A graça tem cheiro de escândalo. Quando alguém perguntou ao teólogo Karl Barth o que ele diria a Adolf Hitler, ele respondeu: "Jesus Cristo morreu pelos seus pecados". Pelos pecados de Hitler? De Judas? A graça não tem limites?

Dois gigantes do Antigo Testamento, Moisés e Davi, cometeram homicídio e Deus ainda os amava. Como já mencionei, outro homem que dirigiu uma campanha de torturas criou um padrão missionário que nunca foi igualado. Paulo nunca se cansou de descrever esse milagre do perdão: "Outrora fui blasfemo e perseguidor e injuriador, mas alcancei misericórdia, porque o fiz ignorantemente, na incredulidade; e a graça de nosso Senhor superabundou com a fé e o amor que há em Cristo Jesus. Fiel é esta palavra e digna de toda a aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal".

Deus assumiu um grande risco anunciando o perdão com antecedência. E o escândalo da graça envolve uma transferência desse risco para nós.

"Verdadeiramente é um erro estar cheio de faltas", disse Pascal, "mas é um erro ainda maior estar cheio delas e não desejar reconhecê-las".

As pessoas se dividem em duas categorias. Não estou me referindo aos culpados e aos "justos", como muitas pessoas pensam. Antes, porém, em duas categorias diferentes de pessoas culpadas. Há pessoas culpadas que reconhecem seus erros. E pessoas culpadas que não os reconhecem. São dois grupos que convergem em uma cena registrada em João 8.

O incidente acontece nos átrios do templo, onde Jesus está ensinando. Um grupo de fariseus e mestres da lei interrompe o "culto" arrastando uma mulher apanhada em adultério. Segundo o costume, ela é desnuda da cintura para cima como prova de sua vergonha. Aterrorizada, indefesa, publicamente humilhada, a mulher se encolhe diante de Jesus, os braços cobrindo os seios nus.

Adultério envolve duas pessoas, naturalmente, mas a mulher está sozinha diante de Jesus (talvez tivesse sido apanhada na cama com um fariseu?). João deixa claro que os acusadores estavam mais interessados em criar uma armadilha para Jesus do que punir um crime. E a armadilha era muito inteligente. A lei de Moisés especificava morte por apedrejamento para o adultério, mas a lei romana proibia os judeus de realizar execuções. Jesus obedeceria a Moisés ou a Roma? Ou Ele, notório por sua misericórdia, encontraria uma maneira dessa adúltera escapar? Neste caso, teria de desafiar a lei de Moisés diante de uma multidão reunida nos próprios átrios do templo. Todos os olhos se fixaram em Jesus.

Nesse momento cheio de tensão, Jesus faz uma coisa diferente: Ele se inclina e escreve no chão com o dedo.

Esta, de fato, é a única cena dos evangelhos que apresenta Jesus escrevendo. Para suas únicas palavras escritas Ele escolheu como agente um galho e escreveu na areia, sabendo que os pés, o vento, ou a chuva logo as apagariam.

Aqueles que estão no auditório vêem, sem dúvida, duas categorias de atores no drama: a mulher culpada apanhada com as mãos sujas, e os acusadores "justos", que são, afinal de contas, profissionais religiosos. Quando Jesus finalmente fala, destrói uma daquelas categorias. — Se algum de vocês não tem pecado — diz o Filho de Deus, — que seja o primeiro a atirar uma pedra nesta mulher.

Novamente Ele se inclina para escrever, marcando passo de novo, e, um a um, todos os acusadores se afastam. A seguir, Jesus se endireita e dirige-se à mulher, que ficou sozinha diante dele. — Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou? — Ninguém, senhor — ela diz.

E para a mulher, tomada pelo terror da expectativa de uma possível execução, Jesus dá o veredito: — Nem eu te condeno... Vai e abandona tua vida de pecado.

Assim, em uma pincelada brilhante, Jesus substitui as duas categorias presumidas, os justos e os culpados, por duas categorias diferentes: os pecadores que admitem o pecado e os pecadores que o negam. 

A mulher apanhada em adultério, desamparada, admitiu sua culpa. Muito mais problemáticas eram as pessoas que, como os fariseus, negavam ou reprimiam a culpa. Eles também precisavam estar de mãos vazias para receber a graça divina. 

O Dr. Paul Tournier expressa este padrão em linguagem psiquiátrica: "Deus apaga a culpa consciente, mas traz à consciência a culpa reprimida".

A cena que se encontra em João 8 me desconcerta porque, por causa de minha própria natureza, identifico-me mais com os acusadores do que com a acusada. Nego mais do que confesso. Envolvendo meus pecados em um manto de respeitabilidade, raramente — ou nunca — me deixo apanhar em uma indiscrição espalhafatosa e pública. Mas, se entendo corretamente esta história, a mulher pecadora é a que está mais próxima do reino de Deus. De fato, só posso avançar no reino se me tornar como essa mulher: trêmula, humilde, sem desculpas, as mãos abertas para receber a graça de Deus.

Juliano Fabricio degustando 
Maravilhosa Graça de 
JESUS  lendo Philip Yancey

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