O médico Larry Thomas com uma paciente de podoconiosis (no detalhe, o aspecto dos pés doentes) após apenas um mês de tratamento: ação cristã promove cura total.
 
Uma doença misteriosa, diagnosticada erradamente por décadas, encontra a cura pelas mãos de cristãos.

O médico Larry Thomas participava de um almoço em Addis Abeba, capital da Etiópia, há cerca de 20 anos, na companhia de colegas americanos. Eles estavam no país africano para estudar uma terrível doença então recém-descoberta, chamada podoconiosis. Aqueles profissionais estavam se encontrando pela primeira vez. “Quando íamos começar a comer, perguntei, como que num impulso, se alguém se importaria se déssemos graças a Deus pelo alimento”, lembra Thomas, fundador da Tropical Health Alliance Foundation (em tradução livre, “Fundação Aliança para a Saúde Tropical”). Para sua surpresa, todos concordaram. Após a oração, o assunto da mesa foi fé e religião. “Começamos a falar de nossas crenças e logo percebemos que todos ali éramos cristãos assumidos”.

O fato não era simples coincidência. Desde que foi identificada pela primeira vez, há cerca de 35 anos, a podoconiosis tem atraído a atenção missionária de cristãos de todo o mundo. Uma grande rede de solidariedade se construiu, unindo profissionais de saúde, voluntários e empreendedores sociais católicos e evangélicos, unidos contra uma doença terrível e estigmatizante. A podoconiosis é simplesmente grotesca. Nos casos mais severos, é como se os pés das vítimas se transformassem em imensas massas de tecido apodrecidas. É como se os membros inferiores do doentes fossem tomados por uma espécie de musgo, ficando progressivamente deformados.e exalando um odor terrível. Um verdadeiro pesadelo. Mas um número considerável de pessoas – todos os envolvidos desde a descoberta da doença até as atuais pesquisas científicas – fazem parte desta luta. Dentre eles, estão um médico octogenário, algumas freiras e um bem-sucedido e jovem empresário do ramo de calçados. Com muita dificuldade e empenho, eles têm feito com que a doença, finalmente, comece a ganhar a atenção mundial.

Estima-se que um milhão de etíopes sofram de podoconiosis, mas é possível que o número total de vítimas no continente chegue a quatro milhões. Nas áreas mais afetadas, uma em cada 20 pessoas desenvolve a doença. Uma única vila etíope, com dois mil moradores, tem pelo menos cem vítimas, permanentemente inválidas. Em algumas áreas do país, o número de vítimas do mal ultrapassa o de doentes de Aids. Apesar da prevalência de casos e da severidade do problema, a doença não havia sido identificada até 35 anos atrás. Os especialistas costumavam diagnosticar sintomas de elefantíase infecciosa, até que um médico cristão, chamado Ewart Price, percebeu que se tratava de outro problema. Munido de mapas geológicos, Price estabeleceu uma conexão entre os sintomas da doença e o solo vulcânico da Etiópia, avermelhado e rico em substâncias sulfurosas.

Numa região paupérrima, onde a maioria das pessoas caminham descalças, é fácil entender a relação entre o meio ambiente e a podoconiosis. Examinando amostras de tecido linfático das vítimas, o médico percebeu a presença de minúsculos cristais de silício. Deduziu, então, que o silício era absorvido pelos pés e acabava bloqueando os canais linfáticos, provocando inchaço e deformidades. Como ainda não existem estudos conclusivos, a dedução de Price continua a ser a melhor explicação para a origem do mal. A exposição àquele tipo de solo, aparentemente, é crucial para o desenvolvimento da podoconiosis, mas outros fatores, como a predisposição genética, também devem ser levados em conta.

Por um longo tempo, as descobertas de Ewart Price provocaram poucas reações no meio médico internacional. As primeiras respostas organizadas à questão da podoconiosis começaram há pouco mais de dez anos. A enfermidade é citada na lista de doenças tropicais negligenciadas da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2008. “Trata-se de uma doença que afeta majoritariamente aqueles que não têm voz”, destaca a médica britânica Gail Davey, principal pesquisadora da podoconiosis na atualidade. Isso porque, devido ao estigma social que provoca, muitas vítimas da doença se escondem, e isso contribui para sua invisibilidade.

“PÉ MUSGOSO”

Em 1997, aos 84 anos, o médico missionário Nathan Barlow retornou à Etiópia, duas décadas depois de fugir do país por causa da decisão do governo de nacionalizar todos os hospitais. Nos 20 anos seguintes, ele trabalharia na República Centro-Africana e no Congo, e já conhecia a doença desde os anos 1950, embora, na época, não houvesse qualquer tratamento efetivo. Em seu retorno ao país, Barlow começou a procurar por medicamentos eficazes e, paralelamente, mais vítimas começaram a sair do esconderijo em busca de ajuda. O médico fundou, então, o Mossy Foot Project (“Pojeto pé musgoso”), com sede na cidade de Soddo, no sul da Etiópia. Poucos anos depois, Gail Davey e seu marido deixaram a Inglaterra para ensinar na Universidade de Addis Abeba. Em seu primeiro ano ali, a embaixada britânica pediu a ela que avaliasse uma proposta de financiamento para o projeto.

