Entreguei meu coração e meu discurso para ele ser o que é: grosseiro e afável, áspero e compassivo, íntegro e abalado, honesto e provocante, extraído dos tonéis da vida. 

A palavra profética convoca incessantemente a igreja de volta à pureza do evangelho e ao escândalo da cruz. Em suas numerosas cartas, Paulo reforça que seguir Jesus é tomar a estrada principal até o Calvário. Espalhados ao longo da estrada jazem os esqueletos de nosso ego, os cadáveres de nossas fantasias de controle e os estilhaços da hipocrisia, da espiritualidade auto-indulgente e da ausência de liberdade. 

A maior carência de nosso tempo é de uma igreja que se torne o que ela raramente tem sido: o corpo de Cristo com a face voltada para o mundo, amando aos outros independentemente de religião ou cultura, derramando-se numa vida de serviço, oferecendo esperança a um mundo aterrorizado e apresentando-se como alternativa genuína ao presente estado de coisas. “A igreja digna desse nome é um grupo de pessoas no qual o amor de Deus quebrou o feitiço dos demônios e falsos deuses que estão produzindo neste momento uma fissura no mundo.”1 

Não quero a religião dura e visceral que prefere ter Clint Eastwood, e não Jesus, como herói; nem a religião especulativa que tende a aprisionar o evangelho nos salões da erudição; tampouco aquela barulhenta e indulgente, que é um apelo grosseiro à emotividade. Anseio por entusiasmo, inteligência e compaixão numa igreja despojada, que acene gentilmente para que o mundo venha desfrutar da paz e unidade que possuímos pela presença do Espírito em nosso meio. 

A assinatura de Jesus, ou seja, a cruz, é a expressão última do amor de Deus pelo mundo. É do Cristo crucificado e ressurreto apenas a Igreja que traz a marca de sua assinatura; apenas aquela que está voltada para fora de si mesma e percorre com ele o caminho da cruz. A igreja que se volta para dentro, em disputas internas e discordâncias teológicas, perde a identidade e a missão. 

O que separa os comprometidos dos não-comprometidos é a profundidade e a qualidade de seu amor por Jesus. As pessoas superficiais constroem celeiros maiores na euforia do evangelho da prosperidade; os moderninhos seguem a última moda e tentam garantir cantarolando baixinho seu caminho até o céu; os derrotados são perseguidos por fantasmas do passado. 

A minoria vitoriosa, porém, sem deixar se intimidar pelos padrões culturais da maioria que dita o passo, vive e celebra como se Jesus estivesse próximo — no tempo e no espaço — sendo testemunha de nossos motivos, de nosso discurso e de nosso comportamento. Como ele de fato está. 

A fidelidade à Palavra nos levará à rota da mobilidade descendente (para citar a frase famosa de Henri Nouwen) em um mundo obcecado com a ascensão. Vamos nos encontrar no caminho não do poder, mas da renúncia ao poder; não do sucesso, mas do serviço; não no caminho largo do louvor e da popularidade, mas naquele estreito do ridículo e da rejeição. 

Ser cristão é ser como Cristo. Devemos perder a vida de algum modo, a fim de encontrá-la. O cristianismo prega não apenas um Deus crucificado, mas também homens e mulheres crucificados. “Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo” (Gl 6:14). Não há discipulado sem cruz. Não sou seguidor de Jesus se vivo com ele em Belém e Nazaré e não no Getsêmani e no Calvário. 

Você é chamado a uma vida de discipulado radical? À pobreza de Madre Teresa? À oração dos pais do deserto? Ao martírio de Dietrich Bonhoeffer? Ao estilo de vida celibatário de Jesus e de Paulo? A uma carreira profética? Ao ministério de tempo integral em favor dos oprimidos e excluídos? Serei eu chamado a essas coisas? 

Você precisará tanto de honestidade quanto de discernimento ao ponderar sobre essas questões e ler este livro. Nem todo mundo é chamado, como o jovem rico, a uma renúncia radical de literalmente tudo (cf. Mc 10:17-30). 

