E claro que baseio essa descrição, claro, na figura de Jesus como ele é apresentado nos evangelhos. Porque o que tornava o rabi de Nazaré irresistível para alguns e insuportável para outros era essa sua mesma característica: sua gana por partir em defesa daqueles que, em um dado contexto, eram tidos como indefensáveis.

Na prática, seu cavalheirismo intervia de modo a promover uma reversão inesperada e imediata de papéis e de expectativas. A mulher apanhada em adultério saiu da presença de Jesus viva, livre e em pé, sua situação inteiramente revertida pelo toque da gentileza do homem que escrevia no chão como se tivesse mais o que fazer. Conforme apontado por Paul Tournier (ele mesmo um impenitente cavalheiro cristão) Jesus promoveu nesse caso o que trabalhava para promover em todos: a reversão da culpa, o ministério benfazejo e altamente subversivo de fazer com que os inocentes se sintam culpados e os culpados se sintam inocentes.

Não há na verdade postura mais cavalheiresca do que essa, e o Filho do Homem a celebrava por onde fosse. Os leprosos ritualmente impuros que buscavam de Jesus a cura ganhavam dele primeiro o seu toque, sua companhia, sua conversa e seu abraço – coisas que em termos religiosos e culturais lhe custavam muito mais. Zaqueu, o corrupto e impopular cobrador de impostos, foi buscado ativamente pela intransigente gentileza de Jesus, e logo ficou demonstrado que suas públicas e consideráveis inadequações não teriam como não ser revertidas por ela. A mulher sem pretensões e sem ficha limpa que lavava os pés do rabi na casa de teólogos sofisticados foi prontamente denunciada por eles como indigna das atenções de Jesus, mas conheceu ela também o cavalheirismo implacável e redentor do Filho do Homem: a pecadora que todos condenavam sentiu-se aceita e amada, os chanceleres da ortodoxia viram-se publicamente denunciados e embaraçados.

O cavalheirismo de Jesus, em sua exuberância, tinha um caráter regulador: buscava reverter a injustiça, e seu método era desqualificar o discurso de exclusão, deixando ao opressor a saída honrosa de desligar-se desse discurso. Desarmada a armadilha, tudo que devia restar era equilíbrio entre os envolvidos: ninguém mata ninguém, todos reveem seus julgamentos e todos voltam para casa em um mundo em que nada é tão simples quanto parecia. Um mundo em que ninguém deve sentir-se livre para usar um discurso de modo a desqualificar ninguém.

Desse modo, em cada passo que dava e em cada história que contava, Jesus fazia avançar seu projeto de inclusão dos marginalizados e de denúncia dos sistemas de opressão e de rejeição.

Quando se ajoelhava para lavar os pés maltratados de homens comuns; quando descrevia a alegria de um pai correndo para acolher como rei o filho que tinha desperdiçado metade do seu capital em baladas e prostitutas; quando contava a história do banquete que os notáveis recusaram e para os quais foram convidados os habitantes da sarjeta; quando abraçava leprosos, quando dormia na casa de agiotas, quando elogiava prostitutas, quando comia com pecadores, quando dormia entre pescadores, quando tomava por digna de memória a postura de mulheres cuja conduta sexual todos condenavam; quando fazia esse tipo de coisa, que para ele era indistinguível de viver, Jesus estava fazendo o que ninguém antes dele havia feito nos anais da história: com que as minorias se sentissem aceitas.

Essa é a herança, em grande parte perdida, do cavalheirismo cristão

Tomando como modelo a postura de Jesus, sua aspiração mais consistente é promover a inclusão, denunciando publicamente e anulando os discursos de exclusão. Ele é sempre regulador. É sempre inclusivo. Faz com que os desqualificados sintam-se aceitos, os opressores desarmados.

Se vivesse nos nossos dias, Jesus por certo defenderia diante de cristãos conservadores aqueles que nesse meio são tomados por particularmente inaceitáveis (“olhem que os drogados, os travestis e os comunistas estão entrando no reino de Deus antes de vocês!”, ele diria, sem ter de recorrer à hipérbole). Ao mesmo tempo não é improvável que, diante de homossexuais, Jesus contasse uma parábola em que um crente ultraconservador é aquele disposto a promover inclusão, e em que gays e transexuais mostram-se falhos e preconceituosos.

Trata-se, em cada caso, de desarmar discursos que promovem a desqualificação, de anular aqueles discursos que num certo círculo determinam que certas pessoas são indefensáveis. O cavalheirismo divino é o regime da gentileza universal, e requer que todos os preconceitos e lugares-comuns sejam revisados. Seu reino é o da inclusão de todos. Não tendo ilusões a respeito da condição humana, ele não ignora que o único modo acurado de nivelar os homens é por baixo – chamando à lucidez e à realidade aqueles de nós que estão se achando.

Com toda a distinção, mas sem deixar margem de dúvida, a mensagem da galanteria cristã dirige-se a quem está promovendo exclusão e diz, essencialmente: “Pare de julgar, velho. Quem é você pra ficar falando do cisco no olho do outro, quando você anda por aí com uma tábua no seu? Não há caso em que julgar alguém mais digno de condenação do que você não implique numa incorreção e numa estupidez. Não há exceções.”

A coisa mais cavalheiresca que Deus fez foi vulnerabilizar-se, foi virar gente de carne, como se não estivesse acima de ninguém. Como o pai do filho pródigo, os olhos fixos na distância, Deus espera contra toda a esperança que reapareçamos diante dele sem outra bagagem além daquela de entender que não somos melhores do que ninguém.

Ps: A herança cavalheiresca deixada por Jesus contribuiu para moldar a postura de pessoas tão diversas quando Dante Alighieri, Francesco di Assisi, Erasmo de Rotterdam, Abraham Lincoln, os abolicionistas de todas as eras, Leon Tolstoi, Martin Luther King, Dietrich Bonhoeffer e Mahatma Gandhi. Esses e muitos outros enfrentaram severa oposição por ousarem questionar os limites estabelecidos entre as gentes e oferecer ao mesmo tempo uma alternativa mais gentil e inclusiva. Enfrentaram, todos em alguma medida, o que Jesus enfrentou. Sua intransigência em fazer com que as minorias se sentissem aceitas levava as maiorias a sentirem-se ameaçadas em suas certezas e privilégios – em seu poder. Muitos foram considerados tão incômodos que tiveram de ter sua influência deliberadamente removida deste mundo.

Surrupiado de forma galanteadora em baciadasalmas
(texto original : A ARTE PERDIDA DO CAVALHEIRISMO CRISTÃO)

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