Há uma antiga lenda cristã que conta: "Quando o Filho de Deus foi pregado à cruz e entregou o espírito, foi diretamente da cruz ao inferno para libertar todos os pecadores que estavam sendo atormentados ali. O Diabo então chorou e lamentou porque achava que não conseguiria mais pecadores para o inferno. Deus então disse a ele: 'Não chore, porque vou mandar até você toda aquela gente santa que se tornou complacente com a consciência da sua bondade e cheia de justiça própria na sua condenação dos pecadores. E o inferno ficará repleto mais uma vez por gerações, até que eu venha novamente". 

Quanto tempo será necessário até que descubramos que não somos capazes de ofuscar a Deus com nossas realizações? 

Quando reconheceremos que não precisamos e não temos como comprar o favor de Deus? 

Quando reconheceremos que não temos de forma alguma os requisitos necessários e aceitaremos alegremente o dom da graça? Quando iremos apreender a empolgante verdade de Paulo: "sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus" (Gl 2:16)? 

A fé autêntica nos leva a tratar os outros com seriedade incondicional e a uma reverência amorosa pelo mistério da personalidade humana. O cristianismo autêntico deveria conduzir à maturidade, à personalidade e à realidade. Deveria moldar homens e mulheres que vivam integralmente vidas de amor e de comunhão. 

A religião falsa e manipulada produz o efeito oposto. Quando a religião demonstra desdém e desrespeita os direitos das pessoas, mesmo alegando os pretextos mais nobres, ela nos afasta da realidade e de Deus. Podemos aplicar "linguagem reversa" à religião, e fazer da religião uma fuga da religião. 

O Evangelho de João mostra que os líderes religiosos de Israel estavam preocupados com Jesus. Então, os principais sacerdotes e os fariseus convocaram o Sinédrio; e disseram: Que estamos fazendo, uma vez que este homem opera muitos sinais? Se o deixarmos assim, todos crerão nele; depois, virão os romanos e tomarão não só o nosso lugar, mas a própria nação. Caifás, porém, um dentre eles, sumo sacerdote naquele ano, advertiu-os, dizendo: Vós nada sabeis, nem considerais que vos convém que morra um só homem pelo povo e que não venha a perecer toda a nação (Jo 11:47-50). 

Algo terrível aconteceu a Caifás. A religião abandonou o domínio do respeito pela pessoa. Para Caifás o sagrado tornou-se instituições, estruturas e abstrações. Ele dedica-se ao povo, de modo que indivíduos de carne e osso são dispensáveis. Caifás dedica-se à nação. Mas a nação não sangra como Jesus. Ele dedica-se ao Templo — impessoais cimento e pedras. Caifás tornou-se impessoal ele mesmo, não mais um ser humano caloroso, mas um robô, tão rígido e inflexível quanto seu mundo imutável. 

A escolha normalmente apresentada aos cristãos não é entre Jesus e Barrabás. Ninguém quer se identificar com quem é tão obviamente um assassino. A escolha com a qual temos de ser cuidadosos é entre Jesus e Caifás. E Caifás nos engana. Ele é um homem muito "religioso"

O espírito de Caifás é mantido vivo em todos os séculos nos burocratas religiosos que condenam sem hesitação gente boa que quebrou leis religiosas ruins. Sempre por uma boa razão, é claro: pelo bem do templo, pelo bem da igreja. Quanta gente sincera já foi banida da comunidade cristã por religiosos ávidos de poder com um espírito tão entorpecido quanto o de Caifás? 

O espírito embotador da hipocrisia vive nos clérigos e políticos que desejam ter uma boa imagem sem serem de fato bons; vive nas pessoas que preferem entregar o controle das suas vidas a regras a correr o risco de viver em união com Jesus. 

Eugene Kennedy escreve: "O demônio habita na ânsia de controlar em vez de libertar a alma humana. É praticamente impossível viver esses anos finais do século XXI sem perceber a forma como as forças do controle se arrebanharam (...) Estamos numa floresta sombria que atemorizados líderes religiosos e políticos querem nos forçar a atravessar em fila indiana pela sua trilha exclusiva de integridade. Eles querem nos intimidar, querem deixar-nos apavorados, de modo que lhes entreguemos ainda mais nossa alma. Jesus via essas forças obscuras como os corruptores da natureza essencial da religião no seu tempo. Não são menos do que isso tantos séculos depois"

O modo como somos uns com os outros é o teste mais verdadeiro de nossa fé: Como trato um irmão ou irmã no dia-a-dia, como reajo ao bêbado marcado pelo pecado na rua, como respondo a interrupções de pessoas de que não gosto, como lido com gente normal em sua confusão normal num dia normal podem ser melhor indicação da minha reverência pela vida do que um adesivo contra o aborto preso ao pára-choque do meu carro. 

Não somos a favor da vida apenas porque evitamos a morte. Somos a favor da vida à medida que somos homens e mulheres para os outros, todos os outros; à medida que somos capazes de tocar a mão de outro num gesto de amor; à medida que para nós não existam "outros". 

Pense nisso. 

Juliano Fabricio

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