Crer em Deus tornou-se sinônimo de ignorância e alienação. 

A humanidade saiu de um tempo em que crer em Deus era uma exigência para um outro em que crer já não é mais necessário e até desprezível. E isso num período de pouco mais de 300 anos, o que é muito pouco, considerando-se os processos de mudança a que somos submetidos. E o mais impressionante é que o cristianismo assimilou essa mudança produzindo um tipo de fé completamente dissociada da espiritualidade. O cristão, a partir da modernidade, enfrenta um grande risco: crê em Deus, mas vive como se ele não existisse.

Crer em Deus é afirmar seu amor e graça, é não ignorar a injustiça e desigualdade no mundo, é desenvolver a capacidade de perdoar, é superar a tentação de ser autocentrado, é viver no contexto da comunhão. 

É isso que me leva a buscar uma experiência de fé que vá além das expressões religiosas convencionais. Busco por um cristianismo que vá além das dicotomias que estão presentes nos debates religiosos: sagrado e profano, pentecostal e tradicional, teologia da salvação individual e teologia da prosperidade, católico e protestante.

Acredito que estamos vivendo o momento de viver a fé que seja religare, que produza uma teologia que restaure a relação entre Deus e a pessoa, entre as pessoas e os outros e entre as pessoas e o meio ambiente. Precisamos de uma compreensão de fé que supere a apatia e promova uma atitude simpática. Não há como ser cristãos que creem em Deus e até desenvolvem uma prática religiosa, mas age de modo que o chamado para o cumprimento da missão torne-se irrelevante.

As maiores críticas à fé elaboradas pela modernidade não foram sem motivos Freud disse que crer é uma projeção infantil, Marx afirmou que crer é um instrumento de alienação. Nietzsche bradou que crer é uma atitude inútil. A religiosidade e a teologia modernas firmaram-se a partir de um divórcio entre fé e razão, em que a espiritualidade é lançada para fora do mundo do conhecimento. O descentramento – em que Deus é tirado do centro do conhecimento para dar lugar o homem – levou à fragmentação e ao equívoco.

Isso afeta a maneira como vivenciamos a fé na sociedade contemporânea. Principalmente em relação à comunicação do evangelho. Todos os recursos e métodos de evangelização tornaram-se sem sentido para uma humanidade que aprendeu a viver sem Deus. Mais do que nunca, é preciso reafirmar que evangelizar é dizer com a vida que há um Deus que ama. Uma notícia boa alcança a pessoa humana por inteiro porque faz sentido na vida de quem anuncia.

O melhor evangelista não é o que promove um marketing religioso, mas o que se compromete com uma vida santa. Os evangelistas precisam falar de um Deus a quem eles mesmos conhecem com intimidade, como alguém que vive aquilo que prega. Não faz sentido falar de uma vida melhor depois da morte, num céu distante, se não há o que promova libertação e transformação hoje. A mensagem que aponta para o céu precisa também apontar para a transformação aqui e agora.

Irenio Silveira, no Filosofia e Espiritualidade

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