Permitam-me esboçar para vocês a história, a párabola de Jesus sobre o fariseu e o cobrador de impostos. Jesus diz: “Dois homens foram ao templo para orar. Um deles era fariseu. O outro era cobrador de impostos”. 

Devemos ter em mente que o cobrador de impostos era um salafrário. Tratava-se de um judeu colaboracionista que trabalhava para o governo romano. Ele possuía uma franquia, uma área dentro da qual detinha o direito exclusivo de coletar impostos. Os romanos diziam o quanto ele lhes devia, e qualquer coisa que ele recolhesse a mais ia para o seu bolso. Os cobradores de impostos eram desprezados como vira-casacas e coisa pior. 

Jesus, então, já armou o cenário para te pegar. Ele introduziu o fariseu, que era uma das figuras mais respeitáveis do judaísmo do seu tempo, e mandou com ele para dentro do templo esse cobrador de impostos – que é um mandante da máfia, um sangue-ruim. 

ADVERTÊNCIA: ESTA HISTÓRIA PODE AMEAÇAR GRAVEMENTE AS SUAS OPINIÕES ANTERIORES SOBRE COMO A RELIGIÃO FUNCIONA E SOBRE COMO DEUS FUNCIONA. 

O fariseu fica em pé sozinho e ora: 

– Ó Deus, muito obrigado porque não sou como as outras pessoas. Não sou ladrão. Não sou vagabundo. Não sou adúltero. E certamente não sou como esse cobrador de impostos ali. Jejuo duas vezes por semana. Dou a décima parte de toda a minha renda. 

É o discurso dele. O sujeito prossegue sem interrupção na mesma ladainha. E o cobrador de impostos apenas diz (ele não chega a olhar para o céu, fica olhando para a ponta dos sapatos): 

– Deus, tenha misericórdia de mim, um pecador. 

Jesus então diz: 

– Pois eu lhes digo que esse homem (o cobrador de impostos) foi para casa justificado, e não o outro. Pois todo que se exaltar será humilhado, e todo que se humilhar será exaltado. 

É essa a história. Como todas as parábolas de Jesus, deveria vir com uma advertência: ESTA HISTÓRIA PODE AMEAÇAR GRAVEMENTE AS SUAS OPINIÕES ANTERIORES SOBRE COMO A RELIGIÃO FUNCIONA E SOBRE COMO DEUS FUNCIONA. As parábolas de Jesus são projetadas para ultrajar os seus ouvintes, para chocá-los, e mostrar que Deus está muito acima de quase todos os valores nas suas cabecinhas. 

Essa parábola não é, ao contrário do que a sua conclusão pode indicar, sobre a virtude da humildade. O problema do fariseu não é que ele é um fanfarrão. Seu problema está em que ele realmente acredita que o seu rosário de boas obras basta para salvar o mundo. E ele acredita que bastaria que todos os demais fizessem como ele faz – bastaria para salvar o mundo inteiro. 

Se ao menos as pessoas fossem legais e atenciosas e maravilhosas como nós. 

O que Deus de fato diz em Cristo é que a bondade humana não é boa o bastante para fazer esse milagre. A bondade humana não é capaz de reconciliar o mundo. Basicamente, se o mundo pudesse ser reconciliado pelas sadias recomendações de Deus e pelas respostas despertadas por elas na bondade humana, os problemas do mundo teriam sido resolvidos dez minutos depois que Moisés desceu a montanha com os mandamentos. Todos teriam lido os mandamentos e dito: “Ah, é claro”, e o problema estaria terminado. O problema é que os mandamentos são muito legais, mas ninguém nunca prestou muita atenção neles. 

A lei e os mandamentos são esforços de moralidade, de humildade, de espiritualidade; são, acima de tudo, esforços de religião, esforços no sentido de fazermos alguma coisa que acerte nossa condição diante de Deus. Nenhum desses esforços funciona. Por isso Deus, falando através de Jesus, não arrisca tentar salvar o mundo pelo bom comportamento dos seres humanos. O erro do fariseu, portanto, não está em dizer algo orgulhoso e arrogante, mas em dizer algo totalmente equivocado. A sua bondade é irrelevante para o problema do qual ele está falando. Por causa disso Deus diz que é o cobrador de impostos, que simplesmente olha para os sapatos e diz “eu não presto pra nada”, que é justificado. Mas por onde? 

