A igreja, na sua tendência de tentar separar o "sagrado" do "profano", propôs uma divisão entre música profana e música sacra. Música profana seria a usada para serviços não-religiosos e a sacra, exclusiva para o culto cristão. Certo dia li um artigo do Maestro Parcival Módolo que abordava o tema da Música Tripartida, numa tricotomia entre Música Erudita, Música Popular e Música Sacra. Antes, porém, eu havia lido o comentário de Calvino sobre Tito 1.12, no qual ele afirmava que toda verdade é de Deus e não deve ser desprezada se sair da boca de um incrédulo. Calvino disse isso porque o texto de Epimênides, a saber, "varões cretenses, sempre mentirosos, feras terríveis, ventres preguiçosos", não era de um cristão e, mesmo assim havia sido incluído no texto canônico da carta a Tito. Nesse ponto, as coisas se complicaram na minha cabeça. À luz da precisão do comentário de Calvino, eu não poderia classificar a música da forma tradicional: sacra versus profana ou de forma tripartida.

Do ponto de vista da complexidade, virtuosismo e dinamismo da história, a cisão entre música erudita e popular seria aceitável. Se bem que alguns estilos ditos populares são extremamente complexos e exigem virtuosismo por parte do executor. Talvez, a melhor maneira de classificar a música, quem sabe a mais justa, ainda que aparentemente pueril, seja: “música boa” versus “música ruim”. O critério para se avaliar se a música é boa ou ruim não seria o gosto pessoal, nem a complexidade, mas a relação forma-conteúdo ou “impressão” e “expressão”, de acordo com a finalidade e o meio onde a música é executada, sob o crivo da Palavra de Deus.

Deixe-me caminhar um pouco mais em minha argumentação. Para começar, não existe estilo musical neutro. Sempre o estilo comunicará alguma idéia, transmitirá algum sentimento. A música, só com o instrumental, prepara um ambiente, seja para uma festa ou para um velório. A isto chamamos de “impressão”. Quando pensamos na mensagem que a música transmite, ou seja, no texto que ela subsidia, então estamos nos referindo à “expressão”, que será boa ou ruim dependendo da teo-referência. Conclusão: Música boa será a que for teo-referente, ou seja, a que estiver de acordo com a revelação bíblica, subsidiando uma mensagem que comunique a verdade e que seja edificante.

Mas música boa também será aquela que possuir relação salutar e coerente entre a impressão e a expressão. Não creio ser apropriado, por exemplo, metrificar um salmo com uma melodia em “samba-enredo”. Por quê? Porque não existe estilo neutro. O samba-enredo é um estilo que lembra carnaval e as mulatas com trajes sumários dançando pela passarela.

A teo-referência da letra, no entanto, não resolve todos os problemas. Um determinado estilo musical poderia ser apropriado a um contexto cultural, mas não a outro, ainda que tenha a mesmíssima mensagem. Por exemplo, eu cantaria, sem problemas, uma música em estilo “xaxado”, uma vertente do baião nordestino, como parte integrante de um culto numa igreja em Roraima, mas não daria certo se eu tocasse a mesma música num culto em uma igreja tradicional histórica de Belo Horizonte. Então a mesma música seria boa em Roraima, mas ruim aqui em BH. Um fator preponderante na análise da relevância de uma música é a própria relação do estilo dela com a cultura local. Uma música acompanhada de atabaques em meio aos komkombas, em Gana, seria apropriado, mas não numa igreja Presbiteriana antiga em São Paulo. Tem música que é para diversão, outra para momentos sérios de introspecção, outras para adoração, louvor, contrição, etc. Calvino disse: “Há sempre a considerar-se que o canto não seja frívolo e leviano; pelo contrário, tenha peso e majestade, como diz Santo Agostinho. E, assim, haja grande diferença entre música feita para alegrar os homens à mesa ou em casa e os salmos que se cantam na Igreja, na presença de Deus e de seus anjos”.

Isso nos faz pensar que deveríamos ampliar nossa visão do que seja bom ou ruim, próprio ou impróprio no que diz respeito à música no culto ou na vida. Não podemos demonizar alguns estilos musicais. Muitos que não gostam de um determinado estilo musical, por não conseguirem argumentar racionalmente sobre sua irrelevância ou impropriedade, acabam dizendo que é do diabo, como uma espécie de escape à razão ou medida desesperada de quem não tem embasamento nas afirmações. A música, como meio, não é do diabo e jamais será (Inclusive no inferno não existe nem melodia). Vai depender da sua função teleológica. O diabo até pode usar a música para seus interesses, mas apenas nesse caso ela cumpriu essa função nefasta. Ela é meio e não fim. Devemos redimir a música, assim como as demais artes, e aplicar estes meios não como instrumentos para a glória do artista ou para os interesses de Satanás, mas para expressar a glória de Deus e comunicar a sua verdade.

Em vez de serem simplistas, as pessoas precisam pensar a respeito do que é bom ou ruim quanto à música, não com o egoísmo aflorado, obrigando todos a aceitarem sua preferência pelo tecnobrega. Se o estilo é ruim mesmo, impróprio por causa da impressão e da expressão, se fomenta a cultura do lixo, não deve estar no playlist do cristão. Vamos redimir nosso ouvido. Vamos ouvir só música boa, teo-referente e com estilo apropriado e coerente com a mensagem.

“Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai” (Fp 4.8).

Juliano Fabricio via

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