A cerca de um ano, adquiri o livro Oração: Cartas a Malcolm de C. S. Lewis. Essa obra é o conjunto de várias cartas escritas pelo autor de Nárnia para um amigo bem chegado. Por mais de uma vez comecei a leitura porém, por diversos motivos, ainda não consegui terminá-la. Um fato a ser destacado é que, por se tratar de cartas, ao ler o texto sinto como se Lewis falasse diretamente a mim. Na última madrugada decidi dividir com vocês um trecho bastante interessante desse prazeroso livro:

“Qual dever ser o grau de importância de uma necessidade ou desejo para que se torne objeto adequado de súplica?”. Adequado, pelo que pude entende, significa “em que não há irreverência” ou “em que não há tolice”, ou ambas as coisas.

Depois de pensar um pouco a respeito, pareceu-me haver aí, na verdade, duas questões.

1. Qual deve ser a importância de determinado objeto para nós antes que possamos, sem pecado e desvario, permitir que nosso desejo por ele se torne motivo de preocupação séria para nós? Eis uma indagação a respeito de algo que, nos escritores antigos, se dá o nome de “estrutura”, isto é, nossa “estrutura mental” .

2. Em face da existência de tal ordem de preocupação em nossa mente, será possível apresentá-la de modo adequado diante de Deus em oração?

Sabemos, em teoria, a resposta à primeira questão. Cabe-nos prosseguir em direção ao que Santo Agostinho (se não me engano) chama de “ordem do amor”. Nossa preocupação maior deve ser com as coisas primeiras; em seguida, com as coisas segundas e assim por diante até o zero – ou ausência total de preocupação com coisas que, na verdade não são realmente boas, ou que não tem como objetivo o bem de forma alguma.

Enquanto isso, não queremos saber como orar se fôssemos perfeitos, mas como devemos orar sendo o que somos hoje. Se minha ideia de oração como “desvelamento” for aceita, já temos a resposta a isso. De nada vale pedir a Deus com ardor superficial por A quando toda a nossa mente está, na verdade, repleta de desejo por B. Temos de aprender diante dele o que dentro de nós, não o que deveria haver.

Até um amigo íntimo será ultrajado se conversamos com ele sobre um determinado assunto quando nossa mente está, de fato, pensando em outra coisa. Nosso amigo humano logo se dará conta do que estamos fazendo. Você mesmo veio me visitar faz alguns anos quando sofri um rude golpe. Tentei conversar com você como se não houvesse nada de errado. Bastaram cinco minutos para você perceber o que se passava. Então, confessei a a verdade. Você me disse coisas em seguida que me deixaram envergonhado pela tentativa de ocultar os fatos.

Pode até ser que o desejo seja apresentado diante de Deus apenas como pecado do qual nos devamos arrepender, mas uma das melhores maneiras de aprendermos a fazê-lo consiste em apresentá-lo diante de Deus. O seu problema, contudo, nada tinha com desejos pecaminosos nesse sentido; pelo contrário, dizia respeito a desejos inocentes em essência, e com o pecar, se é que tal ocorreu, apenas por ser mais forte do que permite a trivialidade do objeto desses desejos. Não tenho dúvida alguma de que, se tais desejos forem o objeto de nossos pensamentos, devem ser objeto de nossas orações – quer de arrependimento, quer de súplica, ou um pouco das duas coisas arrependimento pelo excesso e súplica pela coisa desejada.

Se as excluirmos forçosamente, não acabam por estragar o restante de nossas orações? Se pusermos todas as cartas sobre a mesa, Deus nos ajudará a moderar os excessos. Contudo a pressão que exercem as coisas que estamos tentando manter fora de nossa mente torna-se uma distração terrível. Como alguém disse: “Não há barulho mais evidente do que aquele que tentamos não ouvir”.

A ordenação da estrutura mental é uma benção pela qual devemos orar, não uma roupa elegante que vestimos quando oramos.

Talvez, como aqueles que não se voltam para Deus durante as provações mais agudas não tem o hábito ou tal recurso para ajudá-los quando sobrevêm as grandes provações, de igual modo os que não aprendem a Lhe pedir coisas ingênuas não saibam pedir prontamente coisas maiores. Não nos devemos consideram magnânimos em excesso. Creio que, às vezes, sentimo-nos desestimulados de pedir coisas pequenas movidos por um sentimento de dignidade própria, em vez de fiarmos na dignidade divina.

C. S. Lewis - via: rennovario

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