A felicidade que Deus quis para suas criaturas mais elevadas é a felicidade de estar, de forma livre e voluntária, unidas a ele e aos demais seres num êxtase de amor e deleite ao qual os maiores arroubos de paixão terrena entre um homem e uma mulher não se comparam. Por isso, essas criaturas têm de ser livres. 

É claro que Deus sabia o que poderia acontecer se a liberdade fosse usada de forma errada. 

Aparentemente, ele achou que valia a pena correr o risco.

Quando penso no arrependimento lembro-me que essa entrega voluntária à humilhação e a um tipo de morte não é algo que Deus exige de nós para que nos aceite de volta ou algo do qual pode nos livrar, se assim decidir. É simplesmente uma descrição de como é o próprio retorno a Deus. Se pedimos que ele nos aceite sem esse arrependimento, estamos na verdade pedindo para voltar sem voltar. Não é possível. Pois muito bem, temos de nos arrepender. 

Entretanto, a maldade que nos faz precisar disso nos impede de fazê-lo. Será que podemos arrepender-nos se Deus nos ajudar? Sim, mas o que significa essa ajuda? Significa que Deus, por assim dizer, coloca um pouco de si mesmo em nós. Empresta-nos um pouco da sua razão e assim nos tornamos capazes de pensar; nos dá um pouco do seu amor e, dessa maneira, amamos uns aos outros. Quando ensinamos uma criança a escrever, seguramos-lhe a mão, ajudando-a a desenhar as letras. Ou seja, ela só pode formar as letras porque nós as formamos. Nós amamos e raciocinamos porque Deus ama e raciocina e, enquanto isso, segura a nossa mão. Se não tivéssemos caído, tudo iria de vento em popa. 

Infelizmente, em nosso estado atual, precisamos da ajuda de Deus para fazer algo que, pela sua própria natureza, ele nunca faz: render-se, sofrer, submeter-se e morrer. A natureza divina não condiz em nada com esse processo. A estrada em que mais precisamos ser guiados por Deus é uma estrada que Deus, em sua própria natureza, nunca trilhou. Deus só pode partilhar conosco o que tem; mas ele não tem essas coisas em sua própria natureza. 

Suponha, no entanto, que Deus se torne homem. Suponha que nossa natureza humana seja amalgamada com a divina na forma de uma pessoa. Essa pessoa poderia nos ajudar. Poderia submeter-se à vontade de Deus, sofrer e morrer, porque seria um ser humano. Poderia fazer tudo isso perfeitamente, porque concomitantemente seria Deus. Você e eu só podemos percorrer esse processo se Deus o fizer ocorrer em nós; mas Deus só pode fazê-lo se for um homem. Assim como nosso pensamento só pode ir adiante por ser uma gota tirada do oceano da inteligência divina, assim também nossa tentativa de morrer só dá certo se participarmos da morte de Deus. Porém, só podemos participar dessa morte se ele morrer; e ele só pode morrer se for um homem. E nesse sentido que ele paga as nossas dívidas e sofre por nós aquilo que, por sua própria natureza, não precisaria sofrer de modo algum. 

Certas pessoas se queixam de que, se Jesus foi ao mesmo tempo Deus e homem, seus sofrimentos e sua morte não têm valor nenhum, "pois tudo isso foi fácil para ele". Outras pessoas podem (com toda razão) pro-testar veementemente contra a ingratidão e a grosseria dessa objeção. O que me deixa espantado é a incom-preensão que ela revela. Em certo sentido, os adeptos dessa objeção não só têm razão como mesmo foram tí-midos em explorar a idéia. A submissão perfeita, o sofrimento perfeito e a morte perfeita não foram somente mais fáceis para Jesus porque ele era Deus; só foram possíveis porque ele era Deus. Mas não será essa uma razão muito estranha para não aceitar essa submissão, esse sofrimento e essa morte? 

O professor é capaz de ajudar as crianças a formar as letras porque é adulto e sabe escrever. Evidentemente, para o professor é fácil escrever, e é essa mesma facilidade que o habilita a ajudar a criança. Se ele fosse rejeitado com a desculpa de que essa tarefa "é fácil para adultos", e a criança quisesse aprender a escrever com outra criança igualmente analfabeta (o que anularia qualquer vantagem "injusta"), o progresso dela não seria lá muito rápido. Se eu estivesse me afogando numa corredeira, um homem que tivesse um dos pés solidamente plantado na margem do rio poderia estender a mão e salvar-me a vida. Será que eu deveria (entre um engasgo e outro) gritar: "Não! Isso não é justo! Você tem uma vantagem! Ainda está com um dos pés em terra firme!"? A vantagem — chame-a de "injusta", se quiser — é o único motivo pelo qual esse homem me pode ser útil. Em quem buscaremos socorro, senão em alguém mais forte do que nós? 

Essa é minha própria maneira de ver o que os cristãos chamam de Expiação. Lembre-se, porém, de que se trata apenas de mais uma imagem, que não deve ser confundida com a realidade. Se ela não lhe for útil, deixe-a de lado. 

As pessoas se perguntam quando ocorrerá o próximo passo da evolução — um passo para além do próprio homem —, mas, segundo o cristianismo, esse passo já foi dado. Em Cristo, um novo homem surgiu; e o novo tipo de vida que começou nele deve ser instilado em nós.

C. S. LEWIS em
CRISTIANISMO PURO E SIMPLES

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