A análise que acabamos de efetuar, no entanto, não chega nem a tocar o cerne da divisão entre cristianismo e liberalismo econômico. Em última análise, O cristianismo está fundamentado na graça, o capitalismo está fundamentado em mérito e crédito.

O conflito entre cristianismo e neoliberalismo é o conflito entre cristianismo e paganismo.

O liberalismo econômico deve ser entendido como uma religião1. Em particular, o neoliberalismo é melhor entendido como uma religião imposta pelos principados e potestades mencionados por Paulo. A chave dessa interpretação do neoliberalismo é a frequente menção contemporânea à “mão invisível” do mercado, bem como a crença de que o mercado opera em “piloto automático” devido a uma “força natural” semelhante às demais forças da natureza.

Note a argumentação de N. T. Wright:

Quando um ser humano ou um grupo de seres humanos encontram-se totalmente sob o domínio de uma força alheia a eles mesmos, deve ser apropriado falar de “demônios”. A idolatria tem o poder de invocar, talvez até mesmo de chamar à existência, forças além do controle dos idólatras.

Semelhantemente, Jurgen Moltmann sustenta que o capitalismo, em sua evolução neoliberalismo adentro, tornou-se precisamente essa sorte de “força compulsiva quase-objetiva”2. Portanto, como observado por Richard Horsley, “o próprio secularismo que deveria supostamente proteger o pluralismo religioso e cultural serve agora também para velar a função religiosa do capitalismo de consumo”.Assim, a vida vivida dentro do neoliberalismo é vivida debaixo dos poderes e potestades (particularmente Mamon)3.

O cristianismo pressupõe a abundância, o capitalismo pressupõe a escassez.

Para ilustrar ainda mais o confronto religioso entre cristianismo e neoliberalismo é válido destacar as diferenças fundamentais entre suas doutrinas teológicas centrais. Para começar, o cristianismo é uma religião fundamentada na premissa da graça, enquanto que o capitalismo está fundamentado nas premissas de mérito e crédito. Para os cristãos, tudo é graça: a criação, a permanente subsistência da vida diária, a redenção e o reino de Deus, todos esses vem como presentes de Deus. Não apenas isso: a linguagem da graça é a linguagem da dádiva, e é ela que nos apresenta a um Deus que é, fundamentalmente, um doador, — a fim de que nós mesmos nos tornemos doadores e não simplesmente “recebedores ensimesmados”4.

Já o capitalismo em geral e o neoliberalismo em particular não deixam qualquer espaço para a dádiva5. É essa a visão de mundo que faz Thomas Malthus afirmar que a generosidade e a troca de presentes só fazem encorajar o ócio e o vício, e que o gasto indiscriminado é comparável à promiscuidade sexual6. O resultado disso é uma cultura “despida de graça”, onde uma pessoa recebe em conformidade com as suas habilidades e não em conformidade com as suas necessidades. Nesta cultura o crédito torna-se uma paródia da graça.

Essa diferença fundamental entre cristianismo e capitalismo gera diferentes visões de mundo. Enquanto o cristianismo afirma um mundo definido por abundância, o capitalismo afirma um mundo definido por escassez. Como está fundamento na premissa da graça e da dádiva, o cristianismo afirma um mundo pleno de abundância como sinal da “extravagante generosidade” de Deus. Embora a abundância deste mundo esteja desfigurada pela queda, a restauração da criação que vem através de Jesus renova a fertilidade da criação e restaura a abundância. Nesse sentido, Jesus vem para que tenhamos “vida abundante”, e essa abundância é amplamente demonstrada tanto no seu ministério quanto no testemunho da igreja no livro de Atos7.

O capitalismo, no entanto, está baseado na pressuposição da escassez; parte do princípio em que não há o suficiente para todos. Consequentemente, ao invés de manifestar abundância, o que o capitalismo produz é uma profusão de mercadorias que funcionam como uma paródia da abundância.

