Não falta quem discorde da tese de Weber de que a teologia cal­vi­nista acabou pre­ci­pi­tando ine­vi­ta­vel­mente a ascensão do capi­ta­lismo. A dúvida parece estar em se a ética pro­tes­tante ocasionou o capi­ta­lismo ou se meramente facilitou-o. No que me diz respeito já é sufi­ci­en­te­mente des­con­cer­tante que ela não o tenha evitado.

Mesmo quem desconfia das con­clu­sões de Weber não tem como negar que a rápida expansão do comércio e a ascensão do indus­tri­a­lismo coin­ci­di­ram pre­ci­sa­mente com o incêndio revo­lu­ci­o­ná­rio da Reforma Pro­tes­tante. Para o bem ou para o mal de sua reputação, a tra­je­tó­ria do cris­ti­a­nismo evangélico/protestante foi desde o princípio associada a uma postura agres­si­va­mente mer­can­ti­lista, e o sucesso histórico dessa conjunção protestantismo/capitalismo é espe­ta­cu­lar­mente epi­to­mi­zado nos nossos dias pelos Estados Unidos.

A expansão do comércio e a ascensão do indus­tri­a­lismo coin­ci­di­ram com a Reforma Protestante.

Assim que surgiram em cena, na verdade, os pro­tes­tan­tes roubaram do o mundo católico o monopólio da transação comercial e do fluxo de riquezas. Os agi­lís­si­mos holan­de­ses, com o sucesso enxuto de suas gêmeas Com­pa­nhias das Índias (Orientais e Oci­den­tais), des­ban­ca­ram com faci­li­dade os católicos por­tu­gue­ses – sendo que Portugal é que havia inau­gu­rado e colocado em fun­ci­o­na­mento a primeira rede comercial ver­da­dei­ra­mente inter­na­ci­o­nal, com rami­fi­ca­ções em todos os continentes.

A ascensão dos holan­de­ses foi a primeira mani­fes­ta­ção inequí­voca de uma tendência que não seria mais revertida. A partir daquele momentos os países católicos, que haviam sido tra­di­ci­o­nal­mente ricos e pre­ga­do­res da pobreza, tornaram-se tra­di­ci­o­nal­mente pobres e à margem da riqueza. Para ser realmente rico e desfrutar do grosso da riqueza tornou-se neces­sá­rio, mais ou menos como nos nossos dias, nascer ou transferir-se para um país de tradição ou colo­ni­za­ção protestante.

* * *

Levada às últimas con­seqüên­cias, a visão de mundo protestante/capitalista gerou o nosso mundo e seu exigente culto da per­for­mance: a glo­ri­fi­ca­ção final do sucesso e do desem­pe­nho. Porque, como vivo dizendo, o capi­ta­lismo é religião; seu deus, ao contrário do que se pensa, não é o dinheiro, mas a per­for­mance.

Resta-nos pouca moral, mas o que nossa ética de fato cultua é o talento e o empre­en­do­rismo. Os heróis e santos con­tem­po­râ­neos são ine­qui­vo­ca­mente os ven­ce­do­res, os talen­to­sos, os empre­en­de­do­res, os famosos, os bem-sucedidos. Esses, no nosso livrinho, é que são gente edi­fi­cante, de valor, a ser admirada, seguida e – se tudo der certo – superada. O que temos no fim das contas não nos satisfaz, porque medimos nossa própria feli­ci­dade pela proporção em que nos con­for­ma­mos aos padrões e pre­ce­den­tes esta­be­le­ci­dos pelos mais tec­ni­ca­mente bem-sucedidos que nós.

Nossa teologia é o libe­ra­lismo econômico, nosso deus a performance.

É na verdade apenas essa crença no mérito inerente do desem­pe­nho que nos faz posi­ci­o­nar contra pecados modernos como a corrupção. O problema da corrupção, por essa nossa visão de mundo, é que ela impede o livre curso e a supre­ma­cia da per­for­mance – quando cremos que a per­for­mance é a ver­da­deira medida do valor. A corrupção nos parece ruim porque não permite que os ver­da­dei­ra­mente talen­to­sos e esfor­ça­dos sejam recom­pen­sa­dos. E que os talen­to­sos e esfor­ça­dos devem ser recom­pen­sa­dos e os incom­pe­ten­tes e pre­gui­ço­sos punidos, é inques­ti­o­nado item de fé da nossa religião.

Nosso panteão é por essa razão povoado por gente admirável como Ayrton Senna, Paul McCartney, Steve Jobs, George Clooney e Bill Gates – gente que se define pela natu­ra­li­dade com que palmilha os átrios do talento e do empre­en­de­do­rismo no templo do sucesso.

Natu­ral­mente que nossa idolatria da per­for­mance é, por neces­si­dade, con­tra­di­tó­ria e dis­tor­cida. Na mesma medida em que nos pros­tra­mos diante de santos con­tem­po­râ­neos como Senna, nos delei­ta­mos na des­cons­tru­ção pública de outros de nossos ícones. Acom­pa­nha­mos com delícia e horror o espe­tá­culo da auto-destruição de Michael Jackson ou a infâmia do mais recente ídolo do rock encon­trado morto e drogrado e nu (não neces­sa­ri­a­mente nessa ordem) em sua banheira. Torcemos pela pobre­zi­nha do Big Brother, e no momento seguinte vemos com um misto de inveja e indig­na­ção sua decisão de posar para a Playboy. Intuímos, no entanto, que faz tudo parte do espe­tá­culo e que toda religião tem seus sacri­fí­cios e vítimas.