Esta parábola é, na verdade, sobre morte e ressurreição. Não é sobre moralidade, espiritualidade ou qualquer outra coisa. É sobre o fato de que tanto o fariseu quanto o publicano (o cobrador de impostos) são carne morta. O fariseu é um morto de alta classe, mas os dois estão mortos no que diz respeito à sua capacidade de se reconciliarem com Deus. A questão fundamental em tudo isso é que a reconciliação que Deus tem em mente para eles depende inteiramente da morte deles.
 
Agora faça uma pergunta a você mesmo. Você gosta dessa parábola? 

Jesus veio ressuscitar os mortos. Não veio ensinar o ensinável; não veio melhorar o melhorável; não veio reformar o reformável. Nenhuma dessas estratégias funciona. Jesus ensinou seus discípulos por três anos, e eles nunca captaram muita coisa. Deus tem estado ensinando o mundo há milênios. O mundo não tem feito muito a respeito. As tragédias continuam. As mentiras continuam. Os absurdos continuam. O blá-blá-blá continua. Tudo que há de errado com o mundo continua acontecendo. Essas coisas não se tratam com conversa. São tratáveis apenas com ação, e por isso Jesus veio ressuscitar os mortos – querendo dizer com morte, você em sua morte, o fariseu em sua morte e o cobrador de impostos em sua morte. 

Agora faça uma pergunta a você mesmo. Você gosta dessa parábola? É claro que não gosta. A questão é que ela viola toda a sensação que eu e você temos de estarmos indo basicamente muito bem. Se ao menos as pessoas fossem legais e atenciosas e maravilhosas como nós, o mundo seria um lugar melhor para se viver e Deus diz: “Não. Isso não vai funcionar”. Não pode ser feito dessa forma. Não pode ser feito por gente que acredita ser vitoriosa. Só pode ser feito por gente disposta a admitir o seu fracasso e que se dispõe então a confiar em Deus, na morte do seu fracasso, para fazê-lo por eles, para entregar a eles o dom da reconciliação com Deus. 

Mais uma vez eu pergunto: você gosta dessa solução? Mais uma vez a resposta é não: não gosta, porque eis aqui um horrendo cobrador de impostos, que é na verdade um personagem monstruoso e provavelmente esfrega sal nas feridas de todo mundo. Ele dirige por aí uma limusine com um engradado de Chivas Regal no porta-malas, rodeado constantemente de meia dúzia de garotas de programa. Tudo que ele tem feito é raspar a nata do dinheiro do seu próximo. A questão é que o fariseu não está menos morto do que esse personagem lamentável. 

Quero então revirar um pouco essa parábola. Imagine como seria ver o quanto o fariseu está errado. Imagine Deus sentado no templo diante de uma mesa dourada de cartas, sentado numa cadeira dourada, e entram essas duas figuras. O fariseu atravessa o templo e Deus está muito ocupado. Ele está criando o universo do nada. Está mantendo as estrelas em seus cursos. Está reconciliando todos os generais no Pentágono e os pedestres no Times Square e os drogados dormindo nas soleiras de todas as portas. Está fazendo o cabelo da minha cabeça crescer, hoje em dia bem devagar. Está fazendo tudo isso e está muito ocupado. 

Chega essa figura, esse fariseu, e saca um baralho e corta e embaralha e cascateia e abre em leque e oferece-o para Deus e diz: 

– Escolha uma carta. Quero jogar com o senhor. 

Deus volta a juntar as cartas no baralho e diz: 

– Não tem jogo comigo. 

– Não, não – diz o fariseu. – Eu tenho tido muita sorte ultimamente. Vamos jogar Black Jack. 

Ele dá a Deus um rei e um ás e Deus afasta a cartas de si e diz: 

– Olha, eu não quero o seu dinheiro. Você não tem como jogar comigo. As chances estão sempre a favor da casa e, além disso, não importa quão boa esteja a sua mão, sua mão nunca estará cheia. Você não tem como ganhar jogando comigo. Então por que você não é como aquele sujeito que está ali olhando para os sapatos, e não vão vocês dois tomar um drink de cortesia e divertir-se, porque você está fora de perigo aqui desde que abandone essa tolice de tentar me comprar, de tentar me conquistar, tentar colocar um braço nas minhas costas, fazer alguma coisa para provar que você é legal. Não me importa que você não seja legal. Eu o ressuscitarei da morte da sua falta de legalidade. Eu o ressuscitarei. Apenas confie em mim. Aquele sujeito ali, tudo que ele disse foi que não presta. Ele atirou-se com confiança em mim. Ele está livre de perigo porque todos os mortos estão fora de perigo na operação do meu universo, na minha reconciliação do mundo. Tudo que você precisa fazer é reconhecer que a morte é a chave da sua salvação. 