Essas fundações distintas e diferentes perspectivas de mundo fazem com que cristianismo e capitalismo desenvolvam diferentes doutrinas a respeito da liberdade. Para o cristianismo, a liberdade é entendida como libertação para o serviço, enquanto que para o capitalismo a liberdade é entendida como escolha em relação ao consumo. Para o cristianismo, liberdade é a libertação do poder de Pecado-e-Morte e da miríade de demais poderes espirituais e materiais que operam em serviço do Pecado-e-Morte. A libertação do Pecado-e-Morte, no entanto, está inseparavelmente ligada à liberdade para o serviço amoroso de Deus e do próximo; dessa forma, a liberdade cristã é revelada em obediência (isto é, obediência ao Senhor que nos libertou, e obediência que torna manifesta nossa condição de libertos). É por isso, portanto, que os mártires — na qualidade daqueles que foram inteiramente privados de escolha — acabam tornando-se as maiores testemunhas da liberdade cristã; é por isso também que o cristianismo é chamado para aproximar-se em solidariedade de outros movimentos que entendem liberdade como libertação de sistemas de opressão.

O capitalismo, em contraste, entende a liberdade de uma forma totalmente diversa. Num mundo de escassez, a liberdade torna-se a capacidade de consumir aquilo que se deseja, sem levar-se em consideração o desejo dos outros. Milton Friedman descreve liberdade nesses termos: “Cada homem pode votar, por assim dizer, na cor da gravata que quer, e obter o que quer; ele não é obrigado a ver a cor que quer a maioria e depois, se for a minoria, submeter-se”. Portanto “liberdade”, na perspectiva neoliberal, é entendida como ser livre de qualquer forma de governo que imponha restrições sobre as minhas opções de consumo. Essa noção de liberdade-como-escolha, no entanto, não conduz a qualquer forma genuína de liberdade ou libertação. 

Explica Jean Baudrillard:

O que a sociedade industrial sempre oferece-nos a priori, como uma espécie de graça coletiva e como emblema de liberdade formal, é “escolha”. Não temos sequer, de fato, a opção de não escolher. Nossa liberdade de escolha nos obriga a participar de um sistema cultural contra a própria vontade. Segue-se que a escolha em questão é de uma variedade enganosa: experimentá-la como liberdade é simplesmente ser menos sensível ao fato de que ela nos é imposta como tal, e que através dela a sociedade como um todo é da mesma forma imposta sobre nós. O importante sobre o fato de escolher é que a escolha acaba designando a você um lugar na ordem econômica como um todo.

Qual é o resultado disso? Uma sociedade em que a “uma liberdade de escolha sem paralelo” associa-se “um profundo sentimento de resignação”; uma sociedade em que se vive uma “existência dominada” sob um “sistema de dominação” durante uma “era da dominação”.

Esses diferentes entendimentos sobre a natureza da liberdade revelam também que cristianismo e capitalismo proclamam dois evangelhos distintos, como elementos de duas doutrinas opostas de salvação. O evangelho do cristianismo proclama o triunfo e o senhorio de Jesus e a delegação de poder do Espírito Santo, que capacita os crentes a partiparem profeticamente e a contribuir na nova criação de todas as coisas. O evangelho do capitalismo proclama o triunfo e o senhorio do neoliberalismo, e promete felicidade a todos. Existe uma alternativa.Que o capitalismo surge como uma forma de evangelho já é evidente em Smith, que sustenta que o capitalismo se mostrará capaz de suprir todas as nossas necessidades. O verdadeiro evangelho do capitalismo, no entanto, não vem à luz até o surgimento do neoliberalismo, em que o triunfo do capitalismo torna-se em si mesmo a boa nova.

Supostamente, então, o triunfo do capitalismo no liberalismo econômico trará felicidade a todos nós — sendo que aqui “a felicidade”, escreve Baudrillard, “é o rigoroso equivalente da salvação”. Há, porém, pelo menos dois grandes problemas com essa doutrina utilitária da salvação. O primeiro, como observa Alasdair MacIntyre, é que a noção de “maior das felicidades” carece de conteúdo inequívoco; trata-se, na verdade, de um “pseudo-conceito disponível para diversos usos ideológicos”. O segundo problema está em que no neoliberalismo as pessoas geralmente não são felizes. Porém, tendo sido confrontadas com a proclamação de que as boas novas são chegadas, às pessoasé ordenado que sejam felizes. Você é livre, então deve ser obrigatoriamente feliz8.