Jesus nunca disse a Lázaro e suas irmãs, Marta e Maria, que abrissem mão de tudo que possuíam. Ele não anunciou a Nicodemos e José de Arimatéia que estavam excluídos do reino. O rico Zaqueu proclamou: “Senhor, resolvo dar aos pobres a metade dos meus bens” (Lc 19:8) — não tudo, apenas a metade. E ainda assim Jesus disse a ele: “Hoje, houve salvação nesta casa” (v. 9). A reação de Zaqueu já basta para herdar o reino. Isso espelha João Batista replicando às multidões: “Quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem” (Lc 3:11).2 

Há diversos graus de discipulado. Logo depois de minha conversão, comecei a invejar secretamente a generosidade de espírito, a oração profunda e os dons espirituais de outros na comunidade da igreja. Foi uma inesquecível experiência de libertação quando, certo dia em oração, meus olhos caíram sobre as palavras de João Batista: “O homem não pode receber coisa alguma se do céu não lhe for dada” (Jo 3:27). 

Alguns foram tão traumatizados pela vida que a mera sobrevivência, um dia de cada vez, tornou-se a única preocupação. Outros foram tão manchados pelas circunstâncias, marcados por deficiências físicas e emocionais ou contundidos e esmagados pelos caprichos da vida que mal são capazes de olhar além das próprias necessidades. William Barry, por exemplo, reflete sobre o homem de quem Jesus expulsara uma legião de demônios. Depois da cura, “ao entrar Jesus no barco, suplicava-lhe o que fora endemoninhado que o deixasse estar com ele. Jesus, porém, não lho permitiu, mas ordenou-lhe: `Vai para tua casa, para os teus. Anuncia-lhes tudo o que o Senhor te fez e como teve compaixão de ti’” (Mc 5:18-19, grifo do autor). O homem aparentemente não deplorou essa “rejeição” como injusta. Ao contrário, “ele foi e começou a proclamar em Decápolis tudo o que Jesus lhe fizera; e todos se admiravam” (v. 20).3 

Pelo jeito, esse homem não foi chamado a um discipulado radical. Mas para, assim como nós, ouvir com atenção a primeira palavra de Deus dirigida a nós. Essa palavra é o dom de nós para nós mesmos — nossa existência, nossa natureza, nossa história pessoal, nossa singularidade, nossa identidade. Tudo que temos e somos representa um modo único, que jamais será repetido, de Deus expressar-se no espaço e no tempo. Cada um de nós, feito a sua imagem e semelhança, é mais uma promessa que ele faz ao universo de que continuará a amá-lo e importar-se com ele. 

No entanto, mesmo quando a fé nos persuade de que somos uma palavra de Deus, permanecemos ignorantes do que Deus está tentando dizer por meio de nós. Thomas Merton escreveu: “Deus me profere como uma palavra que contém um pensamento parcial dele mesmo. A palavra nunca será capaz de compreender a voz que a profere. Mas se sou fiel ao conceito que Deus profere em mim, se sou fiel ao pensamento que ele teve intenção de corporificar em mim, estarei cheio de sua realidade e o encontrarei em todo lugar de mim mesmo, e a mim mesmo em lugar nenhum. Estarei perdido nele”.4 

Com resistência e perseverança, devemos aguardar que Deus esclareça o que ele quer dizer por meio de nós. Essa espera envolve paciência e atenção, bem como a coragem de deixar-se proferir. Essa coragem vem apenas pela fé em Deus, que não profere palavra de falsidade. 

Uma das impressionantes lições da Bíblia é o livre uso que Deus faz de frágeis seres humanos a fim de executar seu propósito. Ele nem sempre escolhe o santo e devoto, ou mesmo o emocionalmente estável. O venerável Liebermann, um poderoso missionário do século XIX, era um maníaco-depressivo que não conseguia atravessar uma ponte sem o desejo compulsivo de pular dela. “O Espírito Santo é portador de dádivas, e essas dádivas são às vezes dispensadas em lugares inesperados.”5 Deus confere sua graça profusamente, mas de modo desigual. Ele não oferece explicação para o mistério de que alguns são chamados a um discipulado radical e outros não. 