“Olha, eu não quero o seu dinheiro.” 

Agora você precisa se perguntar se gosta dessa versão da parábola. De novo não gosta. Vou provar que você não gosta. Suponha que o cobrador de impostos vá para casa justificado. Tudo bem. Você quer que eu o traga de volta uma semana depois. Tudo bem, eu trago. A primeira viagem de volta, a primeira semana depois da experiência original, o trará de volta sem quaisquer mudanças na sua vida. Mesma limusine, mesmas garotas no banco de trás, mesmo uísque caro e ele entra e completa a mesma rotina. Ele olha para os pés e diz: 

– Deus, tenha misericórdia de mim. Eu não presto. 

O que Deus vai dizer para ele? Bem, da maneira como Jesus contou a parábola, Deus dirá esta semana a mesma coisa que disse na semana anterior. Dirá: 

– Este homem vai para casa justificado porque admite que está morto. 

Ele não disse na primeira semana: “Você está justificado, mas veja se não faz isso de novo”. O que ele disse foi: “Eu o ressuscitei dos mortos. Creia nisso. Tudo bem. Vá em paz”. 

A segunda semana também, mudança nenhuma. A mesma coisa. Você gosta desta versão da história? Não. Não gosta. O bandido está escapando com o crime. Vou então fazer outra coisa. Vou dar a você uma outra versão. Trazê-lo de volta ainda na terceira semana para uma visita ao templo, mas trazê-lo desta vez com alguma mudança na vida. É isso que você está ansioso que eu faça, creio eu; que eu diga alguma coisa que mostre que ele precisa realmente mudar a sua conduta, corrigir-se pelo menos um pouquinho. Tudo bem. 

Vamos então trazê-lo de volta na terceira semana. Ele está de volta. Não está dirigindo uma limusine. Está com um Hyundai. Só há uma garota com ele no carro. Ele está bebendo um uísque mais barato e dando a diferença para o Hospital do Coração. 

Porque Deus daria ouvidos a essa lista de ínfimas melhorias, quando não deu ouvidos à lista de virtudes verdadeiramente respeitáveis que lhe apresentou o fariseu, um cidadão realmente consistente? A coisa que você tem de se perguntar é: “porque estou ansioso para fazer o publicano voltar com o exato discurso do fariseu?” 

Deus é vulgar. 

A resposta é que tememos uma salvação que é tão barata que salva a todos em sua morte. Morte. Morte de pecado, morte de desastre, morte de dor. É onde Deus trabalha. Deus trabalha com os fracassados do mundo. Trabalha em todos nós. O que isso quer dizer, a razão pela qual o tememos tanto, é que no fim das contas a morte é católica. A morte é universal. A morte nos pega a todos, e a morte é o único bilhete que qualquer um precisa para beneficiar-se da reconciliação em Jesus – e se todo mundo tem esse bilhete, Deus não tem bom gosto. Deus é vulgar. Deus não tem nenhum critério. Deus é imoral. Ele deixa Hitler entrar porque perdoa os pecados de Hitler. Ele o faz, em Jesus. Ele deixa entrar o meu cunhado. Ele deixa eu entrar. Deixa entrar você. Tudo que temos de fazer é crê-lo, e não fazê-lo por merecer. 

Segundo a proclamação de Jesus, temos um Deus que não conseguiu carteira de filiação no sindicato de Deus; não conseguiu porque somos nós que estabelecemos as regras que Deus deve seguir. Deus tem de ser punitivo; Deus tem de ser um juiz; Deus tem de ser um Deus que se dê o respeito. Tem de fazer tudo que zele para a imposição da moralidade, e Deus não o faz. Na cruz, em Jesus, ele deixa para lá toda a questão do pecado e cala-se sobre o assunto da condenação. Acabou. Como diz São Paulo no começo do oitavo capítulo de Romanos: “Portanto não há condenação para os que estão em Cristo Jesus”. 

Essa parábola é, portanto, sobre morte e é sobre a ressurreição dos mortos. O ponto central é que a morte é toda a ressurreição que podemos conhecer agora. A coisa mais importante é que confiamos em Jesus. Os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus e viverão. 

Não acredito na ressurreição. Não acredito na vida eterna. Não acredito na vida depois da morte. Não acredito no além. Tudo isso são meramente opiniões. Eu simplesmente confio que Jesus irá me livrar: da forma como ressurgiu da morte, ele me fará ressurgir. O que quer que isso signifique, não importa como funcione, eu confio nele porque a sua morte é a minha reconciliação, e minha reconciliação é nele a minha alegria. 


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