Esses diferentes evangelhos revelam também que cristianismo e capitalismo operam com escatologias fundamentalmente distintas. O cristianismo opera com uma escatologia inaugurada mas não consumada, enquanto o capitalismo opera com uma escatologia já plenamente consumada. O ponto de partida da vida cristã é o reconhecimento de que a “nova era” começou com a ressurreição de Jesus e o derramamento do Espírito (escatológico) no Pentecostes. O que começou naquela ocasião, no entanto, ainda aguarda consumação no dia em que Cristo voltar, derrotar seus inimigos e entregar o reino a seu Pai, que fará então novas todas as coisas. Os cristãos vivem, portanto, num momento de tensão em que antecipam o novo em meio ao antigo. Para o capitalismo, no entanto, as coisas são muito diversas. Com o triunfo do neoliberalismo a história (entendida no sentido hegeliano de sociedade em busca de um telos) chegou ao fim. A cartada vencedora do neoliberalismo, portanto, é que não mais existe qualquer alternativa a ele. Como observa William Cavanaugh, isso sinaliza o abandono da escatologia cristã — “não pode haver ruptura com o status quo, não pode haver invasão do reino de Deus, mas apenas incessante novidade superficial”. Essa, no entanto, é precisamente a escatologia que os cristãos devem rejeitar. 

Existe uma alternativa, que é o reino de Deus confessado e recebido como dádiva pelos cristãos. Por essa razão (e pelas razões citadas acima) os cristãos devem abandonar a noção de que devemos operar dentro do capitalismo como se ele fosse a única opção viável, mesmo que qualificada como “menos pior”.

Finalmente, o resultado dessas diferentes doutrinas teológicas são duas antropologias contraditórias. Naturalmente, como nos leva a recordar o testemunho da Bíblia, não é surpresa que ocorra esse resultado, já que a antropologia é uma subcategoria da teologia, sendo fundamentalmente relacionada à adoração (isto é, acabamos nos tornando a espécie de ser que reflete a natureza daquilo que adoramos). Aqui reside o contraste: o cristianismo apresenta os seres humanos como seres criados dentro de um relacionamento e para relacionamentos, enquanto o capitalismo apresenta os seres humanos como unidades individuais de capital. O Deus cristão, na qualidade de Deus triúno, existe dentro de um relacionamento e para o relacionamento. Além disso, porque Deus existe como doador, ser à imagem de Deus é ser também um distribuidor de dádivas. Consequentemente, o modo como o cristão relaciona-se com o outro sofre uma guinada radical. Como observa Moltmann: “Torno-me verdadeiramente livre quando abro minha vida para os outros e a compartilho com eles, e quando outras pessoas abrem suas vidas para mim e as compartilham comigo. A outra pessoa deixa então de ser uma limitação da minha liberdade e passar a ser uma extensão dela”.

O capitalismo, no entanto, ao apresentar as pessoas como unidades individuais de capital, oferece uma antropologia muito distinta, em que as pessoas são tratadas como coisas. Talvez o exemplo mais impressionante dos resultados da antropologia do capitalismo está no modo em que a globalização tem funcionado como poderosíssimo catalisador de tráfico humano, no qual a noção de pessoas-como-mercadoria se mostra sem qualquer máscara9. Porém não é apenas tratando-as como coisas que o capitalismo desumaniza as pessoas; o capitalismo também promove desumanização ao fazer das pessoas indivíduos solitários. Uma vez que o indivíduo é isolado da comunidade, uma vez que se entende que o indivíduo existe à parte do seu relacionamento com outros, a desumanização já está estabelecida. O resultado é permanente competição, e a visão do outro como simultâneos limitação e ameaça.

Tendo concluído essa visão geral sobre as diferenças teológicas entre cristianismo e capitalismo-como-paganismo, deve ter ficado claro porque uma versão meramente reformada do capitalismo não é desejável. O paganismo não se pode reformar. Pode apenas ser abandonado pela adoração do verdadeiro Deus. Consequentemente, se forem confrontar o capitalismo como aparece hoje em dia em sua forma neoliberal, os cristãos devem fazê-lo fundamentados na verdadeira adoração. À luz dessas coisas, vale recordar as palavras de Gregório de Nissa: “Conceitos criam ídolos. Só o assombro é capaz de compreender”.

Daniel Oudshoorn

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