* * *

O paradoxal está em observar que a origem do culto con­tem­po­râ­neo da per­for­mance pode ser traçada com grande acerto até a teologia da Reforma. É paradoxal porque os refor­ma­do­res definiram-se, ori­gi­nal­mente, por recu­pe­ra­rem um aspecto vital do Novo Tes­ta­mento que os católicos haviam perdido de vista: o conceito radical de graça – conceito que, em sua acepção original, não poderia ser mais avesso a defor­mi­da­des como o culto da performance.

A graça é tão difícil de definir quanto difícil de acreditar. É por certo um mons­tru­oso escândalo à religião e à moral, porque sustenta, basi­ca­mente, que Deus não acolhe as pessoas pela con­sis­tên­cia do seu desem­pe­nho religioso, ético, social ou pro­fis­si­o­nal, mas uni­ca­mente pela sua graça – seu próprio cava­lhei­rismo, gra­ci­o­si­dade e incli­na­ção em perdoar. Segundo a visão de mundo do Novo Tes­ta­mento, é apenas devido a essa postura graciosa de Deus que gente sem qualquer mérito como nós mesmos e o vil ladrão cru­ci­fi­cado ao lado de Jesus pode ser acolhida no Reino sem nenhum trâmite adicional.

A boa nova da graça explica que Deus não escolhe escolher pessoas pelo seu desem­pe­nho admirável, porque do contrário não teria ninguém para escolher. Admirável é Deus, que ao contrário de nós acolhe e aceita as pessoas sem critério algum. Para o indivíduo a graça é libe­ra­dora porque liberta da escra­vi­dão do desem­pe­nho; ela esclarece que vale tanto controlar o tráfego aéreo de uma grande cidade quanto passar a tarde aquecendo um gatinho entre as mãos.

A graça é apa­vo­ran­te­mente inclusiva e deve ser mani­pu­lada com horror porque anula o mérito de todo sistema religioso; a graça torna intei­ra­mente con­tra­pro­du­cente, insensata e obsoleta a noção de religião como esforço ritual de religar o homem a Deus. O cris­ti­a­nismo, conforme exposto no Novo Tes­ta­mento, esta­be­lece tanto o Reino de Deus quanto o fim da religião – eventos que devem ser enten­di­dos como uma mesma e for­mi­dá­vel coisa.

Notáveis, para Jesus, são os que vivem deli­be­ra­da­mente à margem do culto da performance.

O ensino de Jesus a respeito do Reino de Deus – a respeito da graça na vida real – é, fun­da­men­tal­mente, uma des­cons­tru­ção das nossas idéias pre­con­ce­bi­das sobre os méritos inerentes da per­for­mance. Na visão revo­lu­ci­o­ná­ria de Jesus, felizes são os des­ven­tu­ra­dos, os em aperto, os endi­vi­da­dos, os amar­gu­ra­dos de espírito, os per­se­gui­dos, os incom­pre­en­di­dos, os rebeldes, os esque­ci­dos. Segundo esse ensino, não há nada de ine­ren­te­mente notável ou meritório no empre­en­de­do­rismo ou na per­for­mance; pelo contrário, o bem-sucedido está em des­van­ta­gem porque do seu posto pri­vi­le­gi­ado é mais fácil perder de vista o Reino de Deus – e nada há de admirável ou desejável nessa perspectiva.

Notáveis, para Jesus, são os que não estão nem aí para o culto da per­for­mance; que vivem deli­be­ra­da­mente à margem dos valores do mundo e não servem às riquezas porque querem servir a Deus; que não andam ansiosos com o dia de amanhã porque crêem sur­pre­en­den­te­mente que a vida é mais do que o alimento, o corpo mais do que as vestes e a casa mais do que o Sound System: os tolos, os impru­den­tes, os des­pre­pa­ra­dos, os marginais, os insen­sa­tos, os paci­fi­ca­do­res, os que não se destacam em nada, os confusos, os des­tram­be­lha­dos, os altruís­tas, os medíocres, os fracos.

Todos, talvez. Você, cer­ta­mente. Eu, em particular.

O culto da per­for­mance é tão universal que requer cuidadosa e contínua des­cons­tru­ção. Todos que temos acesso à internet e sabemos ler e escrever estamos por certo até o pescoço mer­gu­lha­dos nele. De fato cremos que o Paulo Brabo é admirável porque usa palavras que a gente não espera, faz desenhos engra­ça­di­nhos para o HSBC e é cer­ta­mente bem pago por isso; de fato cremos que o notável merece mais defe­rên­cia do que o cobrador do ônibus ou o esta­giá­rio da repro­gra­fia. Sem contar breves inter­va­los de lucidez, eu e você de fato acre­di­ta­mos nisso – porque vivemos sob a sombra oni­pre­sente do deus da per­for­mance. De fato nos dobramos a esse deus e o cultuamos; de fato ajoelhamo-nos diante do seu altar todos os dias e entoamos sentidos louvores e prestamos exi­gen­tís­simo sacrifício.

Performace muito boa 

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