Como somos todos mendigos privilegiados, mas não merecedores, às portas da misericórdia de Deus, os que são chamados a um discipulado radical não têm razão para vangloriar-se: “Mas Deus escolheu as coisas loucas do mundo para confundir as sábias; Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes” (1Co 1:27). 

O dom do discipulado radical é pura graça aos que não têm nenhum direito a ele, pois os desejos mais profundos de nosso coração não estão sob nosso controle. Não fosse assim, bastaria que escolhêssemos esses desejos e estaria resolvido. A coragem de viver como profeta e amante está além do alcance humano. Sem a graça de Deus não podemos nem ao menos desejar Deus. Sem a graça de Deus não podemos viver de acordo com as palavras de Cristo. Toda minha boa vontade e austera determinação não bastam para manter-me sóbrio. Em todas as salas de reunião dos Alcoólicos Anônimos ao redor do país estão pendurados os dizeres: “Prossigo apenas pela graça de Deus”. 

Esse tema é formidavelmente apresentado na novela Franny e Zooey, de J. D. Salinger. Bessie tem insistido para que seu filho Zooey providencie ajuda profissional para sua irmã, Franny. Zooey pondera cuidadosamente a questão. Ele finalmente diz: “Para um psicanalista fazer algum bem a Franny, teria de ser um tipo bastante peculiar. Não sei. Teria de acreditar que foi inspirado a estudar psicanálise pela graça de Deus em primeiro lugar. Teria de acreditar que pela graça de Deus não foi atropelado por… por um caminhão antes mesmo de obter sua carteira de motorista. Teria de acreditar que é pela graça de Deus que ele tem inteligência inata para ajudar, de alguma forma, seus pacientes. Não conheço nenhum bom analista que pense dessa forma. Mas é o único tipo que poderia fazer algum bem a Franny”. 

Jesus deseja ver em discípulos radicais o que ele nota nas criancinhas: um espírito de receptividade pura e simples, completa dependência e confiança radical no poder, na misericórdia e na graça de Deus mediada pelo Espírito de Cristo. Ele disse: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15:5). 

Da mesma forma que meu livro O evangelho maltrapilho abordou a graça radical, este livro aborda o tema do discipulado radical. O discipulado é nossa resposta à graça. Qualquer que seja a medida de graça que tenhamos recebido, e não importa o grau de discipulado para o qual fomos chamados, todo cristão está debaixo da cruz de Jesus Cristo, onde encontra salvação. 

Por mais oculto e pouco dramático que seja seu testemunho, oro para que você seja suficientemente ousado para ser diferente, humilde para cometer erros, corajoso para queimar-se no fogo e verdadeiro para ajudar os outros a verem que prosa não é poesia, discurso não é canção; e que tangíveis, visíveis e perecíveis não são adequados para seres marcados com o sangue do Cordeiro. 

Ora, disse o Senhor a Abrão: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei; 

de ti farei uma grande nação,
e te abençoarei,
e te engrandecerei o nome.
Sê tu uma bênção!
Abençoarei os que te abençoarem
e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem;
em ti serão benditas
todas as famílias da terra. 

Partiu, pois, Abrão, como lho ordenara o Senhor, e Ló foi com ele. Tinha Abrão setenta e cinco anos quando saiu de Harã. 

Levou Abrão consigo a Sarai, sua mulher, e a Ló, filho de seu irmão, e todos os bens que haviam adquirido, e as pessoas que lhes acresceram em Harã. Partiram para a terra de Canaã; e lá chegaram. 

Atravessou Abrão a terra até Siquém, até ao carvalho de Moré. Nesse tempo os cananeus habitavam essa terra. 

Apareceu o Senhor a Abrão e lhe disse: “Darei à tua descendência esta terra”. Ali edificou Abrão um altar ao Senhor, que lhe aparecera. Gênesis 12:1-7 

A assinatura de Jesus - Brennan Manning

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