Miquéias não era um homem que freqüentava a corte e a elite, mas era um homem do campo e do povo. “A voz do Senhor clama à cidade” (Miquéias 6:9) 

A profecia de Miquéias é extremamente relevante para a sociedade brasileira contemporânea, não apenas porque ele posicionou-se contra a entrada da religião dos cananeus em Israel, mas porque ele denunciou uma injustiça social muito próxima da nossa realidade, isto é, a sociedade da desigualdade social e do uso da religião por parte de alguns líderes como forma de se tirar proveito da religiosidade popular para obtenção de recurso material. No livro de Miquéias, há três abordagens especificas: A primeira é para os dirigentes da nação, que ele chama de “príncipes de Jacó”, a segunda é para os líderes religiosos, isto é, profetas e sacerdotes, e a terceira é para o próprio povo, que estava aceitando a injustiça, ao invés de criticá-la e confrontá-la. Vamos nessa!!!! 

Contra os dirigentes da nação: crítica à desigualdade social 

Miquéias foi profeta na época do Rei Ezequias. O reinado deste rei foi um momento de grande prosperidade para Israel, causado, entre outros motivos, pela paz internacional do período. Esta prosperidade fica evidente na passagem bíblica em que o rei Ezequias mostra os seus tesouros para o rei da Babilônia: 

“E Ezequias lhes deu ouvidos; e lhes mostrou toda a casa de seu tesouro, a prata, o ouro, as especiarias e os melhores ungüentos, e a sua casa de armas, e tudo quanto se achou nos seus tesouros;” (2 Reis 20:13). 

Mas, ao mesmo tempo que a casa do rei estava tão rica e próspera, a população vivia em grande miséria, devido à concentração de renda e sua respectiva má distribuição. Isto fica evidente na profecia de Miquéias, pois é justamente contra esta injustiça que ele profetiza, dirigindo-se aos dirigentes da nação: 

Disse eu: Ouvi, peço-vos, ó chefes de Jacó, e vós, príncipes da casa de Israel; não é a vós que pertence saber o juízo? A vós que odiais o bem, e amais o mal, que arrancais a pele de cima deles, e a carne de cima dos seus ossos. E que comeis a carne do meu povo, e lhes arrancais a pele, e lhes esmiuçais os ossos, e os repartis como para a panela e como carne dentro do caldeirão. (Miquéias 3: 1 a 3). 

Da mesma forma, o Brasil, ao mesmo tempo em que é o possuidor do 8º maior PIB do mundo, tem uma concentração de renda muito grande, pois é também o 8º país do mundo em concentração de renda, o que faz com que, mesmo possuindo uma grande soma de riquezas, grande parcela de sua população seja incapaz de atender às suas necessidades básicas. 

Contra os líderes religiosos: Crítica à mercantilização do sagrado 

Contra os líderes religiosos de sua época, Miquéias adverte: “Os seus chefes dão as sentenças por suborno, e os seus sacerdotes ensinam por interesse, e os seus profetas adivinham por dinheiro.” (Miquéias 3:11). 

Miquéias denunciava o fato de que os profetas e sacerdotes proclamavam apenas aquilo que o povo e os dirigentes queriam ouvir, ainda que fosse algo injusto, em troca de manter o seu próprio bem estar de mordomia e de recursos financeiros. 

Da mesma forma, as pessoas nos tempos atuais, cada vez mais, buscam serviços religiosos da mesma forma que adquirem produtos em um supermercado, o que deixa transparecer um processo de mercantilização do sagrado. As pessoas estão se sentindo livres de um compromisso com uma determinada tradição e buscando a resolução imediata de problemas espirituais específicos. Ou seja, percebe-se que há um enfraquecimento da religiosidade institucionalizada e o fortalecimento da subjetivização dos sistemas de crenças. 

É justamente isto que abre espaço para o surgimento de líderes religiosos dispostos a mercantilizarem o sagrado. O que líderes religiosos praticavam e que Miquéias denunciou, e que acontece na sociedade brasileira contemporânea, encaixa-se no conceito weberiano de dominação carismática. Isto é, o discurso do líder que se apresenta como sacerdote e, portanto, portador da voz divina, toma um peso muito grande que faz com que os desfavorecidos se sintam mal, caso não façam aquilo que está sendo recomendado. E, geralmente, esta recomendação está em doações financeiras ou aquisição de seus produtos, acompanhados de promessas de resolução e problemas sociais, tais como a miséria, a pobreza e as doenças. 

Em outras palavras, a injustiça social do Brasil causa transtornos em grande parte da sua população, tais como doenças e misérias e, como o Estado não oferece resposta para estes problemas, as pessoas passam a buscar na religião. Neste contexto, aparecem os líderes carismáticos que, aproveitando-se da situação, usam o título de sacerdote e proclamam discursos em nome da divindade que representam como promessa de resolução do problema em troca de alguma oferta por parte do fiel, semelhante ao que acontecia no reino de Israel na época do profeta Miquéias. Como disse anteriormente, percebe-se uma semelhança no sentido de que a religiosidade deixa de estar ligada à tradição e passa a ser centrada em um princípio de eficiência. 


Contra o povo: crítica à aquiescência (Concordância, consentimento, adesão, aprovação)


“Porque o Senhor tem uma contenda com o seu povo, e com Israel entrará em juízo (...) poderei eu inocentar balanças falsas, com sacos de pesos enganosos?”(Miquéias 6: 2;11). 

Para Miquéias, diante da injustiça social, ao invés da revolta e da crítica, o povo estava se tornando semelhante aos seus líderes civis e religiosos. Isto é, assim como os líderes se corrompiam, o povo, no seu dia a dia, também estava fraudando no comércio e nas atividades diárias. 

O Brasil tem, nos dias atuais, a fama de que tudo se resolve na base do “jeitinho”. Não é raro que a imprensa denuncie casos de suborno e corrupção, não somente entre aqueles que detêm o poder político, mas também, entre aqueles cidadãos desfavorecidos materialmente e de cargos de liderança. Já se tornou lugar comum, no Brasil contemporâneo, muitas vezes, justificar a corrupção das pessoas pobres com a justificativa que os membros das classes dominantes também agem de forma semelhante. Ao invés da crítica, da intolerância com a injustiça e da organização contrária à corrupção dos dirigentes, entre a população pobre do Brasil cunhou-se a expressão “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão” como que, para justificar, entre outros exemplos, o próprio roubo que os cidadãos fazem ao Estado através da sonegação de impostos. 

Podemos, portanto, perceber, de forma clara, que os problemas atuais do Brasil, tais como a injustiça social por causa da concentração de renda nas mãos de poucas pessoas da classe dominante, como a mercantilização do sagrado por parte dos líderes religiosos, não é algo inédito, mas que ocorre mesmo nas sociedades do Antigo oriente. No entanto, urge a necessidade de questionamento da população, não de se conformar e agir da mesma forma corrupta que os seus dirigentes, mas sim, de questionamento e renovação social. 

Juliano Fabricio

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