Leonard Zelig é a quintessência do nebbish (palavra iídiche para nerd). No hilariante e provocador filme Zelig, de Woody Allen, Leonard é uma pessoa sem identidade que se encaixa em qualquer lugar porque, na verdade, muda de personalidade a cada nova situação. Ele desfila numa parada sob as serpentinas atiradas dos prédios, fica em pé entre os presidentes americanos Herbert Hoover e Calvin Coolidge, faz palhaçadas com o boxeador Jack Dempsey e conversa sobre teatro com o dramaturgo Eugene O'Neill. Durante um comício de Hitler para seus partidários, em Nuremberg, Leonard está lá, bem na plataforma do orador. 

Ele não tem personalidade própria, assim, assume as personalidades fortes com que se encontra, quaisquer que sejam. Com os chineses, ele é chinês desde pequeno. Com os rabinos, miraculosamente crescem-lhe a barba e os cachos ao lado do rosto. Com psiquiatras, macaqueia o jargão, pondo a mão no queixo com solene ar de sabedoria. No Vaticano, faz parte do séquito clerical do papa. Nos treinos da primavera usa o uniforme dos Yankees e fica a postos para rebater depois de Babe Ruth. Ele assume a pele negra de um trompetista de jazz, a banha de um gorducho, o perfil de um índio Mohawk. E um camaleão. Muda a cor, o sotaque, a forma de acordo com a mudança do mundo que o cerca. Não tem idéias ou opiniões próprias; ele simplesmente se conforma. Quer apenas estar seguro, se encaixar, ser aceito, ser apreciado... Ele é famoso sendo um joão-ninguém, um sem-personalidade. 

Poderia descartar a caricatura dos que querem agradar a outros, não fosse por encontrar tanto de Leonard Zelig em mim mesmo. Esta postura afetada de meus desejos egocêntricos usa milhares de máscaras. Minha imagem resplandecente precisa ser preservada a qualquer custo. Meu impostor treme com a possibilidade de se sujeitar ao desprazer e à ira dos outros. Incapaz de um discurso direto, ergue um muro, fala demais sem ter nada a dizer, procrastina e permanece quieto por conta do medo da rejeição. Como James Masterson escreveu em The search for the real self: 

O falso eu desempenha seu papel ilusório, protegendo-nos ostensivamente mas o faz de um jeito programado para manter nosso medo de sermos abandonados, de perdermos o apoio, tornando-nos incapazes de enfrentar as coisas por nós mesmos, sendo incapazes de ficar sozinhos. 

O impostor vive com medo. Durante anos me vangloriei por ser pontual. Mas no silêncio e na solitude, descobri que meu desempenho previsível estava enraizado no medo da desaprovação humana. 

Os impostores se preocupam com a aceitação e a aprovação. Por causa da sufocante necessidade de agradar outros, não conseguem dizer não com a mesma confiança que dizem sim. Por isso fazem das pessoas, dos projetos e das causas uma extensão de si mesmos, motivados não pelo comprometimento pessoal, mas pelo medo de não atingir as expectativas dos outros. 

O impostor é o co-dependente clássico. Para alcançar aceitação e aprovação, o falso eu suprime, ou camufla, sentimentos, impossibilitando a honestidade emocional. Viver a partir do falso eu gera um desejo compulsivo de apresentar uma imagem perfeita para o público, de forma que todos nos admirem e ninguém nos conheça. A vida do impostor se transforma numa montanha russa de exultação e depressão. 

O falso eu se vale de experiências externas para construir uma fonte pessoal de significado. A busca por dinheiro, poder, glamour, proezas sexuais, reconhecimento e status realça o mérito pessoal e cria a ilusão de sucesso. O impostor é o que ele faz. 

O impostor nos predispõe a valorizar o que não tem importância, revestindo com falso brilho o que é minimamente substancial e nos desviando do que é real. O falso eu nos faz viver num mundo de ilusões. O impostor é um mentiroso. 

Nosso falso eu, cega obstinadamente cada um de nós para a luz e a verdade do próprio vazio. Não conseguimos reconhecer a escuridão interior. Ao contrário, o impostor proclama a escuridão como a luz mais intensa, envernizando a verdade e distorcendo a realidade. Isso me traz à mente as palavras do apóstolo João: "Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós" (1Jo 1:8; nvi). 

Suplicando a aprovação negada na infância, o falso eu vacila, a cada dia, com a instabilidade de um apetite insaciável por afirmação. Com minha fachada de papelão intacta, entro numa sala lotada, precedido por uma trombeta com surdina: "Aqui estou eu", enquanto o eu verdadeiro, escondido com Cristo em Deus, exclama: "Ah, aí está você!". O impostor assemelha-se, evidentemente, ao efeito que o álcool representa para o alcoólatra. Ele é sagaz, desconcertante e poderoso. Ele é traiçoeiro. 

Filme genial e trecho do livro 
“O impostor que vive em mim” 
Brennan Manning

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