Noé perdeu a alcunha de “piedoso” quando começou a ocupar-se da sua vinha. Ele tornou-se um “homem da terra”, e essa primeira tentativa de produzir vinho gerou, ao mesmo tempo, o primeiro a beber em excesso, o primeiro a amaldiçoar seus familiares e o primeiro a instituir a escravidão.

Aconteceu assim: Noé encontrou a vinha que Adão trouxera consigo do Paraíso, por ocasião da sua expulsão. Noé experimentou as uvas, achou-as saborosas e resolveu plantar a vinha e cuidar dela.

No mesmo dia em que ele plantou a vinha ela deu fruto, e no mesmo dia ele colocou-a na prensa de lagar, extraiu o suco, bebeu, ficou bêbado e foi desonrado. Seu assistente no cultivo da vinha foi Satanás, que acontecia de estar passando por ali no exato momento em que ele plantava a muda que havia encontrado. Satanás lhe perguntou:

– O que você está plantando aqui?

– Um vinhedo.

– E quais são as qualidades do fruto que ele produz?

– Seu fruto é doce, quer no seco ou no úmido. Produz vinho, que alegra o coração do homem.

– Que me diz de sermos parceiros nessa empreitada de cultivar um vinhedo?

– Fechado!

Satanás então matou um cordeiro e em seguida, sucessivamente, um leão, um porco e um macaco. O sangue de cada um que ia sendo morto ele fez fluir sob a vinha. Dessa forma ele transmitiu a Noé as qualidades do vinho: antes de bebê-lo o homem é inocente como um cordeiro; se bebe moderadamente, sente-se forte como um leão; se bebe mais do que pode aguentar, fica parecendo um porco; e se bebe ao ponto da intoxicação, passa a comportar-se como um macaco, dançando, cantando e dizendo obscenidades, sem saber o que está fazendo.

Isso não deteve Noé, mas também não o deteve o exemplo de Adão, cuja queda foi ocasionada também devido ao vinho: o fruto proibido tinha sido a uva, com a qual ele se embebedara.

Em sua embriaquez Noé dirigiu-se para a tenda da sua esposa. Seu filho Cão viu-o ali, contou aos irmãos o que havia encontrado e disse:

– O primeiro homem teve apenas dois filhos, e um matou o outro; esse Noé tem três filhos, e deseja além desses gerar um quarto.

Não satisfeito com essas palavras desrespeitosas dirigidas contra o pai, a esse pecado de irreverência Cão acrescentou o ultraje ainda maior de tentar executar no pai uma operação cujo fim era impedir a procriação.

Quando despertou do seu vinho e ficou sóbrio, Noé proferiu uma maldição contra Cão na pessoa de seu filho mais novo, Canaã. O próprio Cão ele não tinha como prejudicar, visto que Deus conferira uma benção sobre Noé e seus três filhos quando haviam saído da arca. Por essa razão ele colocou a maldição sobre o último filho de seu filho, de modo a impedi-lo a gerar um filho mais novo do que os três que já tinha.

Os descendentes de Canaã têm olhos vermelhos, porque Cão viu a nudez de seu pai; têm lábios mal-formados, porque Cão usou os lábios para contar aos irmãos sobre a condição imprópria do pai; tem cabelo enrolado, porque Cão torceu o pescoço a fim de ver a nudez do pai; e andam nus, porque Cão não cobriu a nudez do pai. Dessa forma Noé foi vingado, pois é do caráter de Deus distribuir justiça medida por medida.

“Amem um aos outros”

Canaã teve de sofrer vicariamente pelo pecado do pai. Porém uma parte da punição lhe foi infligida por sua própria culpa, porque foi Canaã que chamou a atenção de Cão para a condição revoltante de Noé. Cão era, ao que parece, apenas o pai honesto desse filho terrível. No testamento com as últimas vontades de Canaã para seus filhos estava escrito: “Não digam a verdade; não fiquem longe do roubo; vivam dissolutamente; odeiem seu mestre com ódio mortal; amem uns aos outros”.

Da mesma forma que Cão teve de enfrentar punição pela sua irreverência, Sem e Jafé foram recompensados pelo modo filial e respeitoso com o qual tomaram um manto, colocaram-no sobre os ombros e, andando de costas e com os rostos virados para o outro lado, cobriram a nudez do pai. Nus foram os descendentes de Cão, egípcios e etíopes, levados em cativeiro e ao exílio pelo rei da Assíria, enquanto os assírios, descendentes de Sem, não tiveram sua nudez exposta nem mesmo quando o anjo do Senhor queimou-os em seu acampamento: suas roupas permaneceram intocadas sobre seus cadáveres. E, num tempo que ainda virá, quando Gogue sofrer sua derrota, Deus proverá vestes funerárias e local de sepultamento para ele e sua multidão de descendentes, posteridade de Jafé.

Embora tanto Sem quanto Jafé tenham se mostrado pestrativos e respeitosos, foi Sem a merecer a maior recompensa de louvor. Foi ele o primeiro a dispor-se a cobrir o pai; Jafé uniu-se a ele quando a boa ação já havia sido iniciada. Por essa razão os descendentes de Sem receberam, como recompensa especial, o talit, peça de roupa usada por eles, enquanto os descendentes de Jafé têm apenas a toga. Uma distinção adicional concedida a Sem foi a menção de seu nome em conexão com a benção de Noé. “Bendito seja o Senhor, Deus de Sem”, ele disse, embora como regra geral o nome de Deus não fosse associado ao nome de uma pessoa viva, mas apenas ao de alguém que já houvesse partido desta vida.

A relação entre Sem e Jafé foi expressa na oração que seu pai proferiu sobre eles: Deus concederia uma terra de belezas a Jafé, e seus filhos seriam convertidos que residiriam nas academias de Sem. Ao mesmo tempo Noé deixou claro por suas palavras que a Shekiná habitaria apenas o primeiro templo, erigido por Salomão, descendente de Sem, e não no segundo templo, cujo construtor seria Ciro, descendente de Jafé.

* * *

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.
 

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