“Vocês ouviram o que foi dito. Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, lhes digo: não resistam ao mal”. (Mateus 5:38-39)

Um belo dia me ocorreu o significado exato e simples dessas palavras; compreendi o que Jesus queria dizer, nem mais nem menos do que disse. O que vi não era novo; só caiu o véu que escondia a verdade de mim, e a verdade me foi revelada em toda sua grandeza: “vocês ouviram o que foi dito. Olho por olho, dente por dente. Eu, porém lhes digo: não resistam ao mal.”

De repente, tive a impressão de que nunca havia lido essa frase. Antes, por estranho que pareça, sempre que lia esta passagem, eu deixava certas palavras me escaparem, “Eu, porém, lhes digo: não resistam ao mal”. Para mim, era como se as palavras que acabei de citar nunca tivessem existido, ou nunca tivessem possuído um significado definido. Mais tarde, ao falar com muitos cristãos versados no Evangelho, notei muitas vezes a mesma cegueira em relação a essas palavras. Ninguém se recordava delas e, frequentemente, ao falar dessa passagem, os cristãos abriam os Evangelhos para verificar com os próprios olhos se elas estavam realmente lá. Por causa de uma omissão similar dessas palavras, deixei de compreender o trecho que se segue: “Ao contrário, se alguém os esbofetear na face direita, ofereçam-lhe a outra também”, etc. (Mateus 5:39 e seguintes)

Tive a impressão de que todas essas palavras exigiam um longo sofrimento e uma longa privação, ambos contrários à natureza humana. Mas elas me tocaram; senti que seria nobre segui-las, mas também senti que não tinha força para pô-las em prática. Disse para mim mesmo: “Se eu virar a outra face, vou receber outro golpe; se eu der tudo o que tenho, tudo o que tenho me será tirado. A vida seria uma impossibilidade. Posto que a vida me foi dada, por que eu me privaria dela?”.

“Jesus não pode exigir-me tanto”. Era o que eu pensava, persuadido de que Jesus, ao exaltar longo sofrimento e privações, usou termos exagerados que careciam de clareza e precisão; mas, quando compreendi as palavras “Não resistam ao mal”, percebi que Jesus não exagerava, que ele não exigia sofrimento por gostar de nos ver sofrer, e sim que ele tinha formulado com grande clareza e precisão exatamente o que desejava dizer.

“Não resistam ao mal”, sabendo que vocês vão encontrar aqueles que, depois de baterem em uma de suas faces e não tiverem encontrado resistência, vão bater na outra; aqueles que, depois de lhes tirar a blusa, vão lhes tirar o manto; aqueles que, depois de lucrar com seu trabalho, vão forçá-los a trabalhar ainda mais sem o devido pagamento. Mas, mesmo que tudo isso aconteça, “Não resistam ao mal”;façam o bem àqueles que os prejudicam. Quando compreendi essas palavras como elas estão escritas, tudo o que era obscuro se tornou claro para mim, e o que tinha parecido exagerado passei a considerar perfeitamente razoável. Pela primeira vez apreendi a ideia central das palavras “Não resistam ao mal”; vi que o que se seguia era apenas um corolário desse mandamento; vi que Jesus não nos aconselhava a virar a outra face porque temos de sofrer; seu conselho era: “Não resistam ao mal” e, logo depois, declarou que a prática desse mandamento poderia implicar sofrimento.

Um pai, quando seu filho se prepara para fazer uma longa viagem, aconselha-o a não se demorar pelo caminho; ele não diz ao filho para passar as noites ao relento, ou se privar de comida, nem a se expor à chuva e ao frio. Ele não diz: “Segue seu caminho, e não demore, mesmo que passe frio ou fique molhado”. Jesus também não diz: “Vire a outra face e sofra”. Ele diz: “Não resistam ao mal”; aconteça o que acontecer, “Não resistam”.

Essas palavras “Não resistam ao mal”, quando compreendi seu significado, foram a chave que abriu todo o resto. Então fiquei espantado de não ter compreendido termos tão claros e preciosos:“Vocês ouviram o que foi dito. Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, lhes digo: não resistam ao mal”.

Qualquer que seja a injúria que um homem perverso lhe infligir, suporte-a, dê a ele tudo o que você tem, mas não resista. Poderia algo ser mais claro, mais definido, mais inteligível do que isto? Só tive de apreender o significado simples e exato destas palavras, exatamente como elas foram ditas, para que toda a doutrina de Jesus, não só aquela apresentada no Sermão da Montanha, mas em todos os Evangelhos, se tornasse clara para mim; o que me parecia contraditório, agora era indispensável. Todas as partes entravam em equilíbrio e de acordo umas com as outras, todas encontravam seu lugar próprio, como os fragmentos de uma estátua partida quando montados de acordo com o projeto do escultor. Por toda a parte, no Sermão da Montanha, assim como ao longo de todo o Evangelho, encontrei a afirmação da mesma doutrina, “Não resistam ao mal”.

No Sermão da Montanha, assim como em muitos outros lugares, Jesus mostra a seus discípulos, aqueles que observam o mandamento de não resistir ao mal, como virar a outra face, entregar o manto, suportar perseguições, maus tratos e insultos, e pobreza. Em toda parte Jesus diz que aquele que não tomar sua cruz, aquele que não renunciar às vantagens mundanas, aquele que não estiver pronto a suportar todas as consequências de seu mandamento: “Não resistam ao mal”, não pode se tornar seu discípulo.

A seus discípulos Jesus diz: “Escolham a pobreza; suportem todas as coisas sem resistir ao mal, mesmo que isso lhes traga perseguição, sofrimento e morte”.

Preparado para sofrer a morte em vez de resistir ao mal, Jesus censurou o ressentimento de Pedro e morreu aconselhando seus seguidores a não resistir ao mal e a permanecer sempre fiéis à sua doutrina. Os primeiros discípulos observaram essa regra e passaram a vida na miséria e na perseguição, sem retribuir o mal com o mal.

Parece, portanto, que Jesus queria dizer precisamente o que disse. Podemos declarar que a prática de tal regra é muito difícil; podemos negar que aquele que a segue vai achar a felicidade; podemos dizer, como dizem todos os que não creem em suas palavras, que Jesus era um sonhador, um idealista que propunha máximas impraticáveis; mas é impossível não reconhecer que expressou de modo claro e preciso o que desejava dizer, ou seja, que, de acordo com sua doutrina, o homem não deve resistir ao mal, e consequentemente, aquele que abraçar sua doutrina não vai resistir ao mal. No entanto, nem quem crê, nem quem não crê admite esta interpretação simples e clara das palavras de Jesus.

Trecho do livro Minhas Religião, de Liev Tolstói. via: rennovario

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