. Longe de se acreditar que tais processos tenham sua origem primaria na mídia e acreditando menos ainda que o fazer publicitário seja primordial para tais modificações sociais, também não se deve desprezar o papel desempenhados por ambos dentro de todo esse processo.

Outro teórico da comunicação, chamado Gilles LIPOVETSKY (2000, p. 8), conclui que: “O novo, enquanto fenômeno da modernidade, segue a mesma lógica da moda: produz maior autonomia em relação aos modelos. A moda, claro, cria modelos, mas eles não são imperativos. Pode-se negociar com eles, ressignificá-los ou simplesmente ignorá-los.Vivemos uma busca de estilos que devem exprimir, não a posição social, mas o gosto pessoal e a idade de cada um. Esta tornou-se mais importante do que a expressão de uma identidade sócio econômica. Em tudo isso, reaparece sempre o mesmo elemento: a suposição de uma influência nefasta da mídia sobre os indivíduos. Ora, os grupos de filiação são mais importantes e filtram todas as mensagens. (...) Existe, entre teóricos apocalípticos, um discurso segundo o qual o desejo de consumir derivaria da manipulação publicitária. É falso. A publicidade não consegue fazer com que se deseje o indesejável”.

É possível afirmar apenas que tanto a mídia como o fazer publicitário são um dos mais importantes fios condutores para a propagação da cultura de consumo já pré-determinada, através de diversas formas. Não é a mídia que determina em ultima instancia o que é certo ou errado. Ela não tem o poder de criar pensamentos ou ações genuínas, mas tem o poder de trabalhar com desejos já latentes e modificá-los ou conduzi-los para uma causa projetada por ela.

Tais conclusões são em muito diferentes daquelas pregações mencionadas no começo desse texto. A mídia em geral não é mais demonizada de forma completa. O que por um lado é bom, pois não temos como escapar de uma conclusão obvia, estamos na idade mídia. E as relações humanas serão cada vez mais mediadas por instrumentos midiáticos. O que não é ruim, o ponto é que com a antiga pregação contra tais meios apenas estávamos negando o inegável, não é a mídia o problema. Então qual é o problema? Vamos a isso, mas antes uma pequena explicação.

Usando novamente as palavras de LIPOVETSKY: “O consumidor seduzido pela publicidade [por toda a mídia na verdade] não é um enganado, mas um encantado. Em síntese, alguém que acolhe uma proposição estetizada. Repito minha fórmula da época: a publicidade funciona como cosmético da comunicação” (2000, p. 9). Em outras palavras: ao mesmo tempo em que a mídia não tem poder transformador tão profundo, ela consegue poder predominante, apenas pelo fato do ser humano depositar nela tais prerrogativas.

Deu para entender o ponto levantado aqui? O problema é que nos somos, em última instancia, os responsáveis por escolher viver, ou não, em um encantamento oferecido pela mídia. Ela como dito não tem o poder de nos seduzir sozinha, mas toda a sociedade está montada de certa forma que a sedução é automática. Não sendo algo forçado, mas muitas vezes sem percebermos já estamos seduzidos, por escolha própria, embora inconsciente.

Alguém pode gritar nesse momento. Então qual é a grande diferença? No final os filmes da Disney, as publicidades e a mídia em geral tem poder de nos seduzir. Então os pregadores (sim aqueles do começo do texto) estavam certos no que diziam. Não é verdade? Não, não é verdade. Por mais que parece que seja a mesma coisa existe uma grande diferença. Quando uma pessoa é mantida seduzida sem ser forçada a tal ato, apenas o é por um comodismo social, existe a possibilidade real dessa pessoa vir a ser liberta de tal comodismo.

E não seria esse o papel que cabe a atual geração de cristão? Ser membros de uma contra-cultura, que não está pronta a condenar pessoas ou instrumentos de comunicação. Mas aptos a dar uma resposta melhor a estrutura social atualmente oferecida. Pensar o papel da mídia na atual sociedade será de tremenda utilidade para a igreja cristã, afinal ao estarmos dentro desse mundo somos possíveis alvos da influencias contidas nele. Pensar os instrumentos dessa influencia é na verdade pensar como melhor atender ao mandado do Mestre de não seremos transformados pelo mundo, mas de seremos agentes de transformação.

No final a lição que tiro é que quando estudarmos a mídia nosso foco deveria ser colocado primeiramente na busca por um entendimento social mais amplo, objetivando entender o que tem levado seres humanos a se entregarem a tal "sedução" da mídia. Sem muitas vezes notarem que estão entregues.

Juliano Fabricio

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