Gail visitou a sede da organização em Soddo e, nas suas palavras, foi imediatamente impactada pelo fato de os pacientes estarem à frente do trabalho. Ela também percebeu que havia encontrado a pesquisa de seus sonhos. Ali estava uma doença que afetava severamente milhões de pessoas e sobre a qual não se conhecia quase nada. Havia relatos de surtos da doença em várias regiões, mas ninguém ainda havia mapeado o fenômeno cientificamente – não se sabia sequer como era a evolução da doença e estava claro que a pesquisa apropriada poderia conduzir a uma ação imediata e efetiva, tanto no tratamento quanto na prevenção. “É formidável pensar que realmente há algo a fazer. Gosto de ter um objetivo claro a ser alcançado”, diz a médica. “Não sabíamos exatamente qual seria nosso papel na Etiópia quando chegamos ali. Acredito, firmemente, que Deus nos levou ao trabalho com os pacientes de podoconiosis. De alguma forma, os cristãos foram direcionados para esse trabalho, servindo os mais pobres, aqueles que não têm voz”, sustenta.

Ao mesmo tempo, freiras ligadas à ordem católica das Filhas da Caridade começaram a promover sessões de tratamento da doença em áreas remotas do país. Cora Bruin, uma holandesa especialista em antropologia médica, conheceu o trabalho das religiosas durante uma viagem de férias e ficou assustada com o fato de que doenças já perfeitamente tratáveis em outras regiões do mundo, como o bócio (aumento da glândula linfóide) ainda eram comuns ali. Mais tarde, Cora voltaria sua atenção para a podoconiosis, pensando tratar-se de elefantíase, mas o uso de medicamento para tratar vermes filariais não teve resultado. Bruin mergulhou na lieratura médica até que se deparou com o trabalho de Price, o primeiro a estabelecer uma conexão entre os sintomas da doença e o solo vulcânico. Isso levou-a, juntamente com as freiras, a conhecer o trabalho do “Projeto pé musgoso”. Agora, empregando as técnicas de que tomaram conhecimento, as irmãs estão começando a frear o processo de disseminação da podoconiosis e, por meio de educação, treinamento e discipulado cristão, capacitam as pessoas que ficam curadas a voltar a ter uma vida normal.

O projeto promove sessões semanais para tratamento da doença em 15 lugares diferentes, utilizando espaços cedidos pelo centros de saúde do governo etíope. Nativos portadores da doença são os mais envolvidos no cuidado com os pacientes e no trabalho de conscientização para a prevenção. Eles ensinam a como evitar a doença, a tratá-la e vão à casa dos pacientes se eles deixam de comparecer aos centros de saúde. Cada sessão semanal de tratamento tem início com a leitura de um texto bíblico e uma oração. Impossível deixar de associar o trabalho humanitário a uma das atitudes mais emblemáticas de Cristo – a lavagem dos pés de seus discípulos. “Andei por Dembi Dollo, no oeste da Etiópia, com as freiras, enquanto elas lavavam os pés dos pacientes de podoconiosis”, diz o médico americano Larry Thomas. “Assim, percebi que podia fazer o mesmo, com a mesma alegria que elas”, conta.

ÁGUA, ATADURAS E SAPATOS

Uma das pacientes tratadas pelas freiras é Dembi Fedasan, de 35 anos. Aos quinze, seus pés começaram a coçar e a inchar, até atingirem um tamanho enorme. Logo, ela não podia mais ir à escola por causa da dor que sentia para caminhar. Ela sabia qual era o problema, já que várias pessoas em sua comunidade tinham a mesma doença. Conforme o quadro progredia, um mau cheiro terrível passou a acompanhá-la. Ela viu sua vida social ser precocemente interrompida. Daquele jeito, ninguém mais iria se casar com ela ou com qualquer de seus irmãos ou irmãs. O estigma da doença havia “infectado” toda a família.

Em uma sociedade em que a mão de obra é tão essencial para o cultivo das lavouras, Dembi já não podia dar sua contribuição à comunidade. Por isso, ficava em casa, isolada e coberta de vergonha. Há três anos, porém, Dembi descobriu que havia tratamento disponível para seu problema a quase 200 quilômetros do lugar onde vive sua família. Como a passagem de ônibus seria muito cara para ir e vir todos os dias, ela se mudou para Dembi Dollo e, ali, trabalha como doméstica. O tratamento é simples: consiste em banhar os pés, esterilizá-los com uma substância alvejante, aplicar loções e colocar ataduras – e já têm feito grande diferença. O maior sonho de Dembi hoje é voltar para a sua cidade, ter uma criação de animais e uma pequena plantação.

