Em João 4, no encontro entre Jesus e a mulher samaritana, há um vislumbre da adoração que poucos observam: o componente do conflito. Jesus expõe a natureza da adoração a uma mulher obscura num poço qualquer da vida – isso se parece com o que achamos ser a adoração? 

Achismos à parte, adoração é encontro. É o Supremo que vem, com a interrogação que busca conteúdo. Eu e Deus. William Temple definiu a adoração assim: “A adoração é a submissão de toda a nossa natureza a Deus. É a vivificação da consciência mediante Sua santidade, o nutrir da mente com Sua verdade, a purificação da imaginação por Sua beleza, o abrir do coração ao Seu amor e a entrega da vontade ao Seu propósito”. 

A verdadeira adoração precisa estar centrada em Cristo. Em Lucas 2. 25-30, Simeão, ao apresentar Jesus no Templo, dá um brado: “Despede teu servo em paz, pois os meus olhos já viram a tua salvação”. O que Simeão está dizendo é a base de uma teologia da adoração: quando os meus olhos se fixarem em Jesus não precisarão ver mais nada! A visão de Jesus relativiza todas as outras coisas. Minha retina fica marcada para adorar.

Vamos refletir sobre alguns aspectos da adoração como encontro com Deus: 

1. A síndrome da mulher samaritana: “Jerusalém ou Gerizim?” 

Mais do que lugares, geografias demarcadas, era um jeito estabelecido de adorar – o império do tecnicismo – o reino cansado da previsibilidade blindada. A morte das surpresas. Aqui adoramos de um jeito, ali de outro. Profissionais do culto. 

Muita gente ainda é escrava da adoração das geografias: certos templos, certos lugares, certos montes... Outros são escravos da judaização da igreja: só adoram se a estrela de Davi estiver tatuada na testa! 

Elienai Jr. escreveu algo sobre esse texto. O escritor criou a seguinte fala, como se fosse o anseio do coração daquela mulher: 

“Fala de Deus, poeta. Baldeia também o divino de outro poço, profeta. Porque tal como esta água, o que de Deus eu sei me angustia mais do que sacia. Os samaritanos falam de um que é mais Deus em nosso templo do que naquele de Jerusalém. Deus é só isso? Dos judeus ou dos samaritanos? De Jerusalém ou de Gerizim? Do templo que não me quer, ou que não me cabe? Dos homens e suas vaidades másculas e truculentas? Reinventa, poeta. Redescreve, profeta”. 

A mulher samaritana não era leiga em matéria da teologia de seu povo. Ela tinha religiosidade em lugar de espiritualidade: “este é o poço do qual bebeu nosso pai Jacó”. Ela conhecia a história de seu povo, mas não o Deus de todos os povos. Ainda temos a mentalidade das fórmulas mágicas – o abracadabra gospel. O poço, a aliança ungida, a água santa, o óleo poderoso. Coisas sem Deus. Animismo gospel. 

Quando a mulher samaritana soube da “água da vida” imediatamente a solicitou. Isso aponta para a motivação oculta naquela “conversão” tão rápida: a busca por uma “água mágica”, que a fizesse sumir socialmente. Uma água que a poupasse de precisar novamente buscá-la todos os dias, encontrando com as outras mulheres e seus olhares furtivos. É como muita gente que habita a periferia das igrejas. Gente oculta no culto. 

Muita gente procura viver uma adoração da fuga social, ou pior, do isolamento, da quebra da comunhão. É gente que não suporta a igreja e suas deformidades, então, isola-se na “adoração virtual”, ou na “adoração solitária”. Adoração genuína acontece na dimensão da solitude (não, solidão), mas desemboca na comunhão da igreja. A mulher sai do poço e vai dar testemunho na cidade! 

2. Um texto, duas posturas 

O texto fala-nos de forma extraordinária sobre a adoração. Intrigante é que está em voga a postura do adorador. Na verdade, o texto nos leva na estrada da conversão e da adoração. 

Há duas posturas que devem ser evitadas: 

1. Ficar aquém de Jesus: É receber a mulher sem sequer tocar em seu estilo de vida. É a adoração da acomodação a um momento, evento ou esquema religioso. O adorador de verdade sabe que é pecador, carente da graça, e precisa da cura de sua alma. Sabe que o Espírito Santo antes de consolar, confronta! 

2. Ir além de Jesus: É forçar aquela mulher a se judaizar! Não vemos Jesus forçando-a a assumir uma postura judaica. Jesus não a discrimina por ser de outro povo. A adoração sara a cultura, pois não é escrava de cultura alguma. Não precisamos cantar em hebraico para que o louvor seja mais santo! Jesus a mandou de volta para a sua cidade, e não para Israel! 

A pergunta que surge imediatamente é: qual, então, é a postura do adorador? O texto também a revela: João 4. 23, 24: “os verdadeiros adoradores”. Esses são os que adoram ao Pai “em espírito e em verdade”. Note que o texto não diz que o Pai procura adoração, mas adoradores! Por quê? 

Porque o Pai já tem a mais plena, linda e perfeita adoração. Isaías 6. 1-3, os Serafins estão adorando de uma maneira que nenhum de nós é capaz de alcançar. Deus não procura adoração, pois já a possui. Deus procura adorador, pois ao encontrá-lo, o Pai dá de sua adoração ao adorador e, então, ele a devolve ao Pai, e cumpre-se Romanos 11. 36: “Pois dele, por ele, e para ele são todas as coisas”. 

A postura do adorador é “em espírito e em verdade”: ou seja, Deus é espírito (Jo. 4. 24), e não pode mentir (Tito 1.2) – o adorador é aquele que está mergulhado em Deus, vive para Deus, tem fome e sede de Deus e respira para a glória de Deus (At. 17. 28). 

Adoração é encontro com Deus, comigo mesmo e com os outros. Até mais... 


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