“Pode enriquecer-se através de um ofício que não lhe agrada, pode ser curado de uma doença por remédio nos quais não confia; mas não pode ser salvo mediante religião na qual não confia, ou por um culto que não lhe agrada [...] Seja qual for a religião discutida, é certo, porém, que nenhuma religião pode ser útil e verdadeira se não se acredita nela como verdadeira”. John Locke, “Carta acerca da Tolerância”

É um lugar-comum ouvir pessoas afirmando que religião, como futebol, não é bom assunto para discussão, mas quem há escape de cair vez por outra nesse “pecado”? Como é do meu ofício, eu costumo refutar esse lugar-comum com muitos exemplos e argumentos, mas é claro que ele tem um fundo de verdade.

Não tanto quanto ao futebol, mas com certeza quanto à religião. Pois religião tem que ver com coisas sagradas. Sim, muita gente não discute religião porque considera isso uma questão de absoluta subjetividade; mas para muita gente a motivação é bem outra: é que a religião é vista como algo de absoluta sacralidade.

Nessa semana conversei rapidamente com uma moça que se mostrou extremamente avessa à religião. Entramos no assunto por acaso, mas ela logo fez questão de anunciar seu desgosto com igrejas, leis, pastores, ritos, etc. Então eu perguntei sobre Deus: e ela disse: “às vezes estou bem com ele, às vezes nem quero saber. Atualmente estou na fase de não querer saber”.

Típico: aquela atitude para com a religião que reproduz a atitude com biscoitos. Num dia você lamenta não ter biscoitos no armário; no outro, tem enjôo só de pensar.

Imediatamente eu repliquei: “sim, nossa relação com certas coisas é naturalmente desengajada, utilitária. Podemos decidir se vamos passear ou ficar em casa no feriado. Podemos experimentar suco de uva ou suco de laranja. Mas tem coisa que não dá para experimentar assim, desinteressadamente. Não há como experimentar o que significa ter filhos adolescentes hoje e ‘desesperimentar’ amanhã. Se você entrar num casamento, e tiver filhos, e cuidar deles até à adolescência, ‘it’s done’. Sua vida está feita. Sua flecha foi lançada. Acabou”.

A moça me levou a sério. Ficou de pensar no assunto.

Então, até quando ouvimos essa resposta, “religião não se discute”, temos excelente material de discussão: por quê discutimos com facilidade certas coisas, e não outras?

A verdade é que a religião, no sentido daquilo que é momentoso, supremo, que é a fonte absoluta de sentido para o todo da vida, é algo tão sagrado, tão intocável, e ao mesmo tempo tão frágil, que não podemos nos aproximar dela de qualquer jeito. Não é questão de gosto.

Em particular, entrar em um relacionamento com Deus – ou não entrar – não é algo que pode ser experimentado levianamente, como se prova frutas em um sacolão. Somente depois de mergulhar num relacionamento que compromete cada fio do seu cabelo (como é o caso, se falamos de Deus) é que o homem compreende plenamente o que fez, e reconhece em si mesmo todos os efeitos de sua escolha.

Apesar de não ser o foco de John Locke em sua “Carta Acerca da Tolerância”, cujo tema mais amplo é a liberdade de culto em os limites do poder do Estado, tive muito prazer em recolher da fazenda de Locke este pequeno fruto, tão óbvio por um lado, mas tão ignorado por outro.

Muita gente frequenta igreja e não “sente nada”, e não vê “nada mudar”, porque nunca deu realmente aquele passo gravíssimo, que só pode ser dado em silêncio e de mãos postas: muita gente “experimenta” Deus e não vê nada acontecer em sua vida exatamente por isso: porque insiste em se aproximar do evangelho como quem entra em um provador de loja de roupas.

Mais do que todas as coisas na vida, Deus e a verdade cristã só são compreendidos no útero da fé. O cristianismo é uma terapia que nos transforma permanentemente depois que nos submetemos a ela, não dá para entrar e sair da terapia quando se bem entende. Nesse sentido, religião não se discute – aquilo no qual colocamos a nossa confiança de forma absoluta não se sujeita a “exame objetivo”.

Isso explica também porque as pessoas são frequentemente tão dogmáticas em assuntos de fé, e não tem com a religião a mesma atitude que tem com a ciência. Muita gente com formação científica não consegue entender isso jeito nenhum; mas eu descobri que em boa parte das vezes, o estudante de ciências padece de uma combinação de falta de experiência de vida com pura falta de imaginação. Por incrível que pareça, muita gente educada, diplomada, universitária, etc., tem personalidade de esteta. Não tem a mais vaga idéia do que significa estar absolutamente comprometido com pessoas (com teorias e programas de pesquisa, talvez).

E o pior tipo de esteta é o esteta teológico, especialmente aqueles que a gente encontra em seminário teológico evangélico (e também na blogosfera, onde ocorre hoje uma infestação desses teólogos sem púlpito). Fui professor por alguns anos em uma faculdade teológica e encontrei isso bastante, por lá. Gente que compara correntes teológicas como compara catálogos de preços. Em certa ocasião, fui exortado por alunos (e depois, por professores), a apresentar diversas linhas teológicas sem me posiconar. E diziam que faziam teologia…

Teologia é terapia. É momentoso, grave e arriscado. Tente pegar uma infecção e depois trocar de antibióticos no meio do caminho, interrompendo e retomando o tratamento quando bem entender. Quem não faz teologia confessional é suicida. E quem ensina que religião e teologia é coisa que se decide “objetivamente”, na base do cálculo racional, sem discipulado, tradição e compromisso comunitário, comete grave erro médico. Um conselho: se quiser viver, fique longe desses “profissionais”. Ou, pelo menos, de suas técnicas teológicas.

Há céticos que são convencidos pelo argumento. Mas eu estou convencido de outra coisa: a maior necessidade de muitos céticos educados – assim como a de muitos cristãos sarcásticos e cerebrais – é nem tanto de um bom argumento apologético, mas de um casamento, e de uma penca de filhos; ou de uma enfermidade que os torne dependentes de familiares, médicos e tratamentos incertos; de alguma coisa, enfim, que os lembre do significado da palavra “confiança”.

E não será pela mesma razão que tanta gente hoje nem quer mais saber de relacionamentos sérios? Ninguém confia em ninguém na sociedade de hiperconsumo.

Bons tempos aqueles, quando as pessoas temiam discutir religião porque tinham fé, e não por medo de serem processadas por preconceito!

Bons tempos aqueles, quando as pessoas discutiam teologia porque desejavam encontrar o caminho certo, e não para ridicularizar quem ainda acredita que ele existe!


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