Como se sente a atriz depois que as cortinas descem sobre o palco e ela vai para o camarim? Como o sacerdote lida com a vontade de chorar depois que se despe das vestes clericais? Sem farda, sobra alguma ternura para o general abraçar o filho? Depois do fim do casamento, o filósofo se angustia por ter sido chamado de intolerável?

Sem as distrações sociais, a existência esperneia nos desejos onipotentes e nos anseios de infinitude. O anelo de ser se projeta sobre a vida. Sem coragem para encarar a precariedade da existência, alguns desmoronam outros se escondem. Se o dever social se torna maior do que as demandas do coração, a alma sofre. Quando o imperativo de continuar se agiganta, os espaços onde se consegue respirar encolhem. Assim, em nossos olhos fundos guardamos tanta dor, “a dor de todo este mundo”.

Só longe do olhar dos admiradores, a atriz é livre? Só na solidão, o sacerdote sorri feliz? Só desnudo das divisas, o general consegue ouvir Bach? Só alheio ao rigor acadêmico, o filósofo se depara consigo mesmo? Só na alcova, o sacerdote conversa com a própria alma? Os imperativos que nos são impostos têm força de nos esconder da vida verdadeira. Depois de desempenhar todos os roteiros, ficamos com a impressão de que a sina humana se reduz a zumbir em torno da chama de uma vela que logo se apagará

Sobranceira, senhora de si, mas sempre surpreendentemente paradoxal, a humanidade permanece a mais fulgurante jóia do universo. Jóia que nunca perdeu a capacidade de assombrar com maldade. Entre grandeza e mesquinhez, homens e mulheres vivem o conflito de conviver com o infinito e com a precariedade de desaparecer numa batida de coração. Ao mesmo tempo sobranceiros e baixos, as pessoas precisam criar personagens. Para continuarem altivas, usam máscaras. É preciso fingir as lágrimas. Corretas, munem-se de brochas – todos preparados para caiar o sepulcro que os receberá.

A vida acontece na nesga espremida entre o público e o privado. Ali, entre palco e bastidor, entre púlpito e sacristia, esgueiramo-nos para dar algum sentido a esta breve e sofrida existência. No trânsito entre esferas tão distintas, ansiamos por uma chance de distinguir boa intenção de dissimulação. Quem sabe, no movimento entre o secreto e o aberto, saberemos o momento em que o ódio procura passar por defesa da justiça, como a inveja se traveste de elogio ou quando a covardia se fantasia de prudência.

Esperança pode brotar tanto de ações luminosas como de movimentos anônimos. A atriz e a mulher, o sacerdote e o homem, o general e o cidadão, o filósofo e o marido precisam trombar um com o outro. Talvez descubramos o segredo de viver se as nossas personagens não nos asfixiarem.

Soli Deo Gloria

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