Em nome da felicidade dos casais, as cerimônias matrimoniais religiosas deviam ser radicalmente reconfiguradas. Tá aí uma medida para anteontem. A ladainha do “até que a morte os separe” é uma incorreção flagrante, um equívoco. No mínimo, uma brutal ingenuidade. Porque a morte não separa nada!

Ao contrário, com duas ou três exceções, alguém que enviúva fica ligado para sempre à lembrança do cônjuge que partiu. Ser viúvo é uma espécie de tatuagem emocional, um estigma indelével, uma cicatriz que até se pode amenizar, mas nunca se apaga totalmente. E se você pensar mais além, é bem possível que os casais que se amaram aqui, no solo rachado do planeta, se reencontrem na imensidão do paraíso, dependendo de sua vontade, de seu merecimento e de outras questões. Vai saber, né?

De qualquer forma, o “até que a morte os separe” é uma balela. O que separa mesmo um casal é a vida. Ela, vivinha que só, pulsando volúpia em cada nova possibilidade de afeto. Impossível ser casado, monogâmico e feliz sem fechar as portas, as janelas e os olhos para um monte de coisas da vida além do casamento, a vida que passa “lá fora”, alheia aos compromissos do casal, indiferente à rotina do matrimônio.

Em muitos sentidos, casar-se é renunciar a tudo o que está em terras de além-porta da sua casa ou do seu apê. É, sim, trancar-se a chave nas possibilidades do caminho a dois — que, aliás, são inúmeras e podem ser maravilhosas, mas que a vida, em sua profusão de eventos e em sua diversidade insana, pode fazer parecer mirradas e ridículas. Nesse sentido, ser casado e ser feliz é “abrir o ângulo e fechar o foco”, só para lembrar uma musiquinha linda de Gilberto Gil, que tantas vezes se casou e em todas elas praticou a tão sonhada felicidade conjugal. Até a vida chegar com outra proposta.

Se você se casou e está feliz, parabéns! Merece mesmo toda a felicidade do mundo. Agora, ai de você se olhar para o lado. Deixe entrar no seio nupcial a vida, com suas correntes de vento, pra ver no que dá. Tchauzinho, tranquilidade do casamento.

A vida entra. Mais cedo ou mais tarde, invade o bunker da proteção matrimonial. Chega como uma amiga ou um amigo interessante do casal, enchendo de minhocas a imaginação da mulher, encharcando de volúpia a boca do homem. Chega como um mero desejo de um e de outro relembrarem a alegria da solteirice em inocentes saídas desacompanhadas. Chega sob a forma perversa das chateações inevitáveis do trabalho.

E aí vem uma vontade boba de viver de novo a doce irresponsabilidade de antes. Daí para o fim do casamento é um pulo. Porque a vida une de um lado e separa dos outros. Ah, a vida…Ah! A vida também chega como um filho, fazendo de amantes insaciáveis pais incansáveis mas quase sempre cansados, consumidos pelo amor dedicado e emocionante da paternidade que nos transforma, por um lado, em pessoas melhores, mais cuidadosas, mais responsáveis e, por outro lado, nos rouba quase todo o tempo, o desejo e a energia que antes nos faziam atravessar a noite em ímpetos de amor louco e desejo insano.

Portanto, é urgente que as cerimônias matrimoniais — e todo um estado de coisas que elas encerram e representam — ajustem de uma vez essa abordagem. Assim, livres desse peso bizantino da posse infinita sobre o outro, os casais serão mais felizes, sem ilusão, sem ingenuidade, sem cobranças impossíveis, sem mutilar nossos instintos.

Liberados da fantasia do amor eterno, os noivos serão mais felizes e livres para se amar e respeitar e trabalhar por seu amor sincera e genuinamente, em seu tempo, com o que têm de melhor, na troca honesta de duas pessoas que se encontram e se doam por livre e espontânea expressão de sua vontade, não pela pressão de suas famílias e suas convenções recalcadas e vingativas. Talvez esteja aí uma boa e ampla definição para a palavra “lealdade”.

E que assim se amem lindamente. Até que a vida os separe. Ou — quem sabe? — os una para sempre.

Vale como reflexão!!!

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