Prover à sociedade moderna uma forma hedonista de religião, centrada na experiência prazerosa do divino? 

Seria essa a nossa finalidade? Apresentar ao homem contemporâneo o “deus dos seus sonhos”, um alívio de fim de semana, customizado e com garantia de devolução? Em meio a toda essa movimentação religiosa, não temos nada de singular e essencial a oferecer, do ponto de vista da relevância histórica? 

Essa pergunta nos leva aos nossos conceitos sobre a natureza do evangelho e da missão da igreja. Nós “crentes”, tipicamente aceitamos que o reino de Deus por fim encherá toda a terra, e que isso se fará de um modo sobrenatural. Por isso damos toda a ênfase à pregação do evangelho, à oração e à evangelização. Quanto ao restante da vida — a arte, a universidade, a política etc. — “bem, não precisamos nos envolver diretamente com essas coisas. Afinal, a fé diz respeito às coisas ‘espirituais’, a nossa luta é ‘espiritual’ e o reino de Deus é ‘espiritual’.” Quem já não ouviu algo parecido? 

Essa compreensão do evangelho, no entanto, é extremamente deficitária. Ela não faz justiça à visão bíblica da criação, como algo bom; nem à visão bíblica da unidade do homem, que exige que toda a sua vida seja expressão de seu relacionamento com Deus. Não faz justiça ao ensino bíblico sobre o mandato cultural, que nos foi dado muito antes que a Grande Comissão. Ela reconhece os efeitos do pecado em todas as áreas da vida, mas parece ignorar o alcance cósmico da redenção. Ela desiste de fazer tudo para a glória de Deus (1 Co 10.31) e se contenta com cânticos de louvor. Em vez de procurar a renovação da mente (Rm 12.2), para amar a Deus também com o entendimento (Mt 22.37-38), conforma-se com o mundo — o mundo da televisão ou, para os mais sofisticados, o mundo da última moda filosófica. Essa compreensão deficitária do evangelho não dá respostas relevantes para os desafios do mundo contemporâneo e é capaz de conviver pacificamente com as maiores injustiças. Ela não ajuda o incrédulo a ver por que, afinal de contas, o cristianismo é singular em meio a toda essa efervescência religiosa. 

Não é ruim estar à margem. Jesus sempre viveu à margem do império. Mas a sua pregação não era marginal; era nada menos que vinda do reino de Deus. Se somos marginais porque não estamos nos centros de poder da sociedade moderna, então está bem. Mas se somos marginais porque nossa mensagem não é fundamental, e não atinge o homem essencialmente, então tudo está errado. Se a nossa forma de espiritualidade é periférica, porque se adapta ao hedonismo moderno, sem ferir o coração da sociedade moderna, então já estamos caídos. 

O evangelho diz respeito a nada menos que todas as coisas (Cl 1.16-20), e a missão da igreja diz respeito a nada menos que todas as coisas. Buscar o reino de Deus em primeiro lugar nos garante o acréscimo de todas as coisas, porque todas elas são importantes (Mt 6.33). Sendo assim, a missão da igreja não pode ser somente a de salvar almas ou de transformar vidas individuais; deve ser muito mais abrangente do que isso. 

O reino de Deus, que é revelado na pessoa de Jesus Cristo, deve se manifestar em cada aspecto da vida de um “cidadão” do reino. Na vida devocional, na comunhão, no trabalho, no mercado público, na escola, na universidade, no lazer, na família. 

Ou, como ensinou Abraham Kuyper, um dos “pais” do movimento de cosmovisão cristã, 

Onde quer que o homem esteja, seja o que for que faça, ou no que aplique sua mão, na agricultura, no comércio, na indústria, ou sua mente, no mundo da arte, e ciência, ele está, seja onde for, constantemente diante da face de Deus, está empregado no serviço de Deus, deve obedecer estritamente a seu Deus e acima de tudo, deve ter como alvo a glória de Deus. 

Ou seja, o cristão deve ser alguém com uma mentalidade diferente, cuja postura diante da vida difere, em toda a sua extensão, daquele que não tem a mente de Cristo. Se não for assim, então o cristianismo não será algo realmente fundamental. Mas, na verdade, é assim. Quando essa verdade foi crida e vivida pela igreja, a história mudou; quando é crida e vivida por um cristão, a sua história muda. E quando a igreja se esquece disso, degenera-se em um exercício místico impotente. É precisamente ali, naqueles momentos em que a igreja se encontrou com a história, que precisamos voltar para aprender. 

Claúdio Leite e Fernando Leite no livro Cosmovisão Cristã e Transformação via

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