Foi arte e foi teatro ao mesmo tempo, mas foi ainda mais. Foi o que Ele não disse que falou mais poderosamente à turba naquela manhã. Foi como um copo de água fria para uma adúltera sedenta e um jato de água fria no rosto para um grupo de fariseus furiosos.

Até hoje não temos a menor idéia do que Jesus rabiscou duas vezes na areia. Em geral tem-se feito a pergunta errada através dos séculos. Trabalha-se no conteúdo sobre o que ele poderia ter escrito. Pergunta-se o quê sem sequer perceber-se que a verdadeira pergunta deveria ser por quê? Não é o conteúdo que importa, mas o porquê de Ele ter feito isso. Inesperado. Irritante. Criativo.

Eles estavam furiosos, é claro — com Jesus e com a mulher. (Por tudo o que sabemos, eles devem ter armado para que ela fosse pega). Arrastaram-na até o pátio do templo, interrompendo sabe-se lá qual lição brilhante que Jesus estava dando.

Você conhece a história. “Tu, pois, que dizes?” — eles lhe perguntaram, com a falsa reverência à qual Ele havia se acostumado com o tempo.

Mas Jesus não disse nada. Nenhuma sílaba. Em vez disso, agachou-se e “escreveu” algo com o dedo na areia sagrada do templo.

Os escribas e fariseus não podiam suportar seu silêncio pensativo, e continuaram incitando-o com perguntas.

Jesus finalmente quebrou o terrível silêncio. Erguendo-se uma vez mais, deixando de lado seus rabiscos, Ele deu, em apenas quatorze palavras, um resumo de sabedoria e compaixão que conferiu a forma perfeita à sua vida (e que pode fazer o mesmo com a nossa): “Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra” (Jo 8.7).

Ele, então, voltou à atividade. Aquele que havia desenhado as galáxias com o mesmo dedo, agachou-se como um aluno, sua língua talvez dobrando-se no canto da boca, escrevendo mais uma vez aquelas palavras pelas quais daríamos um tesouro para saber quais foram, mas que nunca saberemos.

O que Jesus fez naquela manhã criou um espaço no tempo, que permitiu que a turba furiosa se acalmasse, ouvisse sua palavra, pensasse finalmente a respeito dela, fosse convencida e respondesse a ela — ou não. Fez com que o tempo se aquietasse. Foi original. Foi inesperado. Foi uma resposta ao barulho e à confusão, e a toda a intensa atividade ao seu redor, ainda que Ele mesmo não estivesse nem um pouco incomodado pelo barulho. Pelo contrário, o ato de Jesus criou uma moldura em torno do silêncio — o tipo de silêncio a partir do qual Deus fala ao coração. Em resumo, foi um ato supremo de criatividade. Foi arte.

Aparentemente, a forma e até mesmo o conteúdo não foram o que na verdade importou, não tanto quanto o fato de que, por um momento, o barulho cessou e a atenção de todos concentrou-se em outro lugar. Naquele momento, todos ao redor aprenderam que o seu mundo não era o único mundo que existia. E, assim, foram liberados. Isso também é arte.

Nossos livros minuciosos, nossos quadros grandiosos, nossas sinfonias majestosas, toda a arte até hoje feita em seu nome desde aquele dia, não podem esperar ser mais e não devem permitir-se ser menos do que os rabiscos de Jesus na areia naquela manhã. Se aquilo que criamos, escrevemos, dançamos ou cantamos pode abrir tamanho espaço no tempo por meio do qual Deus pode falar, imagine as possibilidades! A pintura pode tornar-se uma janela através da qual um mundo confuso olha e vê a ordem sadia da criação de Deus. A música pode tornar-se um eco orquestrado da voz que os ouvidos cansados da humanidade há séculos têm ansiado ouvir. Essa é arte por meio da qual Deus é visto e ouvido, na qual Ele é encarnado, é “detalhado” em pintura e tinta, em pedra, em movimento criativo. Do ponto de vista cinza e vazio do mundo caído, são apenas arranhões e rabiscos na areia, mas, à luz da eternidade, tornam-se o ensejo para a revelação divina. O que mais poderíamos esperar, e, uma vez tendo visto esta nova possibilidade, como poderíamos nos conformar com menos?

Michael Card
em seu livro Cristo e Criatividade

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