Nathan Barlow morreu em 2004, aos 91 anos, mas o trabalho prossegue até hoje sob a liderança de nativos e com o apoio da filha do médico, Sharon, e de seu marido, Jim Daly. Além do foco no tratamento e na prevenção, o projeto também distribui calçados especiais feitos em uma oficina própria, uma vez que muitos pacientes de podoconiosis não podem usar sapatos ou sandálias normais. Os voluntários ainda distribuem sabão, alvejante e calçados para os filhos das vítimas. Os atendidos pelo projeto também têm acesso a cursos profissionalizantes e financiamento para pequenos empreendimentos, afim de que possam manter-se.

A doação de calçados apropriados aos doentes, bem como às pessoas que ainda não desenvolveram podoconiosis ganhou um empurrão e tanto graças à participação do jovem empresário texano Blake Mycoskie. Em 2006, ele viajou de férias para a Argentina e, enquanto observava o estilo dos calçados locais e pensava como adaptá-los ao gosto do consumidor americano, notou que muitas crianças pobres andavam descalças. Como homem de negócios e cristão, logo fez da compaixão a alavanca para uma grande iniciativa solidária: a Calçados Toms. A empresa nasceu com a promessa de que cada par comercializado corresponderia à doação de um outro para uma criança carente. A idéia foi um sucesso imediato. Em nenhum lugar do mundo o projeto se mostrou mais necessário que na Etiópia, onde um simples par de sandálias pode transformar a vida de uma pessoa.

Depois de visitar Dembi Dollo, Mycoskie quis cerrar fileiras com o projeto no combate à podoconiosis e convocou o médico Thomas para ajudá-lo. “Pensei que se todos trabalhássemos juntos, poderíamos fazer algo grandioso”, revela Thomas. “Ainda há muito a fazer ainda, mas quantas vezes na vida você tem a chance de ser um pioneiro?” A Toms tem como alvo distribuir calçados para os filhos dos pacientes de podoconiosis, os quais são cinco vezes mais propensos a contrair a doença do que a população em geral. Somente através do projeto pés musgosos, a empresa distribui dez mil pares de calçados por mês.

A surpreendente união de pessoas de formações, perfis e confissões religiosas tão diferentes em torno de uma mesma causa tem produzido resultados espetaculares. Larry Thomas nada sabia sobre a podoconiosis, mesmo quando dirigiu um hospital ligado à Igreja Adventista do Sétimo Dia em Gimbi, na Etiópia. Alguns dos médicos tomaram conhecimento do trabalho das freiras na capital e começaram uma parceria. Inspirado pelo idealismo daquelas religiosas e pela eficiência do tratamento, Thomas começou a levantar recursos em sua cidade, Loma Linda, na Califórnia, por meio de uma parceria bastante atípica, entre as igrejas católica e adventista.

Quando encontrou Dembi Fedasan, o médico ficou perplexo. Ela já havia começado o tratamento, mas seus pés ainda estavam com um aspecto grotesco e Thomas pediu permissão para fotografá-los. Tempos depois, Evelyn, uma das irmã da Caridade, enviou-lhe outra foto dos pés de Dembi. Ele mal pode reconhecê-los: estavam bastante desinchados, graças ao tratamento. Desde então, Thomas não conseguiu mais parar de trabalhar no apoio ao tratamento dos pacientes de podoconiosis por meio de sua fundação. Ele continua a atuar como médico em tempo integral no Sul da Califórnia, mas seu coração está na Etiópia. Afinal, graças a ele e a uma aliança improvável de cristãos, gente antes “invisível” como Dembi Fedasan está não apenas sendo transformada, como também vista por muita gente.

Tim Stafford é colaborador sênior de Christianity Today via
 

0 Comentários - AQUI:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Comentem pelo Facebook

Paninho do AMOR

Click e Confiram D+

Segue ai...

Curta no Facebook

Amigos do Blog

Postagens populares

Twittes

Google+ Followers

Blog que escrevo

Pesquisar este blog

Siga-me por Email

Marcadores

@provérbios (27) #pronto falei (304) #Provocações (283) #Word (55) Administração (58) Amor (296) Arte (270) Atitude (561) Bíblia (99) Boas notícias (118) Contra Cultura (165) cristianismo inteligente (546) Curiosidade (106) Dicas (49) Estudo (83) Familia (74) Fundamentos (313) GRAÇA (140) humor (87) Igreja (144) imagem que vale post (33) Juventude (61) Livros (17) Masculinidade (41) Missão integral (103) modelos (171) Nooma (8) Opinião (313) Oração (38) Polêmica (94) Politica (53) Protesto (138) Questionamentos (492) Recomendo (131) Relacionamento (285) relevante (335) Religião (69) Solidariedade (58) Teologia (169) Videos (386)

Blog Arquivos

Minha lista de blogs

Juliano Fabricio Ferreira. Tecnologia do Blogger.

Visão Mundial - Conheça

Visitantes

Contato:

Juliano Fabricio Ferreira

jucafe2@yahoo.com.br

Uberlândia - MG - 34 99149-5443

Networkedblogs - Siga

Recomendações