Há alguns dias, passei horas e horas ouvindo sermões, palestras e entrevistas de Martin Luther King Junior. Confesso meu total fascínio pela vida, obra e legado desse pastor batista que certamente representava, não uma religião, mas a humanidade. Em 3 de abril de 1968, véspera do seu assassinato, ele falou como profeta:

"Bem, agora não sei o que me acontecerá. Teremos alguns dias muito difíceis pela frente. Não tem importância para mim agora, porque eu já estive no topo da montanha. Não me importo. Como qualquer um, eu gostaria de ter vida longa. Longevidade tem o seu lugar. Mas não estou preocupado com isso agora. Eu só quero fazer a vontade de Deus. E ele tem me deixado ir ao topo da montanha, já posso enxergá-la; eu já vi a terra prometida. Talvez não chegue lá com vocês. Mas quero que saibam hoje à noite, que nós, como povo alcançaremos a terra prometida. Estou feliz nesta noite. Não estou preocupado com nada. Não estou com medo de nenhum homem. Meus olhos já viram a glória da vinda do Senhor."

No dia em que Nelson Mandela foi libertado na África do Sul, o mundo parou. Chorei ao ver o rosto sorridente de um homem que amargou 27 anos atrás das grades por jamais se dobrar ao inaceitável. Eu me sentia africano com os africanos. Nossa sede de justiça não deve ser igual à busca dos nossos direitos. Mesmo que não me alcance diretamente, tudo o que é certo merece o meu compromisso. Celebro sempre que os vergões da escravidão, as algemas da injustiça ou o preconceito da exclusão caem por terra. A história muitas vezes se arrasta, lenta e contraditória. Depois, como um raio, vem com o veredicto impressionante de que o mal não triunfará.

Não devemos ter medo de ser contraditos quando intolerância e preconceito perdem força. Lembro que Deus sorriu no dia em que as escravas trocaram seu lamento pelo riso, no dia em que os negros puderam andar de cabeça erguida, no dia em que não se sentirem diminuídos pelo ódio racial, no dia em que desmoronou a louca teologia que unia a maldição de Cã, filho de Noé, aos afro-descendentes.

Já vi a face do ódio. Eu pregava uma série de conferências em uma igreja pentecostal no sul dos Estados Unidos. Com a manhã livre, o pastor me convidou a acompanha-lo numa visita a um membro de sua comunidade que estava no hospital. Ao pé do leito, o pastor comentou que vinha notando a ausência do homem e lhe perguntou por que motivo faltava aos cultos. O doente respondeu com os olhos baços: “Não volto naquela igreja enquanto negros continuarem frequentando os cultos”. “Mas os negros também são filhos de Deus”, retrucou o pastor. Mal acreditei no racismo que brotava dos lábios de um pseudo-cristão: “Nunca. Negros não são filhos de Deus. Eles não têm alma”. Envergonhado, o meu amigo abreviou a conversa. Saímos cabisbaixos. No trajeto de volta até o hotel, não trocamos nenhuma palavra de tão constrangidos.

A Ku Klux Klan não prevaleceu. Rosa Parks, a costureira do Alabama que teimou em não ceder o lugar no ônibus para um branco, hoje sorri de alegria. Depois de décadas, fez-se justiça a Medgar Evers, covardemente assassinado no Mississipi. Martin Luther King não cessa de ser citado como um homem que tomou a não-violência como bandeira. A história cospe os odiosos para a sarjeta do esquecimento.

Sinto-me privilegiado sempre que testemunho pequenos – e grandes – avanços nos direitos civis, na inclusão de excluídos e no reconhecimento da dignidade humana. Todas as vezes que o certo, o justo e o direito vencem na longa – oblíqua e muitas vezes esburacada – estrada da humanidade, repito para mim mesmo o que Jesus prometeu: “os mansos herdarão a terra”.


Ps: Considero este, entre tantos outros textos que você já escreveu, uma espécie de texto-testamento, no qual está registrado o seu compromisso com a humanidade, com o oprimido, com amor. Esta é a memória que você tem construído para si: um cristão que, apesar de todas as oposições institucionais e inquisicionais, tem se comprometido com o fundamento do evangelho – o amor – até a última consequência. Sua vida me inspira.

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