Lutero não superou o mau uso das instruções morais de Jesus, que na Igreja de Roma demonstrara sua força completa e letal. Ele também tomava por certo que o cristão é obrigado, pelo menos, a obedecer cada palavra de Jesus que chegou até nós e não foi expressamente endereçada a um indivíduo em particular, sem considerar se a exigência que ela contém diz realmente respeito a ele mesmo em sua presente circunstância. 

Uma obediência dessa natureza é, no entanto, um monstruoso mau uso das palavras de Jesus, e para um cristianismo cujo alvo é habitar o mundo, ela acaba não deixando qualquer escolha além da divisão entre clérigos e leigos, para detrimento moral de ambas as partes. Porém, mesmo que o resultado desse uso das suas palavras fosse a mencionada divisão, não teríamos direito de chamá-lo de abuso se o próprio Jesus demonstrasse tencionar que todos os homens obedecessem cegamente as suas palavras, mesmo sem apreender a verdade que elas contém. 

Se tratadas meramente como padrões a serem copiados, as palavras de Jesus separam os homens da verdade, e portanto de Cristo. 

Sem dúvida Jesus fez exigências para as quais ele esperava, de todos os seus discípulos, obediência incondicional. Porém ele jamais exigiu que alguém cumprisse suas palavras cegamente e precipitadamente, sem compreendê-las. Em cada caso ele pedia mais do que isso; não meramente submissão, mas a obediência interior de um agente livre. Suas palavras aplicam-se aos que realmente as aceitam, e essa verdadeira aceitação elas conquistam estimulando a tendência à independência que é inerente à vontade. 

No coração de cristãos individuais o poder espiritual de Jesus há muito tem suprido o que faltou na ação de Lutero sobre a igreja – isto é, o discernimento moral de que podemos reconhecer Jesus como nosso líder e ao mesmo tempo perceber a iluminadora verdade de palavras que, se tratadas como padrões a serem copiados perfeitamente, separam os homens da verdade, e portanto de Cristo. Uma única palavra de Cristo é capaz de despertar essa compreensão; porém nenhuma palavra específica, nem a soma de todas as suas palavras, é capaz de nos fazer perceber a verdade que há nelas. Isso só pode acontecer se buscamos o próprio Jesus – e por isso não estou querendo dizer nada fantasioso, mas a simples tentativa de compreender a mente da qual procediam essas palavras maravilhosas e terríveis, porém graciosas. 

As palavras de Jesus podem ser tabuladas, mas não suas idéias morais; essas só podem ser apreendidas quando as reconhecemos como o resultado de uma Vontade que nada tem de arbitrário, mas é uma mente em paz com a eternidade. 

Adolf Harnack, em Ensaios sobre o Evangelho Social (1907) via

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